Crítica | Guardiões da Galáxia

estrelas 4,5

Venha comigo a 2008, para a estreia de Homem de Ferro. Aqui realizo uma confissão: não acompanhei a produção do filme e não esperava nem algo bom ou algo ruim da obra, mas mesmo assim fui assistir. Não é preciso dizer que fui surpreendido e quem disser que não o foi provavelmente estará se enganando. Ninguém, fã ou não de Tony Stark, esperava o resultado que abriria os portões do Universo Cinematográfico Marvel. Agora voltemos para 2014 e esqueça o bilionário, playboy e filantropo, o Deus do Trovão, o Primeiro Vingador e aquela Incrível criatura verde. De fato, esqueça até mesmo suas expectativas para o filme agora em questão. Guardiões da Galáxia é algo inesperado e à parte do que vimos até então.

Awesome Mix Vol. 1 é a primeira coisa que vemos em tela. A câmera está em um jovem garoto, Peter Quill, sentado em um hospital ouvindo seu toca fitas antigo. Logo descobrimos que este é o leito de morte de sua mãe e que uma nave alienígena apareceria, quebrando a sua tristeza e nos levando para o logo da Marvel Studios nos mostrando centenas de páginas de quadrinhos. Somos transportados para vinte e seis anos depois e nos encontramos com um Peter mais velho (Chris Pratt), utilizando sua máscara tirada das páginas de seu ressurgimento no Universo Marvel, na saga Aniquilação 2: A Conquista. Aqui, o espetáculo visual começa a ganhar imponência. Com uma paleta de cores que contrasta o vibrante vermelho de seu visor, com a superfície árida de um planeta fantasma, Morag, o filme começa a sugar o espectador para uma narrativa nada menos que completamente imersiva, fazendo um uso sinérgico do 3D ao compor aquele cenário cósmico, repleto de rochas, estrelas e nebulosas. O Senhor das Estrelas, então, retira sua máscara e, de imediato, já arranca as primeiras risadas da plateia que são acompanhadas pelo título Guardiões da Galáxia e uma característica melodia.

A partir destas cenas iniciais, acompanhamos Quill tentando vender uma esfera, referida como o Orbe, obtida em Morag. Sua busca por dinheiro, contudo, acaba criando alguns inimigos que também buscam esse mesmo objeto misterioso. Refiro-me especificamente a Ronan, o Acusador (Lee Pace), que segue à risca o código de lei de sua raça, os Kree, que recentemente assinou um tratado de paz com o Império Nova. O cenário ainda se expande, ao descobrirmos, logo cedo, que o Kree está em contato com Thanos (vivido de forma ameaçadora por Josh Brolin), cuja primeira aparição é a famosa cena pós-créditos de Os Vingadores. Aqui, já podemos ressaltar uma grande qualidade da obra: seu universo vivo e a forma como é abordado. A maquiagem e os efeitos especiais, portanto, ocupam um papel central, trazendo para a realidade cada um desses extraterrestres. A paleta de cores, já citada, apesar de fazer constante uso do grande contraste de cores mais quentes com outras mais sóbrias, consegue parecer natural, sem soar espalhafatoso demais como no poster de Gamora. Embora alguns aspectos sejam lidados com cautela (como trataremos posteriormente), Gunn faz bom uso da mitologia a seu dispor, encadeando diversos locais e personagens, como o Colecionador (Benicio del Toro, reprisando seu papel já visto na cena pós-créditos de Thor 2), sem pecar com uma overdose de informações para o espectador.  Assim, rapidamente podemos entender a presença de inúmeros vilões ou antagonistas, todos possuindo o papel definidor de aproximar os Guardiões, que, de forma natural, logo se veem juntos.

Mas não se enganem, não estamos diante das velhas histórias de origem vistas nos filmes de super-herói. Quando a projeção é iniciada, somos levados em uma verdadeira aventura espacial que somente se encerra nos créditos finais, criando uma clara sensação de distanciamento daqueles primeiros minutos da obra, que, efetivamente, foram há apenas duas horas, mas que parecem ter sido há dias. Em toda essa odisseia cósmica, contudo, o que não falta é coesão. A linha traçada no hospital há 26 anos se encadeia organicamente por meio das ações de Quill, Rocket (com a voz de Bradley Cooper), Drax (Dave Bautista), Groot (voz de Vin Diesel) e Gamora (a definitivamente charmosa Zoe Saldana). Nesse ponto, já podemos observar o interessante cuidado de James Gunn e Nicole Pearlman em seu roteiro, conseguindo equilibrar a presença de seus personagens em tela, sem pecar no foco excessivo em Quill. Mesmo Groot ou Drax, normalmente calados, são exibidos com uma maior profundidade, ganhando ainda mais relevância ao longo da projeção. O trabalho de montagem se destaca, especialmente nas sequências de ação que, em geral, possuem diferentes núcleos muito bem intercalados, garantindo não só um efetivo resultado dramático como um entendimento do quadro geral.

