Crítica | “Guelã” – Maria Gadú

estrelas 4

Sim, ele [Guelã] é diferente, ele é mais maduro. Enfim, eu já tenho outra idade, outro posicionamento de vida e de tudo. No primeiro disco eu era moleca também e agora, sei lá, eu estou me sentindo mais velha, eu tô lendo outras coisas, o estilo de vida muda. Os amigos são os mesmos mas todo mundo começa a consumir outras coisas, você fica com outras responsabilidades, isso te abre um outro tipo de vocabulário, inclusive. Isso tudo traz outro tipo de assunto. Eu tenho outras questões hoje em dia.

Maria Gadú
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Produzido pela própria Maria Gadú e coproduzido por Federico Puppi – que também toca violoncelo e contrabaixo no disco – Guelã (2015) traz uma concepção musical completamente diferente de tudo o que Maria Gadú fez até o momento. Longe da meninice do “álbum-hit”, mas com qualidade, de Maria Gadú (2009) e elevando ao máximo o cuidado musical aplicado em Mais Uma Página (2011), Guelã traz todas as características do que normalmente poderíamos chamar de “coisa estranha”, no melhor sentido que isto pode ter.

Jogando com sons e silêncios, a cantora concebeu um álbum que é uma crônica lírica da vida. De sua vida. Esse reflexo pessoal é sentido na paixão com que as canções são executadas e também nos detalhes da produção das faixas, com direito a uma espécie de recitação (na música menos bem localizada no disco, Trovoa, regravação do lançamento de Maurício Pereira feito em 2007), introdução e conclusão do projeto com predomínio instrumental ao invés da voz (Suspiro e Aquária) e, por fim, uma ponte instrumental de raízes africanas em Sakédu.

Por ter trabalhado a maior parte do tempo em casa, ter tocado violão e guitarra na instrumentalização e contado com uma equipe mínima de músicos e técnicos – na verdade o álbum foi gravado e mixado na “Toca do Bandido” apenas por uma pessoa, Rodrigo Vidal – existe um tom escancarado de música artesanal, quase minimalista em Guelã. Pela primeira vez na carreira Maria Gadú aposta em novidades de cabo a rabo em um projeto, e mesmo em obloco, a canção pensada para ser o hit do álbum, ela vai na contramão da Nova MPB fácil, rendida, resolvida às pressas e sem alma. Aqui, ela deixa de lado o som familiar e abraça com gosto as novidades que lhe apareceram durante este hiato de três anos e pouco que separa Mais Uma Página de Guelã.

Mesmo que tenhamos exemplos difíceis de se digerir à primeira vista, como Trovoa, não dá para dizer que há uma canção ruim no disco, muito pelo contrário. Maria Gadú prova que pode compor coisas além da provocação ou do ataque de um eu lírico sempre irritado e insatisfeito (o que não é ruim, mas nem por isso deve se tornar padrão) e traz letras que dialogam, questionam, pensam, riem do supérfluo e desejam alguma coisa.

O mais interessante de tudo isso é o desenvolvimento musical que dá à luz à uma bela identidade em Guelã. Começamos de uma forma simples e etérea em Suspiro, até que a percussão entra e nos faz acordar para o que está de fora da janela, festejando nas ruas, a alma que sai do corpo e cria um “bloco dos sem-medo” em obloco. A mesma alma observa e compartilha a vivência com alguém em Ela ou acusa, afirma e se conforma em Semi-voz, canção com um ótimo arranjo na linha do indie pop, contando com uma batida viciante e uma letra onírico-libidinosa que é uma delícia.

Depois do exercício afro musical de Sakédu, chegamos à louvável Tecnopapiro, que coloca em polos diferentes a filha cibernética e a mãe analógica sob uma batida eletrônica desacelerada e chaves musicais dos anos 1980. Além da inteligente estrutura musical (o refrão é tão orgânico que mais parece estrofe) existe uma modulação inesperada na parte final da faixa que traz cellos em overdub e explora os belos agudos roucos da cantora, aliás, uma ocorrência não muito rara aqui, o que é novidade.

O baixo imperante em , o retorno a um som-ambiente mais conhecido da cantora em Vaga e o ideal fechamento do álbum em Aquária, que, assim como a primeira música do disco possui uma longa parte instrumental e conta com a voz de Gadú apenas no último minuto, são os passos finais desse “exercício mínimo” de Maria Gadú. Guelã não só consegue ser a melhor criação da artista mas aponta para uma realidade que flerta com experimentos e não tem medo de voar para longe de casa. Se até agora tínhamos uma cantora e compositora com bons frutos no marcado, deixamos tal normalidade de lado e olhamos para uma artista que dá o seu primeiro aceno do patamar da maturidade, um patamar que, como sabemos, se subdivide em quantos níveis forem necessários. E é a partir desse momento que sorrimos com gosto ao término de Guelã, ao percebemos que esta pode ser a primeira de muitas viradas de jogo nesta discografia que está apenas começando.

Aumenta!: obloco
Diminui!: Trovoa (é uma boa canção, mas está meio deslocada aqui. Não vai agradar todo mundo).
Minha canção favorita do álbum: Tecnopapiro

Guelã
Artista: Maria Gadú
País: Brasil
Lançamento: 25 de maio de 2015
Gravadora: SLAP
Estilo: MPB, Indie Pop

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.