Crítica | Guerra dos Mundos (2005)

Guerra dos Mundos, releitura (e não refilmagem) da obra clássica de H.G. Wells, o pai da ficção científica moderna, e que já havia sido adaptada nos anos 50 com o envelhecido filme de Byron Haskin, chegou num ano de expectativa similar ao que seu diretor, Steven Spielberg, havia igualmente alcançado em 1993 quando lançou o dramático A Lista de Schindler e o aventuresco Parque dos Dinossauros, ambos reflexos do principal do apreço de Spielberg pelos gêneros que mais lhe apetecem, o dramalhão e a aventura. Esta superprodução do cineasta embarcou nos cinemas no mesmo ano que Munique, onde era narrado o ataque terrorista durante as Olímpiadas de Munique nos anos 70 e que massacrou 11 atletas israelenses. Projeto mais divergentes entre si, impossível.

O fato é que, com exceção da narração em formato de programa jornalístico dramatizada por um jovem Orson Welles nos anos 30 (e que instaurou o pânico na população que, devido a um mal-entendido, acreditou que era uma reportagem real), o romance de Wells ainda não encontrou o êxito tão esperado em meio ao público, especialmente em comparação com a aclamação que seu livro sustenta até hoje. Se a primeira versão de Haskin hoje é vista mais pelo interesse de tentar fazer uma produção de alienígenas e a destruição da humanidade quando os efeitos visuais ainda eram parcos (O Dia em Que a Terra Parou já havia feito essa mesma tarefa com melhor eficiência), o filme de Spielberg, passado os anos, ainda segura boa parte da resistência que o público demonstrou pelas escolhas do roteiro de David Koepp e Josh Friedman, que decidem narrar o ataque dos aliens pelo ponto de vista de um homem absolutamente comum, Ray Ferrier (Tom Cruise) e seu problema relacional com os filhos, Rachel (Dakota Fanning nos tempos áureos) e Robbie (Justin Chadwik) enquanto tenta escapar dos Tripods que vaporizam a raça humana, praticamente sem deixar vestígios.

Se a versão dos anos 50 ilustrava a Guerra Fria numa espécie de capitalismo vs comunismo, Spielberg atualiza os moldes da trama para refletir o estado de paranoia dos americanos pós-11 de Setembro e as táticas do governo Bush, seja pelo impulso belicista do filho Robbie ou quando, durante um dos ataques, a filha pequena pergunta “são os terroristas?”. Sabendo que não há como fugir das conotações políticas quando se trata de adaptar a história em questão, Spielberg oferece sua própria atualização sobre o significado alegórico do romance e também sua ode à existência humana e a presença da natureza, mas o que lhe importa é a jornada de uma família com seus próprios problemas de comunicação, que já parecem pouco se conhecer, e que durante o embate, passarão por situações e processos que lhes obrigarão a repensar essa distância emocional.

Este foco, é claro, faz com que Spielberg transite por caminhos pouco usuais para uma produção de tamanho porte, algo que foi o principal motivo dos vários desagrados que o público sentiu na época do lançamento. Mesmo durante os principais momentos de tensão que são inúmeros e espetaculares, a personalidade rebelde de Robbie ou o desespero literalmente gritante de Rachel jamais deixam de ser ressaltados, o que levou uma grande parcela a indagar o que o diretor realmente queria com personagens tão “intragáveis”, assim como a contestação geral da suposta covardia com que o conflito familiar é encerrado. Para Spielberg, é muito mais interessante trabalhar com o estado micro dessa família disfuncional, tão cheia de problemas e defeitos, do que com a dimensão macro da devastação da raça humana e este ataque inesperado, que acontece sem muito sangue ou corpos desmembrados expostos. Spielberg não é Roland Emmerich para traçar um espetáculo visual que trate isto como prioridade (e ainda assim, Guerra dos Mundos é de encher os olhos), e semelhante ao que Shyamalan fez com o excelente Sinais, cria uma narrativa de senso lógico muito semelhante ao filme do indiano, em especial na conclusão para o confronto contra os aliens que, também deveras criticada pela simplicidade, surge como um ponto deveras natural mas que isenta a obra de um grande clímax, mais um motivo das frustrações do público com o filme.

A grande virtude de Guerra dos Mundos está nesse equilíbrio entre o comovente drama do trio familiar e suas ações imprevisivelmente humanas (reparem em como Ray, durante o primeiro ataque, assim como toda a população, jamais arreda o pé mesmo com a máquina dos aliens saindo do chão) e seu senso de grandiosidade enquanto filme de ação, afinal, estamos falando de uma superprodução de Spielberg. A primeira investida dos Tripods, em especial, é o melhor exemplo de quando o cineasta valoriza o silêncio (até a máquina sair do chão, não há nenhuma trilha sonora e temos apenas os gritos das pessoas) e de quando sabe que é necessário deixar o barulho e as luzes explodirem, mas sempre com um senso de controle para não desorientar o público. E se Spielberg ao lado do diretor de fotografia Darius Wolzki ressalta a tensão e o nervosismo de forma inusitada quando a câmera entra e sai dando um giro de 360 graus num carro em movimento, é no longo ato do porão (mais uma das semelhanças com Shyamalan) que o diretor explicita seu domínio absurdo da mise-en-scène o do senso de horror que toma conta dos personagens, e tudo isto com uma participação pertinente de Tim Robbins (e a escolha em tapar nossa visão sobre a atitude desesperadora de Ray sobre esse personagem é tão assustadora quanto). Quando abandona o isolamento do ponto de vista de Ray e precisa filmar o pandemônio das cenas movimentadas, Spielberg o faz com classe, homenagens justas aos filmes retrôs do gênero (o design dos Tripods) e um balé de destruição, explosões, aviões caindo e trens em movimento pegando fogo que são amparados por efeitos visuais dos mais competentes e primorosos que Hollywood poderia comprar.

Negando o que seria de praxe ao público num filme de aspectos tão Hollywoodianos, ainda mais com a presença de um astro tão boa-pinta quanto Tom Cruise (muito eficaz, por sinal), Spielberg entregou uma ficção científica e drama familiar que, mesmo com a eterna contestação de porque Spielberg não ter tido nenhuma coragem de matar algum dos protagonistas (como se isso fosse preciso para comprovar qualquer coisa), é filmado como um filme de horror elegante, assustador, de tensão nas alturas e um grande virtuosismo técnico para impressionar o público. É um blockbuster completo e também com algo a mais, por mais que muitos ainda não reconheçam isto.

Ah, e um bônus. Os protagonistas do longa original, Gene Barry e Ann Robinson, aparecem numa ponta durante os últimos segundos de filme.

E para quem não sabe, o filme teve uma sequência para home vídeo lançada três anos depois, e que consegue ser ainda mais pobre tecnicamente do que o original dos anos 50.

Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005) – EUA
Direção Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp e Josh Friedman, baseado em romance de H.G. Wells
Elenco: Tom Cruise, Dakota Fanning, Justin Chadwick, Tim Robbins, Miranda Otto
Duração: 116 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.