Crítica | Guerras Infinitas #3 (de 6)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais edições da saga.

Gerry Duggan chegou à metade de sua saga e, com ela, revelou o que parece ser seu verdadeiro propósito: amalgamar super-heróis para justificar tie-ins como os do Soldado Supremo (fusão do Capitão América com o Doutor Estranho) e do Martelo de Ferro (Thor + Homem de Ferro, claro). Afinal, de resto, até agora, apesar de divertida, Guerras Infinitas não mostrou exatamente a que veio, já que a trama principal apresentada até pode envolver as joias do infinito, mas tudo gira mesmo em torno do desejo quase infantil de Gamora (disfarçada de Requiém) de reunir-se com o pedaço de sua alma que estava “morando” lá no Mundo da Alma no interior da Joia da Alma, algo que já aconteceu e que poderia simplesmente levar ao encerramento da história.

Mesmo considerando a sub-trama de Loki e Flowa tentando “descobrir” o que aconteceu com o multiverso pós-Guerras Secretas, o que aí sim traz elementos mais amplos para tentar justificar a nova saga, a grande verdade é que essa questão tem sido tratada de forma tão difusa e críptica que é difícil sentir alguma urgência. Afinal, qual é exatamente a ameaça por trás das descobertas de Loki? Não venham me dizer que é aquele monstro genérico lovecraftiano que vimos enfrentar os Vingadores de outra realidade, pois uma saga inteira para lutar contra um mega-polvo será o momento mais inadvertidamente cômico da História dos Quadrinhos, mais ainda do que o Beyonder de ombreiras em Guerras Secretas II

Além disso, Duggan tem sido inábil em lidar com a própria Gamora. Basta ver o que ela faz aqui na terceira edição. Por favor, alguém me explique porque raios ela resolve “dobrar” o universo, criando a tal amálgama que mencionei na abertura da crítica. Para “impedir” os heróis de interferirem em seus planos? Se for, primeiro eu quero saber que planos são esses. E, segundo, considerando que ela está manejando as joias do infinito, eu poderia imaginar pelo menos umas duzentas maneiras diferentes de se conseguir o mesmo resultado sem fazer algo tão esdrúxulo, coisas que vão de simplesmente mantê-los congelados no tempo até apagar suas memórias. E outra coisa que não fica claro é se ela dobrou o universo existente ou se ela criou um novo universo dentro da joia da alma, transportou os heróis lá para dentro e dobrou aquele “universo de bolso”. Juro que fiquei confuso pela inabilidade do texto de Duggan.

Em outras palavras, a única coisa que fica realmente clara é que teremos que lidar com heróis amalgamados, o que tem sim potencial de ser inusitado – especialmente a inspirada fusão de Wolverine com Emma Frost!!! -, mas que não dá para levar muito a sério. O próprio Loki brinca com a situação e vê a ironia do que Gamora faz, ao dizer para ela que, assim como seu finado (por enquanto) pai, que, aliás, aparece para ela em sua mente, ela cortou pela metade o número de almas do universo. Sim, é ironia, mas é uma ironia tão meticulosamente calculada para ser uma ironia, que chega a ser irônico mais por isso do que por ser uma ironia. Entenderam o que eu escrevi? Caso negativo, é porque me inspirei no Duggan…

Bem, no meio dessa mixórdia, o que fica de prático além dos amalgamados é a promessa de que Gamora e Flowa continuarão a investigação iniciada por Loki que, ato contínuo, foi exilado nesse universo novo. Logicamente, o Deus da Trapaça tem um plano, tanto que sai para procurar especificamente os X-Men, mas tudo está enevoado o suficiente para, de um lado, atiçar a curiosidade do leitor e, de outro, frustar o leitor pela sucessão de mistérios que não parecem ser resolvíveis em apenas mais três edições. Adam Warlock voltará, pois é quem Loki procura e, provavelmente, se finalmente souberem aproveitar o grande mártir da Marvel Comics pela primeira vez pós-Jim Starlin, poderemos ter algo que traga significado de verdade à saga.

Pelo menos a arte bem característica, quase experimental, de Mike Deodato Jr. continua firme e forte, com sua progressão de quadros bastante original para a história e, aqui, com bem boladas versões amalgamadas dos heróis, com especial destaque para o Soldado Supremo e, claro, Diamond Patch, como Loki chama Logan-Frost. Se a história mergulhar efetivamente no lado cósmico, será interessante ver como o artista lidará com algo de escopo maior.

Guerras Infinitas está se perdendo. E, pior, não está conseguindo justificar-se para além dos artifícios caça-níqueis para “vender bonequinhos”. Espero que Duggan nos ofereça mais do que lamentos de uma Gamora perdida e uma coleção nova de Funko Pop! para desperdiçar dinheiro…

Guerras Infinitas #3 (Infinity Wars #3, EUA – 2018)
Roteiro: Gerry Duggan
Arte: Mike Deodato Jr.
Cores: Frank Martin
Letras: Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 12 de setembro de 2018
Páginas: 31

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.