Crítica | Guerra (2015)

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estrelas 3

As ações em massa de Exércitos do Ocidente em campanhas no Oriente Médio, empreendidas após a represália estadunidense ao Iraque, Afeganistão e países vizinhos a partir dos anos de 2001 e 2003, deram material bruto para o cinema e nos trouxe novas formas de ver esses eventos, tanto os diretamente ligados à “primeira leva” de ações militares, que acabaram dando o plot de Guerra ao Terror (2008), por exemplo, quanto os diretamente ligados às discussões ético-morais disso, tema abordado em produções estadunidenses durante praticamente todos os anos 2000 e primeira metade dos anos 2010. Pontualmente, isso também apareceu no cinema europeu e um desses exemplos é o longa Guerra (2015), que conta a história de um soldado dinamarquês que volta para casa, do Afeganistão, acusado de ter cometido “crime de guerra”.

Tobias Lindholm, que ainda está em início de carreira como diretor, tendo dirigido, com este, três longas de ficção (os outros dois são R e Sequestro, lançados em 2010 e 2012, respectivamente), todos com o ator Pilou Asbæk, realiza uma obra que pode ser vista pelo menos sob dois pontos de vista opostos. O primeiro é o da confrontação do soldado com seus atos e um momento de reflexão sobre a prestação dos serviços à pátria. Nada aqui é tão pomposo em termos nacionalistas como Sniper Americano, mas existe sim um senso de dever patriota e de exaltação das ações dos soldados (invasores, sob um determinado ponto de vista) que só estão ali para fazer o bem aos “outros”. O segundo ponto é o da humanização, conflitos internos e questionamentos do indivíduo diante de seus muitos deveres, um conflito que já passou pelo cinema em obras como Brothers (2004), Stop Loss – A Lei da Guerra (2008), Entre Irmãos (2009) e abordado de forma divertida mas não menos importante na série britânica Bluestone 42.

Diante desses dois caminhos, dos quais muitos atalhos de pensamento podem ser considerados, o diretor e roteirista nos coloca em diferentes cenários, utilizando essa mudança como criação de uma atmosfera dramática que terá forte impacto em nosso julgamento durante as cenas de tribunal. A paz comum da família do soldado Claus Michael Pedersen, na Dinamarca, e o inferno pelo qual ele passa no Afeganistão. Em um primeiro momento, a montagem paralela faz o jogo da “crônica diária”, mostrando problemas e vida do homem no front e da mulher com os filhos em casa. Esse recurso serve tanto para apresentar a família que sente saudades, quanto o soldado que tem um grupo de pessoas (outra “família”, por assim dizer) para proteger, missões a cumprir, decisões difíceis para tomar e, além de tudo isso, também sente saudades de casa, dos filhos, da mulher. O clichê emotivo que espectadores mais fervorosos podem chamar de “humanização de imperialistas” serve, no escopo da obra, como uma forma inteligente de erguer o primeiro bloco do filme mostrando realidades opostas e um segundo bloco unicamente centrado no julgamento, na “terra em paz”. E eis que aí surge um dos grandes problemas que encontramos em Guerra, a mudança de espaço cênico acompanhada de uma forte mudança na direção e na montagem do filme.

A impressão que temos, quando chega o segundo momento, é que estamos vendo dois longas em um só. É claro que a representação da imagem se mostra “a mesma” (guardadas as devidas proporções geográficas), porque o diretor de fotografia Magnus Nordenhof Jønck, que também trabalhou nos outros dois filmes de Lindholm, escolhe não saturar ou mudar a incidência de luz e brilho na captura das imagens, o que nos dá a impressão de unidade entre os dois pontos, mesmo que as sequências na Dinamarca tenham dias nublados e desenho de produção que pende para o claustrofóbico cheio de tons neutros escuros, talvez opondo o “livre mundo em guerra” ao “aprisionado mundo em paz”.

Na segunda parte, o julgamento ganha importância destacada e mais nada parece se sobressair no filme. Se os relacionamentos entre os personagens ganharam voz no roteiro e marcante atenção do diretor, nesta segunda parte temos apenas migalhas dessa visão. Pode-se até entender esta impessoalidade, mas ela tem pouca força na fita, porque o assunto julgado é bem mais denso, tem um peso muito maior e poderia até ganhar mais engajamento do público se não dominasse praticamente todo um bloco com exposições que muitas vezes nos deixam indiferentes. Os meandros do processo se resumem a diálogos pragmáticos que inclusive fogem um pouco da abordagem do diretor algumas sequências antes. Nós entendemos que o propósito do filme é trabalhar com opostos e discutir ações ético-morais diante das discrepâncias, mas no caminho, isso acaba subtraindo da obra elementos valiosos de sua identidade.

Guerra é um filme interessante pela forma como expõe as intenções e consequências por trás de uma “ação amiga” em um país invadido. O tema não é fácil, envolve elementos políticos, sociais, culturais e históricos que jamais devem ser desconsiderados — e já aí temos tempo o bastante para ver o mal que essas ações trouxeram para os países do Oriente Médio e proximidades — e que ganham, em uma abordagem como esta, uma camada a mais de peso, que é a visão jurídica para a coisa toda. Mesmo que seja um pequeno caos em termos de coesão técnica e narrativa, Guerra é um passo interessante para discutir, diante das leis — as muitas leis que se possa trazer à tona –, se alguém é culpado ou não por um crime de guerra; se há culpas na guerra; ou se o grande crime está realmente nesses agentes finais que normalmente costumamos apontar.

Guerra (Krigen) — Dinamarca, 2015
Direção: Tobias Lindholm
Roteiro: Tobias Lindholm
Elenco: Pilou Asbæk, Tuva Novotny, Dar Salim, Søren Malling, Charlotte Munck, Alex Høgh Andersen, Dulfi Al-Jabouri, Jakob Frølund, Phillip Sem Dambæk
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.