Crítica | “Half-Light” – Rostam

Rostam Batmanglij: multi-instrumentista, produtor e compositor. Membro da elogiada Vampire Weekend – banda de indie rock responsável por refrescar o cenário indie com sua sonoridade um tanto erudita – de 2007 a 2016, quando anunciou sua saída do grupo visando se dedicar a uma carreira solo e produzir outros artistas. Desde então, o compositor produziu canções de nomes como Frank Ocean, Solange e Haim.

Rostam, descendente de iranianos, faz questão de depositar na obra toda a bagagem cultural de suas raízes. Embora Half-Light encontre similaridades com outros trabalhos recentes do lado mais “conceitual” do pop americano (o excelente Blonde, de Frank Ocean, do qual produziu faixas, é um paralelo devido a seu ar intimista e dream pop minimalista), é impossível não ver o disco como um frescor enorme devido a toda influência estrangeira e oriental nos arranjos. Desde a abertura de Sumer, Rostam incorpora uma sonoridade que soa milenar tanto em suas batidas quanto em sua forma de impor a voz. Woods é o que chamaria de uma versão iraniana da harmonia de Pet Sounds, com múltiplos instrumentos exóticos (sitar, tar e tabla apenas pra citar alguns). Don’t Let It Get To You pode aparentar até mesmo um som familiar para os ouvintes brasileiros, com uma chuva de tambores que transmitem um swing impressionante e lembram alfaias de maracatu.

Há um tom açucarado de pop lisérgico em algumas canções de Rostam, destaque para as ótimas Bike Dream e Half-Light. A voz do cantor, maquiada de forma que pareça ecoar como algo distante, mergulha o ouvinte em uma atmosfera nostálgica, um mundo de memórias e sentimentos empoeirados. Claro, os peculiares instrumentos orientais usados aqui ajudam ainda mais nessa imersão, similar ao que George Harrison e sua obsessão pela música indiana fez nas faixas mais experimentais dos Beatles. A sensação é como se confrontássemos algo místico, mas totalmente fundido à sociedade moderna e seus clichês românticos e filosóficos. “Então uma noite, isso veio a mim em um sonho (…)” – os poucos versos de Hold You talvez sejam o clímax desse conflito de memórias e sonhos evocado pelo artista, encontrando paz na delicada voz de Angel Deradoorean (ex-Dirty Projectors), resultando em uma faixa que funciona como um belíssimo dueto de neo soul.

Claro, a qualidade do álbum não é a mesma ao longo de seus cinquenta e dois minutos. A segunda metade derrapa em alguns momentos, talvez por Rostam abandonar parte da instrumentação oriental e acabar caindo em um vale comum de R&B e pop. Mas mesmo quando seus arranjos deixam a desejar, é aqui que o compositor se prova como letrista. Rostam escreve com inspiração em sua própria vida, mas sem deixar que isso vire algo egocêntrico ou prepotente, como no caso de algumas Taylor Swifts da vida. É o cotidiano sendo cantado de forma bela e sincera, de maneira que até assuntos mais específicos, como sua descendência iraniana (When) e sua sexualidade (Rudy), não deixam de serem palpáveis.

Half-Light é a prova de que a música pop tem potencial para rumar, sim, em diferentes direções, sem se prender ao modelo americano clássico. Rostam não se deixa levar por fórmulas e elabora uma obra que mistura elementos instrumentais tanto da música ocidental quanto da oriental, tudo por cima de letras que abraçam o cotidiano como se nele escondesse uma certa magia. Em uma época onde parece tão difícil o diálogo entre algumas civilizações, o produtor nos ensina que, independente de qualquer rótulo, música precisa ser universal.

Aumenta!: Wood
Diminui!: Warning Intruders

Half-Light
Artista: Rostam
País: Estados Unidos
Lançamento: 15 de setembro de 2017
Gravadora: Nonesuch Records
Estilo: Dream Pop, Experimental

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.