Crítica | Guerra de Canudos

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estrelas 3,5

Certa vez, o filósofo Deleuze alegou que filosofar com o cinema é perceber como os cineastas utilizam os planos, os movimentos de câmera e os personagens, e, sobretudo, a montagem, para a exposição das suas ideias. Em Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende, filosofa através de tais elementos para compor a significação do texto que serve de embasamento para o filme, Os Sertões, de Euclides da Cunha, o que nos permite resgatar o imaginário cristalizado de sertão que se alastrou pela produção cultural do século XX: terra gretada, miséria, fome e ojeriza ao processo civilizatório comum ao Brasil, um país envolvido com as demandas modernista e pós-modernistas.

Segundo o cineasta apontou em entrevistas na época do lançamento, a ideia de filmar Canudos veio da leitura de Os Sertões, na Inglaterra, enquanto montava A Child from the South. Por não conhecer muita gente local, o diretor lia e relia o livro. Ao retornar ao Brasil, percebeu que o filme seria muito caro. Assim, teve de aguardar mais um tempo, e, enquanto isso, dirigiu Paulo Betti na cinebiografia Lamarca, produção que ganhou bastante projeção na época.

Com o sucesso do filme, além das novas possibilidades oriundas do cenário mais atrativo para a produção de filmes nos meados dos anos 1990, decidiu investir no filme sobre a guerra de Canudos, aproveitando também o centenário do conflito que se aproximava. O cinema brasileiro passava por um período de Retomada. Após a fase obscura do final dos anos 1980, com a posse de Collor e toda a celeuma envolvendo as leis de incentivo à cultura, a produção cinematográfica brasileira amargou com filmes que pouco além das comédias protagonizadas por Xuxa, Sérgio Malandro e Os Trapalhões.

Guerra de Canudos estreou em 1997 nos cinemas. O diretor Sérgio Rezende viajou dez mil quilômetros pelo sertão, sozinho, chegando a um povoado chamado Junco do Salitre, ideal para a construção da cidade cenográfica, que, meses depois, começou a ser erigida, ganhando apoio do Exército, que emprestou canhões, fuzis e um batalhão de soldados para a figuração da produção que marcaria o Brasil no circuito das grandes obras épicas na seara do cinema.

Ao longo dos seus 169 minutos, o filme conta com José Wilker como Antônio Conselheiro, Paulo Betti como o líder da família Lucena, Marieta Severo como Penha, esposa de Lucena, Claudia Abreu como Luiza, filha do casal Lucena e Penha, personagem que entra em conflito com a família e a sua relação com Antônio Conselheiro, segue um rumo diferente dos demais, abandona Canudos, torna-se prostituta e protagonista do filme, numa estratégia esperta do diretor Sérgio Rezende, que também assinou o roteiro do filme, interessado em oferecer protagonismo feminino para sair do lugar comum dos heróis masculinos da história oficial.

O filme começa em 1893, momento em que o movimento de Antônio Conselheiro, inicialmente pequeno, ganhou proporções inimagináveis, incomodando a República recém-proclamada. Visto pela ótica da família Lucena, Guerra de Canudos, dividido como minissérie em quatro episódios quando exibido na televisão, narra através das características do gênero épico, a trajetória da guerra de Canudos, tendo em mira a missão de representar todos os conflitos registrados nos anais da história do Brasil.

Com maior foco nas cenas de ação e com pouco tempo para alguns conflitos individuais, Guerra de Canudos é uma obra bastante interessada em contemplar o seu espaço fílmico, buscando totalidade do ambiente da narrativa, erguido à base da concepção de cenário de Henrique Mourthé, da direção de arte de Cláudio Peixoto, setores que se complementam com o trabalho de Beth Filipecki como figurinista.

Tomando como referência o capítulo A terra, podemos observar que Euclides da Cunha considerava todas as populações do interior como sedimentos básicos da nação. O sertanejo, na ótica euclidiana, seria como a rocha da nacionalidade: uma metáfora geológica, onde o granito, rocha que tem na sua composição, três itens básicos, o feldspato, a mica e o quartzo, seria assim, uma referência à formação do sertanejo, com as suas bases indígenas, europeias e africanas.

É com a imagem de uma rocha que Sérgio Rezende, em primeiro plano, abre Guerra de Canudos. Com um movimento de câmera se deslocando para à esquerda, a narrativa abandona o padrão ocidental de leitura, sugerindo um retorno ao passado. Da rocha em primeiro plano, surge um plano geral que abarca uma considerável porção do sertão. A direção de fotografia, assinada por Antônio Luiz Mendes, dá conta de compor sinestesicamente o clima do sertão, guiado pela montagem de Isabelle Rathery, fundamental para reforçar as características do espaço fílmico: ora corta para um mandacaru, ora para um umbuzeiro, numa câmera que se movimenta pela flora, acompanha a fauna local, representando os personagens em planos inteiros, reforçando a sua relação com a terra.

Após a abertura, a narrativa nos oferta um fade in, seguido de outro plano geral de uma paisagem sertaneja, acompanhando alguns retirantes. Pela sombra projetada na captação de imagem em contraluz, sabemos ser Antônio Conselheiro e alguns dos seus seguidores ainda em pequena quantidade. Os créditos iniciais já passaram, chega o momento de surgimento do nome do filme. Através de um corte seco, a narrativa contempla o céu azul do sertão, visto pela ótica de um plano geral, e um som de tiro surge na história.

É a primeira vez que Lucena e seu filho são apresentados, e mais adiante, os demais membros da família. A câmera segue num travelling vertical, adentra o ambiente, apresenta a casa onde mora a família eixo da narrativa, sem deixar de para captar outros itens da terra euclidiana, como o umbuzeiro, o mandacaru e outros aspectos do sertão que circundam a casa.

Logo, os soldados republicanos chegam para a cobrança de impostos. Eles encontram o patriarca revoltado diante dos altos valores, motivo que o aproximará do bando de Conselheiro, “figura mitológica do sertão”, que já havia chamado à atenção dos republicanos do sudeste, de maneira negativa.

Observando os entreatos do filme, percebemos que o roteiro de Sérgio Rezende pretende relacionar os três capítulos da saga de Os Sertões, reforçando o caráter de importância da terra em todos os momentos do filme, seja nos conflitos ideológicos, seja nos políticos ou individuais. A narrativa é toda permeada por esse estilo de plano geral que ilustra a paisagem, para depois adentrar nos conflitos diversos que surgem em camadas.

Nós, brasileiros, acostumados com a dieta dos épicos hollywoodianos, em alguns momentos nos defrontamos com a falta de impacto de algumas cenas. O filme reitera o eixo sertão-favela comum ao Cinema Novo (estética da fome) e ao Cinema da Retomada (cosmética da fome), apresenta uma protagonista feminina num desempenho dramatúrgico convincente, mas ainda assim, não consegue ser “o épico” do cinema brasileiro. No que diz respeito às cenas de ação, o filme funciona, a montagem consegue dar conta, mas no desenvolvimento dos personagens, falha, pois se Cláudia Abreu é uma heroína forte, por que sempre o estereótipo da prostituição? Será que não dá para transgredir de outra maneira? Fica a pergunta. E você, leitor, o que acha?

Guerra de Canudos — Brasil, 1997
Direção: Sergio Rezende
Roteiro: Paulo Halm
Elenco: Cláudia Abreu, José Wilker, Marieta Severo, Paulo Betti, Roberto Bomtempo, Selton Mello, Tuca Andrada, José de Abreu, Roberto Bomtempo, Dandara Guerra, Tonico Pereira, Jorge Neves
Duração: 170 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.