Crítica | Guardiões de Luganenhum (Tie-In de Guerras Secretas – 2015)

estrelas 1,5

Obs: Leia a crítica da saga aqui e dos demais tie-ins aqui.

O que são os tie-ins: Em Guerras Secretas, saga de 2015, o Doutor Destino – agora Deus Destino – recriou o mundo ou, como agora é conhecido, Mundo Bélico, a seu bel-prazer, dividindo-o em baronatos, cada um refletindo de alguma forma um evento ou uma saga passada da Marvel Comics. Com isso, a editora, que, durante o evento, cancelou suas edições regulares, trabalhou como minisséries – algumas mais auto-contidas que as outras – que davam novo enfoque à situação anterior já conhecida dos leitores, efetivamente criando uma saga formada de mini-sagas, com resultado bastante satisfatório, muitas vezes até superior do que as nove edições que formam o coração de Guerra Secretas.

Crítica:

guerras_secretas_guardioes_de_luganenhum_capa_plano_criticoOs Guardiões da Galáxia são minha paixão incondicional dentro de todo o universo Marvel (ainda que meu herói preferido continue sendo o Capitão América). Eu os leio desde o tempo em que o grupo tinha sua formação original – Vance Astro, Yondu, Martinex, Charlie-27, Starhawk, Aleta e Nikki (além de Talon e Yellowjacket) – e não era ainda “moda” em razão da bem-sucedida adaptação cinematográfica. Confesso, porém, que, de uns tempos para cá, a segunda formação do grupo e a que inspirou o filme – Senhor das Estrelas, Gamora, Rocket Raccoon, Drax e Mantis – sofreu tantas e tão constantes alterações, com Ângela, Venom, Homem de Ferro e mais um sem-número de personagens entrando e saindo do grupo em histórias cada vez mais confusas, que essa minha paixão foi drasticamente reduzida.

Mas, claro, não podia deixar de abraçar Guardiões de Luganenhum, uma das minisséries tendo os Guardiões da Galáxia (uma parte deles, pelo menos) que compôs a saga Guerras Secretas, na esperança de que algo bom saísse dali. Na história, não há um baronato muito claro e talvez ele não exista mesmo. O que há é Luganenhum, a cabeça de um enorme Celestial que funciona de base para os Guardiões nas histórias da Terra-616 deles e que, aqui, é uma espécie de lua em que todo os seres cósmicos desse mundo recriado por Deus-Destino são obrigados a permanecer. Lá, vivem, de um lado, a força policial Tropa Nova, composta por Nova (Sam Alexander), Capitã Marvel, Venom (Flash Thompson), Homem de Ferro, Warlock e Dragão da Lua e, de outro, os renegados e protetores dos fracos e oprimidos Guardiões da Galáxia, compostos por Gamora, Drax, Rocket e Mantis. Essa região é vigiada por Ângela, aqui uma componente da Tropa Thor, usada por Deus-Destino como mantenedores e executores de suas ordens.

E a história, qual é? – os mais curiosos perguntarão. Confesso que a resposta mais sincera é que ela inexiste ou, pelo menos, não tem coesão para mais do que três ou quatro páginas. O que Brian Michael Bendis faz, aqui, mais parece uma portal giratória de hotel, em que os personagens entram e saem em uma sucessão enérgica e infindável, mas sem um fim, sem um propósito. Basta ver a lista de personagens no parágrafo anterior para notar que os quatro número que compõem a minissérie tornam-se um espaço extremamente confinado para trabalhá-los e Bendis, com sua megalomania, acaba metendo os pés pelas mãos aos trabalhar literalmente três narrativas que não parecem ter ligação uma com a outra: (1) a chegada de um inimigo novo – Yotat – que inferniza a vida dos Guardiões; (2) a chegada de um ser misterioso que parece ser Kree, mas que não aprendemos nem de onde vem, nem o que quer; (3) o final surpresa com a chegada de mais outro personagem, este conhecido de todos, mas que manterei em segredo para não dar spoiler, que cria um cliffhanger que não é resolvido, desfazendo a auto-contenção usual desses tie-ins.

Todas as linhas narrativas acima são sucessivas e não simultâneas e uma não depende da outra, tornando a minissérie uma mera desculpa para a pancadaria comer solta sem que exista um raciocínio lógico por trás ou, pelo menos, um raciocínio lógico que seja facilmente dedutível dos acontecimentos. Ainda que seja divertido ver Drax lutar contra Yotat, Gamora sair no braço com Ângela e Rocket estourar os miolos de todo mundo que encontra pela frente, o resultado final é um bombardeio sensorial que não funciona de verdade, não satisfaz o leitor e, principalmente, não cria algo com começo meio e fim. O único elemento de coesão que existe é Gamora, aqui com poderes cósmicos que lhe permitem ver além da criação de Deus-Destino, o que a faz indagar se não há algo mais, se não há algo fora do lugar, algo faltando, tudo para desespero de Ângela.

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Na verdade, a abordagem dada a Gamora e à sua amizade/inimizade com Ângela é a melhor parte da história e sua desconfiança de que há algo errado parece o ponto focal do que Bendis queria fazer, mas que acaba falhando fragorosamente ao costurar uma frágil colcha de retalhos que ele poderia ter evitado se tivesse trabalhado em um one-shot conciso. É como ler parte de uma história apenas, o que seria ok não fosse a estrutura de minissérie a escolhida pela editora.

A arte ficou ao encargo de Mike Deodato Jr., desenhista que tem traços perfeitos para lidar com os personagens cósmicos da Marvel. Trata-se de um trabalho bem delineado, com novas versões de personagens conhecidos que convencem e uma diagramação de páginas tumultuada, mas lógica, que sabe distribuir espacialmente os vários personagens que as povoam. No entanto, as cores desnecessariamente sombrias aplicadas por Frank Martin Jr. acabam escondendo boa parte do trabalho do brasileiro, em uma escolha equivocada até mesmo pelo tom jocoso dos diálogos durante grande parte da minissérie.

Guardiões de Luganenhum acabou resultando em algo solto, com apenas algumas páginas que parecem realmente importantes e que não traz um fim em si mesmo. Uma pena que Brian Michael Bendis não tenha sabido aproveitar bem os personagens em seu principal tie-in.

P.s.: Acho que a Panini precisava chegar a 100 páginas em seu encadernado e, com esse objetivo, decidiu incluir uma das historietas (apenas cinco páginas) contidas no one-shot Secret Wars Too, tecnicamente um tie-in de Guerras Secretas, mas que funciona como uma antologia de paródias e sátiras tendo a saga como trampolim. A publicação inteira é uma diversão só, e a história que consta do encadernado é Grande incompreensibilidade!!!!, que, como o título não disfarça, é incompreensível, mas boa, com foco no Aranha e sua vida doméstica. Não tente entender, apenas leia e se divirta, pois essas cinco páginas são mais recompensadoras que todas as anteriores…

Guardiões de Luganenhum (Guardians of Knowhere, EUA – 2015)
Contendo: Guardiões de Luganenhum (2015) #1 a #5 e Secret Wars Too (2015 – segunda história)
Roteiro: Brian Michael Bendis, Al Ewing (segunda história)
Arte: Mike Deodato Jr. (história principal), Jacopo Camagni (segunda história)
Cores: Frank Martin Jr. (história principal), Jesus Aburtov (segunda história)
Letras: Cory Petit (história principal), Travis Lanham (segunda história)
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: setembro a novembro de 2015 (história principal), janeiro de 2016 (Secret Wars Too)
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: setembro de 2016 (encadernado – Guerras Secretas: Guardiões da Galáxia #1)
Páginas: 100

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.