Crítica | Guerra, Flagelo de Deus

estrelas 5,0

Parece no mínimo justo que, pouco antes da humanidade vivenciar os horrores da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e do regime nazista reprimir a expressão artística, o cinema alemão tenha deixado um legado prévio do quanto já suportara e ferira na Primeira Guerra (1914-1918). Legado hoje resgatado, em versão restaurada, no box A Primeira Guerra no Cinema, que entre seus seis clássicos inclui Guerra, flagelo de Deus.

Em seu filme, o diretor G.W. Pabst fala por uma população transfigurada pela Primeira Guerra, do psicológico ao físico. Da perspectiva dos alemães, que invadem a França, o longa bem poderia ter optado pela hoje tradicional visão do heroísmo militar, mas não é o que acontece. Não há lado bom e lado mau neste filme, só uma vilã: a guerra e seus marionetes. Não evoca esperança ou motivação, apenas dor, desespero, desolação e, no máximo, um senso masoquista de cumprimento do dever.

A degradação se estende aos civis, retratados em filas enormes para conseguir comida. Pabst trabalha com a câmera parada, conferindo-nos uma visão crua dos conflitos, sem enfeite ou pirotecnia. Baseado no livro Quatro de Infantaria, o roteiro trata de humanizar os soldados – quatro em especial -, mas nunca para justificar as armas que empunham, antes para mostrar que estão, ou pelo menos deveriam estar, além de tudo aquilo. Apesar dos embates, não vemos na produção um senso de vitória, de conquista; ao contrário, que o diga a cena na qual um dos homens, ao voltar para casa com a dispensa da guerra, flagra a traição da mulher.

Com a novidade do filme falado, à qual cabia definir seus critérios, Pabst não se intimida e usa o som, de fato, em proveito da narrativa. Pouco ouvimos música além de uma ou outra cantoria melancólica dos soldados ou das apresentações de vaudeville. No mais, diálogos e os sons característicos dos combates nas agoniantes trincheiras – mérito atribuído à fotografia de Fritz Arno Wagner, que já fora responsável por esse quesito em Nosferatu de Murnau. Já a narrativa episódica, com a eventual tela preta entre tomadas, como é comum vermos na televisão, permite a interiorização do expectador quanto à significação que deseja atribuir a trechos do drama.

O ponto culminante da obra é, sem dúvida, o pranto enlouquecido de um dos soldados, fulminado pelo absurdo de tanta barbaridade, por ambos os lados. A culpa, como diz o próprio longa, é de ninguém e de todos.

Guerra, Flagelo de Deus (Westfront 1918: Vier von der Infanterie – Alemanha, 1930)
Direção: G.W. Pabst
Roteiro: Ernst Johannsen, Ladislaus Vajda, Peter Martin Lampel
Elenco: Fritz Kampers, Gustav Diessl, Hans-Joachim Möbis, Claus Clausen, Jackie Monnier, Hanna Hoessrich, Else Heller, Carl Balhaus, Aribert Mog, Gustav Püttjer
Duração: 97 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.