Crítica | Guerras Infinitas #2

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais edições da saga.

Ler e fazer as críticas de uma saga em quadrinhos na medida em que as edições são publicadas é uma novidade para mim e ela acaba permitindo mais tempo para a absorção da história e a compreensão da estrutura escolhida por seu autor para contá-la. Não que Guerras Infinitas seja, até agora, algo próximo do complexo. Diria muito ao contrário até, mas ler e abordar uma edição por vez permite um grau de apreciação ou depreciação que a leitura de tudo de uma vez às vezes deixa passar.

O que vimos até agora é, resumidamente, uma saga cósmica íntima, certamente uma contradição em termos, mas que faz todo sentido aqui. Gerry Duggan escreve um texto que lida com os seis objetos mais poderosos do Universo Marvel e que já gerou histórias épicas como a clássica Desafio Infinito, mas sob uma perspectiva “pequena” e que é perfeitamente auto-consciente sobre os exageros da indústria de quadrinhos como um todo, com suas constantes recriações de universos e, mais ainda, com as infinitas mortes e renascimentos de seus heróis. Essa é a única forma que a leitura da saga, apenas em seu segundo número, faz sentido, já que Gamora, travestida de Requiém, já matou Thanos, Peter Quill e, agora, Adam Warlock e isso sem contar com o início da amálgama (ou warp) do Dr. Estranho com o Capitão América, o que levará a Soldier Supreme (Soldado Supremo, em tradução literal) que, junto com Iron Hammer (Martelo de Ferro), serão os primeiros tie-ins da saga.

Mas o que torna a história verdadeiramente auto-consciente – e talvez crítica – dessa banalização da morte nos quadrinhos é seu desfazimento instantâneo aqui. O que antes levava no mínimo algumas várias edições, por vezes até anos, agora demora o intervalo de apenas uma ou duas edições. Por exemplo, quando Gamora decapita Warlock com sua “espada do poder” em Guerras Infinitas #2, ela mesma afirma algo como “você vai reviver mesmo, então não tem problema”, com o quadro seguinte inclusive já mostrando o famoso casulo do trágico herói que, não duvido nada, já aparecerá vivinho nas próximas edições. Como se isso não bastasse, Thanos volta como um “fantasma” ou, talvez, uma alucinação que conversa com Gamora e Quill é “desmorrido” por mais uma interferência do Doutor Estranho por intermédio da joia do tempo, algo que, como já disse anteriormente, é um artifício narrativo conveniente demais para ficar sendo utilizado tantas vezes, ainda que o Mago Supremo, interessantemente, afirme, por vias transversas que, ao fazer isso, ele cria desvios na linha do tempo (mais exatamente ele afirma a Quill que, “em outro universo, você está morto para sempre”.

Portanto, o que Duggan faz é simples: ele transforma algo que sempre irritou os leitores em um artifício narrativo. Se isso reduzirá o desgosto de muitos pelas mortes e ressuscitações constantes dos quadrinhos mainstream eu não saberia dizer, mas, lendo como uma espécie de sátira, algo que é mais fácil quando a visão é fragmentada, um dos luxos da leitura na medida em que a obra é publicada e não tudo de uma vez, creio ser perfeitamente possível compreender o que o autor pretende. E a coisa fica mais divertida dessa maneira, sem que tudo seja levado tão a sério assim e sem que cada edição seja vendida como aquela que trará modificações no Universo Marvel que serão sentidas para sempre. O que vemos é algo que parece ser auto-contido e ambicioso apenas na superfície, o que é uma pegada bem-vinda para uma narrativa do gênero.

O mesmo vale para os dois flashbacks que abrem a edição. Primeiro, somos levados ao “passado distante”, com Thanos filosofando sobre genocídio para Gamora ainda criança, o que estabelece não só a ligação entre os dois, como, também, torna mais “suave”, por assim dizer, a predestinação de Gamora para matar seu pai adotivo. É quase um retcon, se pensarmos bem. Depois, em algo que mais parece uma “cenas do capítulo anterior”, somos transportados para o “passado recente”, com o efetivo assassinato de Thanos por Gamora conforme visto no prólogo Guerras Infinitas Prime, algo que não traz narrativamente nada novo a não ser o tal fantasma de Thanos, mas que faz sentido para o leitor que não acompanhou os vários e exagerados preparativos para a saga.

No presente, a ação é frenética, com a Guarda do Infinito convocada pelo Doutor Estranho ganhando o reforço do Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Pantera Negra, Homem-Aranha, Mulher-Hulk e Motorista Fantasma, em uma reunião atabalhoada e confusa, quase aleatória e que só realmente existe para permitir os futuros Infinity Warps (as amálgamas de heróis como as duas que mencionei acima). Nesse ponto, a arte de Mike Deodato Jr. mais atrapalha do que ajuda, transformando o texto fragmentário de Duggan em uma confusão dos diabos que dificulta a compreensão do que exatamente está acontecendo. De novo, não é uma questão de complexidade da narrativa, mas sim de fluidez. A pancadaria que começa ao final da edição anterior tem um final abrupto aqui, seguido da realização do plano de Gamora de tomar posse de todas as joias para abrir a joia da alma e reunir-se com Velha Gamora. É divertido ver a anti-heróina transformada em vilã enganando todos os heróis e usando os poderes das joias de maneira lógica, mas tudo é muito corrido, com diversas oportunidades perdidas.

Ao final, Loki e Flowa chegam para conversar com a Gamora de “alma completa”, o que dá a entender que algo bem maior passará a acontecer, talvez até reconvertendo a personagem ao seu status quo anterior de anti-heroína. O risco, porém, é que a saga se transforme efetivamente em algo mais comum, efetivamente cósmica, com vilão interdimensional e promessas de mudanças e mais mudanças para o Universo Marvel. Ainda é cedo para apontar o caminho, já que a segunda edição parece fechar um mini-capítulo, mas, até agora, Guerras Infinitas vem sendo mais eficiente do que imaginava que seria.

Guerras Infinitas #2 (Infinity Wars #2, EUA – 2018)
Roteiro: Gerry Duggan
Arte: Mike Deodato Jr.
Cores: Frank Martin
Letras: Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 15 de agosto de 2018
Páginas: 35

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.