Crítica | Guerras Infinitas Prime

No começo eram só os crossovers dentro das publicações normais das editoras. Então vieram as sagas separadas, com edições dedicadas e muito marketing. Em seguida, chegaram as sagas separadas, mas que contaminavam toda a linha editorial, quebrando narrativas em andamento. Depois, foi a vez de sagas contaminadoras de linhas editoriais que também contavam com tie-ins dedicados para expandir a narrativa. Por vezes, isso tudo ainda vinha enquadrado por um ou dois prelúdios e um ou dois epílogos em edições também dedicadas.

E, então, vem a Marvel Comics e mais uma vez inova na sana das Big Two em tirar o máximo possível do dinheiro de seus leitores em publicações redundantes ao limite. Guerras Infinitas, obviamente concebida para surfar na onda do mega filme-evento de 2018 – Vingadores: Guerra Infinita – nem começou e a saga, prometida para ter seis edições e mais uma penca de tie-ins, já conta não com um, não com dois, mas com três prelúdios e, como se isso não bastasse, tie-ins desses prelúdios em um mixórdia super-heroística que cansa a beleza de qualquer um.

Se descontarmos Marvel Legacy que não é bem uma história e sim um pot-pourri de pontas soltas para levar a histórias futuras, Guerras Infinitas veio anunciada por uma minissérie prelúdio em cinco edições batizada de Infinity Countdown ou, em tradução direta, Contagem Regressiva para o Infinito. Mas essa minissérie em si veio prenunciada por Infinity Countdown: Adam Warlock, o começo de tudo, e também por Infinity Countdown Prime, o segundo começo de tudo. Não satisfeita, a Marvel ainda providenciou três one-shots e duas minisséries voltadas a heróis e grupos de heróis específicos para fornecer o recheio desnecessário dessa lenga-lenga toda.

Loki tentando entender o Multiverso.

Guerras Infinitas Prime é, então, mais um (o terceiro) prelúdio focado em proporcionar uma grande morte para chocar os leitores desavisados e para atrair manchetes de sites por aí para aumentar o hype. Eu só não entendo como é que tem gente que ainda consegue chocar-se com qualquer morte em quadrinhos mainstream, seja de herói, seja de vilão. Praticamente todos os mais importantes personagens das duas editoras já morreram e ressuscitaram não muito tempo depois, isso quando não morreram múltiplas vezes, ressuscitando também múltiplas vezes. É tão repetitivo que chega a ser cansativo, perdendo completamente o impacto no minuto em que a morte acontece. Aqui não é diferente, ou melhor, é mais ainda de rolar os olhos do que mortes anteriores pelas circunstâncias do personagem, mas não revelarei quem bate as botas para evitar spoilers.

De toda forma, esse momento é utilizado pelo roteiro bem simples e rasteiro de Gerry Duggan para oficialmente introduzir Requiém, aparentemente a grande vilã (pelo menos eu acho que é uma mulher pelo desenho) da nova saga cujo nome havia sido apenas mencionado aqui e ali anteriormente, com possíveis aparições nas sombras nos prólogos de Infinity Countdown, em que força um anão de Nidavellir a forjar um objeto, provavelmente a espada que a vemos empunhar em Prime. Sem dúvida é uma “entrada triunfal” de respeito e sua presença imponente, ajudada por um inspiradíssimo design de Mike Deodato Jr. – reparem na máscara no formato da Lemniscata, que simboliza o infinito -, estabelece uma ameaça interessante cujo objetivo, que obviamente tem relação com as novas versões das joias do infinito, caçadas galáxia afora, ainda está longe de ficar claro.

Esse grande clímax, porém, é precedido de dois outros momentos soltos, mas ao mesmo tempo interligados conceitualmente. A HQ abre com Loki em um dos grandes repositórios de conhecimento da finada Asgard tentando entender o que vem acontecendo com a linha do tempo e com o multiverso em geral. Nós sabemos que, com Guerras Secretas (a terceira), aquela prometida eliminação do multiverso não aconteceu, mas sim que tudo ficou extremamente “bagunçado”, com as várias realidades tangenciando-se mais frequentemente e com a Terra-616 tornando-se uma Terra que amalgamou tudo aquilo que a editora queria colocar debaixo do mesmo telhado.

Nesse ponto da história, o roteiro de Duggan é inspiradíssimo, pois ele não perde oportunidade para usar Loki como o vetor de belas cutucadas no grande engenheiro de todas as mega-sagas da Marvel do passado mais recente e que recentemente bandeou-se para a DC Comics: Brian Michael Bendis. Loki desafia o que ele vê e, de maneira transversa, põe em xeque toda a estrutura que Bendis colocou em funcionamento desde Guerra Secreta (essa no singular mesmo). Além disso, o roteiro abre a porta para uma busca, por Loki, do ponto de origem de tudo, o que pode esclarecer muita coisa, claro.

(1) O que restou do SoulWorld e (2) Thanos triunfante sobre os Chitauri.

Em seguida, somos levados ao Sanctum Santorum do Doutor Estranho, que recebe uma visita de Adam Warlock e, juntos, graças a uma corda mágica do Mago Supremo, fazem uma incursão para o interior da joia da alma, antes o paraíso idílico conhecido como SoulWorld. Em Infinity Countdown, Duggan já havia nos levado para lá usando Velha Gamora (o pedaço da alma de Gamora que nunca saiu da joia) e Hank Pym e o estado pós-apocalíptico do lugar já havia ficado claro. Mas, agora, tudo está muito pior e Warlock descobre uma gigantesca ameaça que pode ou não ser a própria Requiém. Incomodou-me profundamente, porém, o uso quase que automático, pelo Doutor Estranho, da joia do tempo, que está com ele. Essa manipulação temporal como se fosse apenas mais um artifício facilmente à mão do roteirista é algo extremamente perigoso e torna tudo muito mais “fácil” e simplista. Se algo não der certo, então é só voltar no tempo e tentar de novo. Meu alerta ficou ligado aqui e fica a torcida para que Duggan não faça uso deste expediente maroto e raso (e, mais ainda, espero que os Irmãos Russo não façam isso em Vingadors 4!).

Os acontecimentos na mansão novaiorquina de Estranho parecem anteceder o final de Infinity Countdown, pois é a partir dessa interação com Warlock que ele decide reunir a nova Guarda do Infinito, ou seja, todos aqueles que possuem uma joia: ele mesmo, Warlock, Viúva Negra, Drax, Capitã Marvel e no nada a ver do Turk Barrett (ou Tucão, para os íntimos). Será esse grupo que, provavelmente, protagonizará a saga e que servirá como oposição a Requiém, caso ela seja mesmo confirmada como a vilã (já que é de praxe que revelações “bombásticas” sobre a identidade dela aconteçam em breve).

Apesar de ser mais um caça-níquel, Guerras Infinitas Prime acaba sendo um bom prelúdio que se beneficia muito da bela arte de Deodator Jr. e da chegada de Requiém. Claro que tudo que acontece aqui poderia ser “pulado” e contado rapidamente em duas ou três páginas na saga em si, mas, pelo menos, não ficou aquela sensação de perda de tempo.

Guerras Infinitas Prime (Infinity Wars Prime, EUA – 2018)
Roteiro: Gerry Duggan
Arte: Mike Deodato Jr.
Cores: Frank Martin
Letras: Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 25 de julho de 2018
Páginas: 32

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.