Crítica | Guerra ao Terror

estrelas 4,5

Antes de dar início a análise do filme, uma indagação: será que, se não fosse o alarde nas premiações mundo afora que Guerra ao Terror ganhou com o tempo, teríamos ciência da existência desta poderosa realização da diretora Kathryn Bigelow? Provavelmente não, uma vez que a recepção inicial para Guerra ao Terror foi tão morna a ponto de ser lançado diretamente em DVD. Mas o tempo foi passando, o filme foi chamando a atenção por onde passava, e acabou indo para os cinemas mesmo após ter sido lançado em home vídeo. E mais ainda, recebeu nove indicações ao Oscar, abocanhando seis estatuetas da academia e consagrando Bigelow como a primeira diretora a levar o prêmio para casa.

E verdade seja dita, por mais que o filme não tenha sido o melhor dos indicados daquele ano (acredito que Bastardos Inglórios seja o merecedor deste posto), a vitória de Guerra ao Terror mostrou-se justa e adequada, não apenas ao marcar a história das premiações ao premiar uma mulher, mas também por reconhecer um trabalho que, como poucos que já abordaram o tema, encara e exibe os efeitos do horror da guerra de maneira crua, intimista, visceral e tensa. Em se tratando deste tema, acredito que o filme de Bigelow seja o mais cruel desde O Resgate do Soldado Ryan, não por ser mais violento (até porque nem é), mas por jogar um clima de tensão constante em cima do espectador no objetivo de traduzir o que é o dia-a-dia de homens que encaram os perigos da guerra constantemente, e no fim das contas, o foco acaba nem sendo a guerra em si, e sim a reação do próprio ser humano dentro daquele ambiente hostil.

Antes de tudo, os personagens do roteiro de Mark Boal (No Vale das Sombras) são lapidados como figuras humanas, sujeitos do cotidiano, e ao escalar um elenco relativamente pouco conhecido, formando por poucos rostos, Bigelow acentua a verossimilhança da obra. Jeremy Renner já participado de produções conhecidas como Os Reis de Dogtown, Terra Fria e O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, mas nada que chamasse atenção para si. Sua personificação do sargento William James, entretanto, chega ao ponto de assombrar graças a naturalidade com que Renner incorpora o crescente vicio do personagem pelos efeitos desastrosos da guerra, e que por consequência, enxerga naquela ambiente uma forma de se identificar, de se definir. Através da jornada do protagonista, Bigelow “desglamouriza” aquele conhecida frase de que “o trabalho dignifica o homem”, já que naquele mesmo terreno ele também encontra o medo, a ansiedade e a incerteza.

Jamais apelando para discursos moralistas ou patrióticos, Bigelow concentra sua câmera nos conflitos cotidianos dos soldados ao ponto de elevar a tensão até um nível insuportável. Somos obrigados a encarar esta realidade, uma realidade que, se prestarmos mais atenção, nos afeta, direta ou indiretamente, enquanto seres humanos. É o horror da guerra, e ao mesmo tempo o vicio que ela pode acabar se tornando. Não é a toa que em sua própria abertura, o filme exiba a frase “A guerra é uma droga”. É uma droga que vicia, que envolve, que fascina, que desperta todas as nossas fraquezas, anseios e nos faz perceber que, indubitavelmente, este horror existe apenas por causa da ambição e fascínio do homem pela violência injustificada.

Guerra ao Terror possui grandes momentos que exalam nervosismo e impacto (inesquecível é a primeira cena de explosão), porém o filme não se resume somente a eles. São os personagens que movem a ação e narrativa, soldados que buscam trazer um sentido para a guerra, para aquilo que eles sabem fazer de melhor, e não apenas encará-la como um evento de proporções inevitavelmente trágicas. Mas apesar da coragem, Bigelow peca em certos momentos devido a posição manipuladora com que enxerta os soldados em algumas poucas situações, mas nada que atrapalhe o objetivo da fita que, ao final, se isenta de fazer qualquer julgamento.

E mesmo quando volta para casa, para sua mulher e filho, o sargento William James ainda vê o sangue escorrer pelo seu corpo, ainda se sente impelido a comentar com a esposa sobre os momentos em que esteve entre a vida e a morte no Iraque, porém ela o interrompe. Mas aquela é a natureza de James, e de tantos outros soldados que enfrentam o mesmo tipo de situação todos os dias: é aquilo que o define, que o faz se sentir completo, que o coloca em algum lugar no mundo. É mais uma vez aquele horror que, inevitavelmente, define um ser humano. E uma vez que você suja suas mãos com sangue alguma vez, torna-se difícil livrar-se dessa sujeira novamente. E o trabalho de Bigelow é exatamente sobre isto. No fim das contas, somos todos viciados.

Publicado originalmente em 15 de janeiro de 2013.

Guerra ao Terror (The Hurt Locker) — EUA, 2008
Direção:
 Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal
Elenco: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce,  Ralph Fiennes, David Morse, Evangeline Lilly,  Christian Camargo
Duração: 131 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.