Crítica | Guardiões da Galáxia – Vol. 4 (2015-2017)

estrelas 4

Brian Michael Bendis teve uma entrada bastante conturbada quando se trata dos Guardiões da Galáxia. O volume três dos “vingadores cósmicos”, como foram chamados nessas edições, parecia uma grande encheção de linguiça da Marvel Comics, que parecia julgar a revista própria apenas para participar de suas sagas megalomaníacas como coadjuvantes glorificados. Durante os vinte e sete números da revista, Bendis não conseguiu nos entregar sequer um arco com início, meio e fim bem construídos, em virtude das constantes interrupções de eventos maiores da editora. Felizmente, o sucesso do filme de 2014 certamente surtiu um belo efeito nos quadrinhos e, nesse volume quatro, o roteirista conseguiu se redimir, nos entregando histórias que fazem jus ao que Andy Lanning e Dan Abnett criaram em 2008.

Apesar de ter a numeração zerada novamente, essa nova publicação dos Guardiões continua praticamente de onde fomos deixados ao término do volume anterior e, consequentemente, da saga O Vórtice Negro. Peter Quill agora é rei eleito de Spartax e Kitty Pryde, sua namorada/ noiva/ esposa (nem eles próprios sabem ao certo) tomou seu lugar na equipe. Evidente que isso não duraria muito, já que Quill serve para qualquer coisa, exceto aguentar as toneladas de burocracia de um planeta. Para agilizar essa queda de Peter como governante, Hala, a acusadora, suposta última sobrevivente dessa ordem dos Kree, jura vingança aos Guardiões, acreditando que eles foram os responsáveis pela destruição de seu planeta (eventos de O Vórtice Negro).

O que Bendis realiza nessa sua jornada final, é certamente uma das histórias mais coesas de toda a história dessa nova formação dos Guardiões. Do início ao fim, um fato puxa o outro, ao passo que testemunhamos pouquíssimas elipses e mesmo essas, presentes no início de cada um dos quatro arcos, não nos distanciam muito de onde fomos deixados na revista anterior. Enfim sentimos, de fato, como se estivéssemos acompanhando as aventuras da equipe e não somente uma colcha de retalhos formada através da participação deles em inúmeros eventos maiores da Marvel. Até mesmo a breve incursão de Peter & Co. pela Guerra Civil II é bem encaixada com o restante do volume, servindo, inclusive, como estopim para o último arco de Bendis, Grounded.

Ao terminar a leitura, fica bastante claro, ao leitor, que o roteirista tinha uma história feita em sua cabeça, pronta para ser contada. Em cada número ele nos oferece pinceladas de informações que, aos poucos, compõem o quadro geral, nos preparando para a batalha final das edições finais, um conflito há muito adiado e que, sob diversos aspectos, estivera sendo adiada desde o volume três. Cuidadosamente, o autor trabalha os seus personagens, com um destaque especial para Peter, Kitty e Gamora, explorando não somente os eventos presentes, como o passado de cada um, resgatando elementos trabalhados por Abnett e Lanning, tanto em A Imperativa Thanos, quanto na revista principal dos Guardiões da Galáxia. Dito isso, é gratificante enxergar que Bendis decidiu encerrar sua jornada com essa equipe através de um conflito com Thanos, da mesma forma que seus predecessores o fizeram, garantindo, portanto, um teor cíclico à narrativa.

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Não podemos, é claro, deixar de falar sobre as “participações especiais” do volume, como Ben Grimm, Kitty, Angela e outros. Pryde já fora estabelecida como membro da equipe anteriormente e seu relacionamento com Quill é muito bem trabalhado, explorando a personalidade de ambos os personagens, mantendo o romance como uma constante incógnita, o que nos traz alguns hilários momentos de “D.R.”, jamais deixando a história ficar “piegas” demais. O Coisa, por sua vez, tem uma ótima dinâmica criada com o restante da equipe e, de imediato, o roteiro trabalha a sua vontade de estar fora da Terra, ainda que não nos diga exatamente o que o motivara a sair. Já Angela é trazida de volta mais para criar um vínculo com o volume três, mas sua camaradagem com os Guardiões dialoga perfeitamente com as histórias anteriores.

Bendis, contudo, não acerta totalmente na revista, errando, principalmente, no desfecho de cada arco. Embora, sabiamente, não construa algo verdadeiramente grandioso (na maior parte das vezes), sentimos como se cada fim fosse bastante anticlimático, com batalhas sendo resolvidas em instantes e outras simplesmente sendo puladas, como é o caso de Guerra Civil II. Nesse último caso a intenção era criar uma saída mais cômica e, de fato, o autor consegue tirar algumas boas risadas do leitor, mas continuamos sentindo aquele gosto de “quero mais”, que jamais é saciado. Felizmente, logo após cada um desses encerramentos já somos jogados direto, sem qualquer ruptura narrativa, no próximo arco, o que nos deixa ansiosos pelo que está por vir.

O texto escrito não é o único fator a contribuir para a grande coesão encontrada nesse volume. Nas mãos de Valerio Schiti, que permanece do início ao fim da revista, ao contrário da esquizofrenia da fase de 2013-2015, a arte nos cativa desde as primeiras páginas. Sabendo dialogar com o caráter mais cômico dos Guardiões, trazendo expressões caricatas, que muito bem resumem as emoções de cada personagem, o artista mantém o bom humor característico da revista como uma constante. É bastante gratificante enxergar como Schiti sabe trabalhar tanto os momentos mais íntimos desses dezenove números, quanto as grandes batalhas, criando quadros fáceis de entender, não importa quantos elementos estejam dentro deles. Fica bastante claro que o traço captou bem a alma dessa equipe, tornando toda a leitura fluida e prazerosa.

É fácil entender, portanto, por que o volume quatro de Guardiões da Galáxia se manteve em um nível de qualidade tão acima do anterior. Brian Michael Bendis acerta em cheio na construção dessa sua história, dessa vez, conseguindo nos trazer algo com início, meio e fim, mesmo com a presença de Guerra Civil II no meio de algumas edições. Temos aqui uma fase que resgata tudo o que fizera dos Guardiões uma leitura tão divertida e é nesse auge que Bendis se despede do grupo, já deixando saudades, como todo bom contador de histórias deve fazer.

Guardiões da Galáxia – Vol. 4 — EUA, 2015-2017
Contendo:
Guardiões da Galáxia (2015 – 2017 ) #01 a #19
Roteiro:
Brian Michael Bendis
Arte: 
Valerio Schiti
Cores:
Richard Isanove
Letras: 
Cory Petit
Editora original:
Marvel Comics
Data original de publicação: 
dezembro de 2015 a abril de 2017
Editora no Brasil:
Panini Comics
Data de publicação no Brasil: 
não publicado inteiramente no Brasil até a data de publicação da crítica
Páginas: 
472

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.