Crítica | Guerra Mundial Z

Uma praga zumbi (outra!) assola o mundo e cabe a um ex-funcionário da ONU, Gerry Lane (Brad Pitt), viajar pelo mundo para tentar descobrir uma cura. Essa premissa e o fato da produção ter sofrido enormes solavancos, tendo seu final inteiro completamente reescrito e refilmado, o que o fez estourar em muito o já inchado orçamento e o levou a ser adiado por quase um ano, prenunciavam um filme com pouca chances de sair do terreno do medíocre.

No entanto, para surpresa quase que geral, o que Marc Forster (007: Quantum of Solace e Em Busca da Terra do Nunca) apresenta é um eficiente filme-pipoca típico do verão americano, com algumas cenas legitimamente excelentes. A primeira delas é a sequência inicial de 25 ou 30 minutos, em que vemos Gerry e sua família (esposa e duas filhas) fugindo desesperadamente do contágio na Filadélfia.

Toda essa sequência, que não perde tempo para começar, é extremamente tensa, com tons genuínos de filme de horror. Mas, ao mesmo tempo, Forster e seu cortes rápidos impõe uma cadência de filme de ação que não deixa o espectador respirar até quando ela acaba. E o melhor é que, mesmo que saibamos que, pelo menos no começo, não há qualquer chance do protagonista ser morto, nós acabamos nos preocupando com seu destino, algo que imediatamente engaja o espectador e o prende ao filme.

Outro ponto que merece destaque é a atuação de Brad Pitt. Sim, ele faz uma espécie de super-herói que sabe tudo de tudo e sobrevive a qualquer coisa, mas suas expressões faciais sofridas, genuinamente preocupadas com a família que deixou para trás são algo incomum em obras desse naipe. E esse aspecto era essencial para o sucesso de Guerra Mundial Z. Afinal, Pitt, que apostou muito nessa película, é o único personagem verdadeiramente importante ao longo de toda a projeção. Uma atuação pouco convincente impediria a conexão do filme com a plateia. Pitt, sem muito esforço, veste a camisa de herói de ação, ao mesmo tempo em que mostra insegurança, fraqueza, além de protagonizar a sequência final, com tom diametralmente oposto ao resto do filme com a mesma credibilidade de quando ele está correndo, pulando em helicóptero ou caindo de avião.

Os efeitos especiais nas cenas gigantes, com milhares de zumbis, são fascinantes, ainda que os cortes turbinados impeçam que se vejam detalhes. Mas o mesmo vale para os efeitos especiais práticos e para a maquiagem dos monstrengos, que aparecem em detalhes especialmente no terço final da fita.

Aliás, o terço final da fita – o tal que foi refilmado – muda completamente o tom da narrativa, que sai de perseguições enfurecidas para algo mais intimista e cheio de suspense, e isso pode ser visto tanto positiva quanto negativamente. Alguns acharão a cena longa demais, lenta demais. Outros concordarão comigo que a completa troca de linguagem do filme, de algo enorme para uma fita menor, quase que de baixo orçamento, chega às raias do brilhantismo narrativo.

Mas nem tudo são flores. Guerra Mundial Z peca pela repetição. A partir da sequência de abertura, o que vemos é ela acontecendo de novo e de novo só que em países diferentes, com coadjuvantes diferentes e em escalas cada vez maiores. O caráter episódico do filme fica extremamente latente com isso, com pouco efetivo impulso à narrativa.

Esse problema é especialmente óbvio na gigantesca sequência em Jerusalém (aquela da montanha de mortos-vivos que é mostrada exaustivamente nos trailers e cartazes). Apesar de original e de tecnicamente muito boa, ela é, em última análise, enfiada no roteiro de maneira completamente inverossímil, mesmo dentro da estrutura fantástica da narrativa. A justificativa para a construção do muro, a própria existência do muro e os acontecimentos a partir da chegada de Gerry chegam a ser engraçados, tamanha a improbabilidade. É um exemplo perfeito de uma cena que foi criada antes na cabeça dos produtores que, depois, mandaram os roteiristas encaixarem no filme a qualquer custo. É espetacular, mas é idiota.

Outro aspecto que acaba mal resolvido é a narrativa paralela envolvendo a esposa de Gerry (Mireille Enos) no navio onde ela fica. Ficou evidente que o roteiro original tinha outro fim para ela. Da maneira como ela acabou ficando, sua existência não serve para nada, apenas para alongar o filme. O mesmo vale para o desfecho do longa, que não é completamente satisfatório, chegando a ser apressado.

E vale um último comentário, dessa vez sobre a falta de sangue no filme inteiro. Considerando que se trata de uma fita de zumbi, foi uma escolha financeira para ganhar classificação mais baixa e atingir mais público, mas uma que não se encaixa com o espírito desse tipo de obra. Com isso, mortes, mesmo as de zumbis, acontecem fora da tela, algumas com soluções bem boladas, outras bastante simplistas. Não chega a estragar o filme, mas distrai da maneira errada.

Na linha de Além da Escuridão – Star Trek, do mesmo estúdio, Guerra Mundial Z é um ótimo divertimento estilo filme-pipoca que não deve desapontar quem procura apenas isso. Considerando a boa atuação de Brad Pitt e o ambicioso escopo do filme, além dos enormes problemas da produção, o resultado final é bastante aceitável, com uma sequência inicial de tirar o fôlego que quase vale pelo filme inteiro.

Guerra Mundial Z (World War Z) – Estados Unidos, Malta, 2013

Direção: Marc Forster

Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Drew Goddard, Damon Lindelof

Elenco: Brad Pitt, Mireille Enos, Daniella Kertesz, James Badge Dale, Ludi Boeken, Matthew Fox, Fana Mokoena, David Morse, Elyes Gabel, Peter Capaldi, Pierfrancesco Favino, Sterlin Jerins.

Duração: 116 minutos

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.