Crítica | Halloween (2018)

  • Leiam, aqui, as críticas de todos os filmes da franquia.

Em A Filosofia do Horror e os Paradoxos do Coração, o filósofo Noel Carroll afirma que há dois tipos de “horror”. Há o natural, expressado diante de algo como “o que os fascistas estão querendo para o Brasil é horrível”, bem como o horror artístico, focado na expectativa de causar medo e asco no público espectador, contemplador, aterrorizado diante de algo ameaçador, repugnante, em suma, um conjunto de elementos que caracterizam a nossa definição de “monstro”. Michael Myers ocupa o segundo tipo.

Antes de adentrar no terreno de análise da produção em questão, desenvolvida e lançada 40 anos após o inesperado sucesso do filme de 1978, devo admitir que as reflexões que seguem não estão desprovidas da emoção de um fã em contato com um bem sucedido caminho para uma de suas franquias prediletas, mas policiada no que tange aos devidos cuidados de alguém que se entrega ao exercício reflexivo, mantendo o devido distanciamento para conseguir contemplar o fenômeno de 109 minutos que é Halloween, um filme de terror bem concebido, homenagem pomposa ao subgênero slasher, com gostinho de cinema nos anos 1970-1980.

Como exposto na divulgação, Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) vive enclausurada e marcada pelos acontecimentos de 1978, já que o filme ignora todas as sequências, inclusive o ótimo Halloween H20 – Vinte Anos Depois. Sequência direta do primeiro entrave entre a final girl e seu algoz mascarado, a produção atual nos apresenta dois jornalistas interessados em documentar a história de Michael Myers, isto é, a “força da natureza” e o “mal puro”, dentre outras alcunhas, personagem encarcerado há quatro décadas e que se encontra com data marcada para transferência de instituição psiquiátrica.

Em Handonfield, Strode vive relativamente próxima de sua filha Karen (Judy Greer) e sua neta Allyson (Andi Matichak). Enquanto a filha, casada com Ray (Toby Huss), vive uma vida aparentemente tranquila e saudável, incomodada pela presença sufocante e desequilibrada da mãe, atormentada pelos traumas do passado, a neta parece ser bem mais paciente e compreensiva com a avó. Assim, a história ganha maior densidade e unidade ao nos apresentar gerações distintas em simbiose, numa busca constante de compreensão para os fenômenos e acontecimentos que adentram as nossas vidas e nos impedem de direcionar as coisas exatamente como idealizadas.

Como esperado, no dia 31 de outubro, Michael Myers é transferido juntamente com um grupo de internos. Sob os cuidados de Dr. Sartain (Haluk Bilginer), pupilo do Dr. Loomis, personagem de Donald Pleasence nos filmes anteriores, o indesejável assassino escapa e segue para Handonfield, tendo em vista seu acerto de contas com Laurie Strode, aguardado há 40 anos e despertado pelas provocações de Aaron Korey (Jefferson Hall), documentarista que ao visitar Myers na prisão, leva a máscara e cita a sua “quase vítima” Strode, o que de alguma forma desperta a monstruosidade do personagem, forçadamente contida pelos tratamentos e clausura na instituição psiquiátrica.

Diante do exposto, o que vem adiante não é nenhuma novidade. Também nunca pretendeu ser. Michael Myers, representado por James Jude Courtney e com dublagem de Nick Castle, ou seja, o ator que deu vida ao maníaco em 1978, segue para o encontro tão esperado, mas antes da batalha, deixa um extenso rastro de sangue e pavor por onde passa, matando pessoas aleatoriamente, por desejo ou por tais personagens atravessarem o seu caminho, bem como a sua proposta sanguinária.

