Crítica | HA HA HA

estrelas 2,5

Por mais impessoal que um espectador qualquer se proponha ser, haverá sempre o “fator humano” a interferir no julgamento final de um filme. O dito espectador pode reconhecer acertos, apontar erros, classificar e analisar os elementos vistos na obra mas a sua avaliação final sempre passará pelo viés da opinião pessoal, não importa o que digam críticos, teóricos e estudiosos a respeito. Neutralidade é um sonho inalcançável e, por mais esforço que se faça, há sempre um pouco de emoção de quem escreve naquilo que escreve.

Após a última cena de Hahaha (2010), filme do prolífico diretor sul-coreano Hong Sang-soo, eu tive dificuldades para encontrar os adjetivos certos a fim de classificar bem a obra que acabava de ver. De imediato, qualquer espectador classificaria o filme como “chato”, e essa foi uma palavra muito presente nas conversas que ouvi, enquanto descia as escadarias do Cine Olido, em São Paulo, e repassava lentamente tudo o que me fora mostrado.

A história de Hahaha é simples, mas executada com complexidade e pretensão demasiadas, coisas que talvez tenham afastado a maioria dos espectadores. Temos na tela a história de Jo Munkyung, um diretor de cinema que está de viagem marcada para o Canadá. Antes de sua partida, ele chama um amigo, Bang Jungshik, para beberem e conversarem sobre as coisas boas de suas vidas nos últimos tempos. O material bruto do filme é a representação desses eventos, num flashback muito bem orquestrado, já que separa o presente como sendo algo sem interesse algum e direciona toda a atenção para um tempo que estende uma rede de encontros e desencontros entre pessoas, inclusive Jo e Bang, que sem saber, estiveram nos mesmos lugares e com as mesmas pessoas no mesmo período de tempo. Por mais ranzinza que seja o espectador, é impossível negar a engenhosidade da construção narrativa. Mas infelizmente, este não é o fim.

Ao seguir uma certa linha cronológica de acontecimentos, Hong Sang-soo opta por mostrá-la de maneira levemente atemporal, principalmente na primeira parte da fita. Há um toque reconhecível da Nouvelle Vague, até mesmo na produção mais crua, embora estilizada, com delicado uso de cores para os ambientes e os figurinos, com destaque para a influência das mulheres sobre os homens, o cigarro onipresente e a música econômica. Então passamos quase duas horas acompanhando essas idas e vindas intercaladas com as vozes do amigos que enchem a cara em um bar qualquer e brindam à saúde enquanto narram suas últimas aventuras, das quais apenas o espectador conhece a verdadeira ligação. Essa característica geralmente tende a aproximar o público da obra, já que ninguém resiste ao posto de confidente, especialmente de um filme, mas nesse caso a estratégia parece não  ter funcionado.

Creio que o primeiro grande erro de Sang-soo foi deixar que o tempo transcorresse como se estivesse acompanhando acontecimentos reais. Não existem “filmes longos” para verdadeiros cinéfilos. A duração de um filme nunca deve constituir um problema para quem gosta de cinema. Mas há um lamentável impasse quando esses filmes de maior duração são mal escritos ou mal dirigidos. O que já demoraria algum tempo para acabar torna-se um suplício de séculos, uma espécie de tortura com ácido óptico que parece desacelerar na tela a cada vez que alguém se mexe na cadeira, suspira com apatia ou balança a cabeça negativamente… Não digo que esse é o caso de Hahaha, mas certamente há muita coisa nessa descrição que podemos aproveitar para classificá-lo.

Há muita ingenuidade no modo como o diretor trata suas personagens e essa escolha tornou-as desprovidas de graça ou força. Mesmo que algum grande entusiasta do filme aponte que esta tenha sido a intenção dramática do enredo, está claro que foi uma péssima escolha que não funcionou depois dos 15 minutos iniciais. Chega a ser irritante alguns caminhos trilhados pelos casais e os conflitos egoicos e existenciais do filme. A montagem até consegue nos desviar um pouco dessa escolha chorosa, mas não logra fazer com que ela desapareça.

Se tivesse pensado em um roteiro mais dinâmico e em histórias que não se estendessem por um longo período de tempo morto ou que possuíssem um verdadeiro propósito dentro do filme (falo isso ao lembrar das cenas plenamente descartáveis), o diretor talvez conseguisse entregar algo mais palatável, menos difícil de se classificar ou gostar. Hahaha não é um filme ruim, é “apenas” medíocre. Seu argumento tem graça e sua técnica de produção, apesar de não ser inovadora, nos lembra um período muito belo do cinema. Lamenta-se que o roteiro e a direção de Sang-soo sejam insatisfatórios e acabem por finalizar algo que dá muitas justificativas aos espectadores inflamados que imediatamente proferem a frase condenável assim que os créditos finais começam a subir: que filme chato!

Hahaha (Coreia do Sul, 2010)
Direção: Hong Sang-soo
Roteiro: Hong Sang-soo
Elenco: Yoon Yeo-jeong, Kim Kang-woo, Moon So-ri, Kim Sang-kyung, Ye Ji-won, Kim Gyu-ri, Kim Yeong-ho, Yu Ju-Sang, Gi Ju-bong
Duração: 116min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.