Mais que personagens à parte, porém, Guardiões da Galáxia se destaca pela química crescente entre os membros da equipe. Aos poucos, passamos de um bando de criminosos colocando facas na garganta de cada um para um verdadeiro grupo que, quando paramos para perceber, já está formado. Mais uma vez entramos na questão do distanciamento temporal, possibilitado, em parte, pela definidora trilha sonora, composta por peças originais e, principalmente, por melodias dos anos 70 e 80, que cuidadosamente definem o tom da obra. Quem assistiu o trailer do longa lembrará da música Hooked on a Feeling e, de fato, ela descreve perfeitamente o que sentimos ao longo da obra: somos “fisgados por um sentimento”. Mas dar o crédito todo a essas peças já existentes seria, no mínimo, injusto com a trilha original composta por Tyler Bates, já conhecido pelo seu trabalho em 300 e Watchmen. Através de suas marcantes notas oscilamos entre uma clássica space opera e uma comédia oitentista, possibilitando a construção deste inusitado e muito bem vindo universo expandido da Marvel.

Há problemas, porém. O maior deles é a forma for dummies que o roteiro trata importantes informações, em especial a origem de Gamora. Constantemente os diálogos expositivos reiteram aquilo que já aprendemos, como um medo palpável de não conseguir agradar ao público não-leitor dos quadrinhos. Se pararmos para pensar, faz sentido. A Marvel nunca se arriscou tanto com um filme, pois é a primeira vez que coloca nas telas heróis que, apesar de tradicionais (a primeira versão deles foi criada em 1969), são desconhecidos até por quem lê as publicações da editora (leiam o conteúdo de nosso Especial Guardiões da Galáxia para aprender cada detalhe sobre os personagens). Assim, o exagero nas explicações pode ser facilmente perdoado, especialmente se encararmos as marcantes retratações de Nebula (ou Nebulosa, como é exibido na legenda e nos quadrinhos no Brasil) e Ronan, que, apesar de poucas aparições, consegue se firmar como um vilão verdadeiramente ameaçador através da convincente interpretação de Lee Pace, além do cuidadoso trabalho de maquiagem, compondo a figura do personagem. É claro, porém, que estamos falando dos Guardiões e toda essa ameaça é lidada de uma forma cômica e quase casual, criando situações completamente diferentes e que, em outro filme, poderiam destruir a figura do vilão. Esse é um aspecto que aproxima a fita consideravelmente dos quadrinhos, criando uma tensão bem equilibrada com a característica comédia, que em nada se parece com o que já vimos nas obras anteriores, como Homem de Ferro ou Vingadores. A identidade dos Guardiões é sólida.

Falei da interpretação de Pace, mas não cometerei a injustiça de sequer comentar as atuações do elenco principal. Chris Pratt nos traz um Senhor das Estrelas que perfeitamente reflete o que vimos nas HQs, uma figura que destoa de todo aquele cenário intergalático, por trazer seu jeito descontraído e humano. Lembremos que estamos diante de inúmeras raças alienígenas e é justamente essa humanidade que funciona para formar o tom da obra. Melhor que definir o contraste de Quill com seus arredores é compará-lo com Drax, vivido por Dave Bautista, que empresta uma brutal simplicidade ao personagem, ressaltada pelo roteiro que garante a ele um vocabulário direto e ausente de metáforas ou figuras de linguagem, em oposição à Peter, que constantemente traz referências à cultura pop. Nesse meio ainda temos Rocket e Groot, que, à princípio formam uma dupla fechada em si, mas que organicamente se inserem na harmonia dos outros e aqui o trabalho de dublagem de Bradley Cooper é essencial, garantindo a personalidade do pequeno guaxinim, além, é claro, de tirar inúmeras risadas da audiência. Sua harmonia com Groot é palpável e, mesmo com apenas três palavras no vocabulário da árvore ambulante, podemos sentir o afeto entre ambos. Por fim, temos Zoe Saldana fechando o ciclo como Gamora, trazendo à tona a personalidade mulherenga de Quill, introduzindo uma possível subtrama romântica (cujos detalhes não revelarei) e, contribuindo para um equilíbrio entre os floreios de Senhor das Estrelas e a bruta honestidade de Drax. Através dessa grande harmonia podemos colocar de lado inúmeros deslizes, que vão desde os citados no parágrafo anterior, até o encerramento deus ex machina, que surpreendentemente consegue manter a imersão do espectador.

Encerrada a projeção é estabelecida a percepção do filme como um produto à parte, auto-contido. Guardiões da Galáxia expande o universo Marvel, deixando inúmeras pontas não só para continuações como para outros filmes do projeto cinematográfico do estúdio, mas, através de seu roteiro circular, bem escrito, temos uma obra que se sustenta sozinha, sem parecer um grande trailer do que está por vir, como feito em Homem de Ferro 2. Estamos diante de algo ousado e único, uma odisséia visual que, excepcionalmente, merece ser assistida em 3D  e que, mesmo com deslizes e com textos mais expositivos do que deveriam ser em um mundo ideal, fixa-se em nossa memória, fazendo-nos sair da sala de cinema cantarolando as marcantes melodias setentistas e oitentistas que tão bem representam o tom deste criativo space opera.

Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy) EUA, 2014
Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn, Nicole Perlman (baseado nos quadrinhos escritos por Dan Abnett e Andy Lanning)
Elenco: Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper, Zoe Saldana, Dave Bautista, Lee Pace, Michael Rooker, Karen Gillan, Djimon Hounsou, John C. Reilly, Glenn Close, Benicio Del Toro, Laura Haddock, Josh Brolin
Duração: 121 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.