Crítica | Guerreiro

É difícil barrar filmes de esporte como veículos para excelentes histórias de superação de obstáculos aparentemente intransponíveis. Dentro desse nicho, diria que os filmes de luta são ainda mais propícios para essa lição, já que os lutadores não dependem de uma equipe, apenas de sua própria força de vontade, técnica e, dependendo do filme, de seu treinador e/ou sua família mais próxima. Guerreiro é um exemplo desse tipo de obra que, infelizmente, teve uma divulgação tímida demais quando de seu lançamento tanto nos EUA quanto no Brasil (somente em vídeo ainda por cima!), sendo normalmente esquecido em meio a tantos outros exemplos mais vistosos como o recente – e também excelente – Creed: Nascido para Lutar.

Seja como for, Guerreiro vale cada centavo e o investimento de talvez longos demais 140 minutos de projeção. Sem recorrer a litros de sangue, a direção de Gavin O’Connor, de O Contador, que também co-escreveu o roteiro, é segura e consegue engajar o espectador sem apelar para a violência explícita a esse ponto, aspecto até curioso para a produção, mas que mostra que o velho adágio de que “menos é mais” sempre está certo.

Tommy Conlon (Tom Hardy um ano antes de encarnar Bane, em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge), um ex-Marine veterano de guerra, retorna para a casa de seu pai, Paddy (Nick Nolte), um ex-lutador de boxe, para pedir que ele o treine para um vindouro campeonato mundial de MMA (Mixed Martial Arts) sugestivamente batizado de SPARTA. Acontece que Tommy não via o pai há 14 anos, pois saiu de casa com sua mãe ainda garoto já que Paddy era um bêbado violento, que batia na mãe e que destruiu a família. Tommy culpa o pai – com boa dose de razão – por tudo de errado e ruim que aconteceu em sua vida e sua volta a ele se dá unicamente por razões profissionais como ele deixa claro desde o início.

Paddy, por sua vez, já não bebe uma gota de álcool há alguns anos e fica imensamente feliz com a oportunidade de reaproximar-se de sua família. Sua alegria é tanta que ele corre para ver Brendan (Joel Edgerton), seu outro filho e irmão mais velho de Tommy, que mora com a mulher e duas filhas no local mais longe que pode do pai, mas dentro do mesmo estado. A recepção de Brendan é destruidora: o pai somente pode se comunicar com ele via correio ou pelo telefone. Afinal de contas, apesar de ter feito escolhas diferentes na vida em razão de sua paixão por sua então namorada, hoje esposa (Tess, vivida pela bela Jennifer Morrison), Brendan culpa o pai igualmente pela dissolução da família. No entanto, Brendan também está a caminho do campeonato SPARTA, ainda que por outras vias, e não demora até que os caminhos dos dois irmãos se cruzem.

O’Connor optou por estruturar o filme como duas narrativas paralelas até o começo do campeonato. Vemos a relação de Tommy com Paddy de um lado, percebendo vagarosamente que Tommy tem um passado sombrio (além da questão do pai) e a luta inglória de Brendan, um professor de física, para conseguir voltar à forma para reerguer financeiramente a família, já que uma doença coronária na filha mais nova quase o levou à bancarrota. Sem dúvida, a primeira metade do filme pode ser considerada lenta e desconexa, mas é que O’Connor usa essa parte para vagarosamente construir de maneira muito crível as personalidades do trio principal de personagens. Da segunda parte em diante, vemos o lado inevitavelmente formulaico dos filmes de luta, com os personagens galgando espaço luta a luta. É um festival de clichês, mas todos eles muito bem feitos e que criam todo o suspense que estamos acostumados a ver nos melhores filmes de luta.

São a primeira parte do filme e a luta final, além das atuações de Hardy, Edgerton e Nolte, que alçam esse filme ao panteão de um dos melhores de seu gênero. Hardy encarna o herói durão que não dá o braço a torcer nem mesmo para o irmão. Edgerton é mais o herói familiar, com quem nós temos mais facilidade de nos identificar. São personalidades bem diferentes, mas igualmente complexas, contando com igualmente boas atuações. Já Nick Nolte é um show à parte, com sua atuação tendo-lhe valido uma merecida indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante . Seu Paddy Conlon é um corroído pai de família que já não tem muitas esperanças na vida. Fica feliz só de ver parcialmente e de longe a neta que nunca conheceu, na porta da casa de seu filho. Seu olhar de arrependimento, frustração e de amor por seus filhos, que retornam cada uma de suas palavras com violência e desdém, é de rachar o coração de qualquer um, mesmo considerando seu passado violento em razão da bebida. Nolte consegue colocar o espectador na difícil tarefa de sofrer por alguém que, se pensarmos friamente, não merece nem mesmo nossa pena e os enquadramentos da fotografia de Masanobu Takayanagi (A Perseguição e Intrigas de Estado) intensificam esse sentimento, amplificando nossa dúvida e a dor do personagem.

Todas essas atuações de se tira o chapéu, porém, convergem para a luta final. Sem explicar muita coisa para não estragar o prazer de ver esse filme, basta dizer que Tommy, Brendan e Paddy precisam ir até o inferno para terem alguma chance de redenção e, mesmo assim, o custo parece ser impagável. Nesses momentos, magistralmente filmados por O’Connor e seu diretor de fotografia, vemos uma luta de MMA que vai muito além de uma pessoa lutando contra outra por dinheiro, muito além de uma mera briga de superação ou de um lutador desacreditado contra outro invencível. É nesse momento que vemos claramente que essa fita justifica de verdade sua existência, colocando-se ao lado de outros grandes exemplos do gênero. É nesse momento que é impossível – mais do que normalmente – não agarrarmos a ponta das cadeiras ou não mordermos os lábios em antecipação e aflição pelo que está para acontecer. Torcer para alguém ganha um novo e muito mais complexo contorno em Guerreiro em um filme que é talvez bem melhor do que tinha o direito de ser (ainda bem!).

Combinando uma coreografia de luta de primeira e atuações dolorosas e inesquecíveis, Guerreiro deveria ter tido muito mais destaque do que teve em seu lançamento. Sem dúvida um dos melhores dramas de luta da década.

Guerreiro (Warrior, EUA – 2011)
Direção: Gavin O’Connor
Roteiro: Gavin O’Connor, Anthony Tambakis, Cliff Dorman
Elenco: Joel Edgerton, Tom Hardy, Nick Nolte, Jennifer Morrison, Frank Grillo, Kevin Dunn, Maximiliano Hernández, Bryan Callen, Sam Sheridan, Fernando Chien, Jake McLaughlin, Vanessa Martinez, Denzel Whitaker, Carlos Miranda
Duração: 140 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.