Dirigido com eficiência por David G. Green, Halloween teve o roteiro desenvolvido pelo cineasta, em parceria com Jeff Frodley e Danny McBride, dramaturgos que se inspiraram nos personagens de John Carpenter e Debra Hill, mas ganharam desenvolvimento próprio, num apego ao filme de 1978 que não o torna subserviente, ao contrário, apresenta ao espectador a maneira ideal de como fornecer um novo olhar para “criaturas” que já habitam o imaginário cultural há quatro décadas. E o mais importante: esqueça as respostas cabais para todas as coisas. Desde que surgiu na indústria cinematográfica, Michael Myers é o mal puro, um assassino que mata aleatoriamente, sem a necessidade de explicações exaustivas que contemple os motivos que o tornaram a máquina assassina brutal.

Algumas críticas, em meu ponto de vista, apressadas e infundadas, apontam Halloween como um filme que peca por seu roteiro. Há apenas um flashback pouco orgânico no meio da história, mas fora esse pequeno trecho extremamente curto, o filme entrega uma narrativa com personagens fortes e com necessidades dramáticas que não precisam de expressão óbvia nos diálogos, pois já estão escancaradas na premissa do filme, bem como na trajetória de quatro décadas dos personagens que protagonizam o enredo: Laurie Strode e Michael Myers. Não é preciso aprofundar na dinâmica entre avó e neta, tampouco perder tempo com conflitos novelísticos entre mãe e filha, pois desde a abertura já sabemos o que a protagonista se tornou e como o seu modo de vida afeta demasiadamente o seu relacionamento com as poucas pessoas que gravitam em torno de sua existência.

Propositalmente, há um ponto de virada fortíssimo próximo ao final, algo que salvas as devidas proporções, assemelha-se aos caminhos dramáticos de Sexta-Feira 13 Parte 5 – Um Novo Começo, criado para nos tirar do conforto e achar que a narrativa tomou um rumo inesperado e desleal com os amantes da franquia, mas apenas alguns segundos depois a brincadeira ganha uma correção de rumo, permitindo que Michael Myers volte com tudo e nos situe diante do embate final, com direito ao desfecho em que mulheres caçadas tornam-se caçadoras e Laurie Strode reforce que Halloween, em sua versão 2018, não é o filme do antagonista mascarado, nem um slasher qualquer, mas o acerto de contas da história de sua vida, uma narrativa com alto teor biográfico. Antes de ser um filme de terror com tensão calculada e enredo envolvente, Halloween é a trajetória de Laurie Strode e da mulher diante dos entraves sociais que são alegorias do subgênero desde os anos 1970.

Em entrevistas para a promoção do filme, Jamie Lee Curtis, excelente em seu desempenho como a personagem que alavancou a sua carreira, declarou que há muito do movimento #metoo com a história da protagonista. Sem interesse de fazer um paralelo forçado, a atriz alegou que de alguma forma o filme deixa essa relação delineada ao trazer uma mulher a tomar os rumos de sua história. Desta maneira, a personagem deixa claro que “não é aquilo que aconteceu com ela”, num interesse veemente em “escrever a sua própria história”. Sem perceber tais conexões até o final das filmagens, a atriz reforçou que “houve uma mudança na forma como agimos e pensamos” e que Halloween de alguma forma expressa tudo isso. Afirmações, por sinal, foram devidamente “homologadas” em minha análise, tamanha a pertinência, ao se tratar de um dos tópicos mais importantes de todos os pontos que compõem a produção.

Outro ponto importante de Halloween é a trilha sonora como um dos fios condutores para a criação de uma atmosfera densa. John Carpenter atualizou o tema, juntamente com Cody Carpenter e Daniel Davies. Considerado um tema de composto por poucas notas, mas com carga semântica significativa, a trilha foi revestida de sintetizadores e ganhou sonoridade contemporânea, sem perder o impacto para a construção do medo na narrativa.

Por meio de seu crescimento cíclico e manutenção de mistério em cadência vertiginosa, a trilha sonora é um elemento fundamental nesta imersão ao universo de Michael Myers. 40 anos depois, o tema inspirado em Bernard Hermann e John Williams, em especial, nas composições de Psicose e Tubarão, respectivamente, ganhou maior qualidade sonora, numa demonstração da possibilidade de ser complexo com o uso de apenas duas notas.

