Crítica | Gunman Clive

estrelas 4,5

Western, indie e plataforma. Três palavras que resumem o jogão que é Gunman Clive, um game de ação 2D extremamente estiloso e que consegue, com seu escopo pequeno, divertir, homenagear e marcar presença como uma experiência memorável.

O que mais chama atenção nesse jogo independente, logo de cara, é a escolha de uma arte desenhada a mão em cada cenário do game. Com pouco sombreado e quase monocolor, o game consegue trazer uma sensação caseira ao mesmo tempo que investe, com poucos recursos, na criação de um clima desértico típico do tema abordado. Se por um lado o traço rascunhado parece desleixo, logo ele se torna um dos principais fatores que fazem deste simples game uma jogatina marcante e viciante.

O visual, todavia, de nada serviria sem um gameplay decente e desafios suficientes. Além de variedade de inimigos e de armas, ainda que limitada, Gunman Clive consegue trazer uma jogabilidade tradicional misturada com ótimo level design, proporcionando uma curva de obstáculos crescente e não enjoativa, algo normalmente comum em obras independentes que exageram no estilo e pecam no conteúdo. Com chefões equilibrados e dignos do tamanho do jogo e lembrando Mega Man durante a maior parte da jogabilidade das fases, Gunman se permite misturar elementos temáticos e foge do mero western sem comprometer a diversão, já que a história não está em primeiro plano aqui. A prioridade é a ambientação.

A estética se beneficia de uma trilha sonora variada em nove composições, todas tipicamente do velho-Oeste, mas sem a presunção de um game maior. Difícil escolher uma favorita entre Cowboy in Town, Underground, Runaway Train. Fly Me To The Moon marca a mudança de tom do jogo, mas cada trilha é colocada em tipos de fase precisos. Seja em cima de um trem, seja perseguindo o inimigo na sua cidade natal, ou ainda desafiando a gravidade, trata-se de ótima sincronia entre visual e sonoro.

gclive

Pode-se dizer que as estratégias são as mais básicas possíveis em um game de plataforma. Há certa razão nisso, pois é possível identificar quase toda dificuldade em outros games do gênero. Mas aqui não há apenas pura ação. É preciso dominar os artifícios e o tempo para determinadas ações como os melhores games do gênero faz – e lembro aqui de toneladas de jogos dos 16 bits. Gunman faz homenagem para clássicos e apresenta o que mais se destaca em um game de alcance tão limitado: provocar a vontade do jogador de continuar naquele mundo. A comparação com Red Dead Redemption é absurda. Dada a escassez, porém, de western nos games, e ao próprio problema que a maioria dos games indies enfrentam ao tentar ser mais do que são, é plausível dizer que o game da Rockstar e o jogo aqui criticado cumprem suas missões na criação da sensação de estar em um dos gêneros mais cultuados no cinema, ainda que cada um na sua e sabendo seus pontos fortes.

Disponível tanto para telas touch quanto para consoles portáteis e pc, Gunman Clive consegue se estabelecer bem em qualquer plataforma. Recomendável é jogar com botões até para facilitar a jogabilidade, mas a diferença é risível, tanto que minha primeira jornada foi em um iPhone e a paixão apareceu na hora. Recomendável, de verdade, é experimentar esse jogo barato, pois mesmo que dure um par de dias – ainda que se queira zerar com os cômicos personagens abertos ao final – trata-se de um game singelo e sabedor do que quer e consegue trazer ao seu público, coisa cada vez mais rara.

Gunman Clive
Desenvolvedora:
Horberg Studios
Lançamento:
2 de abril de 2012
Gênero:
Ação, Plataforma
Disponível para:
Android, iOS, PC, Nintendo 3DS, Wii U

ANTHONIO DELBON . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.