Aliada aos aspectos visuais, a trilha ganha corpo e expressividade. Assinado por Richard A. Wright, o design de produção investe em cores opacas e ambientes soturnos, sem cores vivas que denotem sentimentos esperançosos. Com cenografia de Missy Berent Ricker e direção de arte de Sean White, o filme entrega ao responsável pela direção de fotografia os espaços de circulação para os personagens, numa calculada expressão de suas dimensões (físicas, psicológicas e sociais), bem como de suas necessidades dramáticas.

Michael Simmonds, ao comandar os movimentos, enquadramentos e iluminação, constrói a atmosfera adequada, acertando especialmente na composição de ambientes que mesmo diante da ausência de luz abundante, consegue tornar visivelmente compreensível o que é apresentado, o que torna a narrativa dirigida por David G. Green um filme de terror esteticamente sofisticado.

Há quem diga que os realizadores pretendem investir numa sequência, algo desnecessário. Quando Halloween – H20 – Vinte Anos Depois foi lançado, o desfecho deixava claro que não havia saída para outro embate entre Michael Myers e Laurie Strode, mas os produtores conseguiram criar uma manobra absurda, apesar da premissa interessante, pondo o assassino mascarado na casa onde viveu uma pequena parte de sua infância, local transformado num cenário para um reality show. O resultado foi desastroso, o que culminou em talvez um dos piores filmes da franquia.

O final de Halloween deixa espaço para a possibilidade de uma continuação, mas não acho que seja interessante insistir em manter o assassino em filmes que se esforçam para tornar a mitologia de personagens tão primorosos num exercício barato de ficção. Quer sentir a sensação eletrizante? Assista, anualmente, Halloween – A Noite do Terror, Halloween H20 – Vinte Anos Depois e Halloween, versão 2018. Se possível, adquira a nova trilha sonora. Faça a sua maratona e esqueça mais uma trajetória de sangue para Michael Myers. Suspensão da crença às vezes precisa encontrar seus limites e o antagonista já deixou rastro de sangue suficiente para a nova geração.

De volta aos meandros das reflexões de Noel Carroll, os antagonistas, de acordo com seu ponto de vista, precisam causar algum tipo de ressonância psicossocial nos espectadores, o que nos leva a observar que os “monstros” mudam de acordo com os seus respectivos “tempos”, numa relação de constante transformação. Horrível, para nós espectadores, é observar que velhos temas parecem nunca ganhar um desfecho.

Para Carroll, é possível observar que “os ciclos de horror surgem em épocas de tensão social e que o gênero é um meio pelo qual as angústias de uma era podem se expressar”. O autor reafirma constantemente que o horror é útil neste sentido por causa da atenuante sensação de medo e angústia. Após 40 anos do filme de 1978, o subtexto de Halloween parece o mesmo. Quer algo mais assustador que isso?

Antes de encerrar, rapidamente de volta aos meandros das referências, só eu que achei o desfecho uma homenagem aos últimos instantes de O Massacre da Serra Elétrica? Outra coisa: a cena com Allyson na parte traseira do carro da polícia não lembrou a vocês a personagem de Sarah Michelle Gellar em Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado? Para refletir.

Halloween (Estados Unidos – 2018)
Direção: David Gordon Green
Roteiro: Danny McBride, David Gordon Green, Debra Hill, Jeff Fradley, John Carpenter
Elenco: Jamie Lee Curtis, Andi Matichak, Carmela McNeal, Chris Holloway, Christopher Allen Nelson, Drew Scheid, Dylan Arnold, Haluk Bilginer, Hannah Russell, James Jude Courtney, Jefferson Hall, Judy Greer, Marian Green, Miles Robbins, Nick Castle, Omar J. Dorsey, Pedro Lopez, Rhian Rees, Rob Niter, Robert Fortunato, Toby Huss, Vince Mattis, Virginia Gardner, Will Patton
Duração: 109 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.