Crítica | Halloween – 25 Years of Terror

Em postagem nas redes sociais, John Carpenter e Jamie Lee Curtis divulgaram a primeira imagem oficial do novo filme da saga Halloween, representada por Michael Myers, o “mal encarnado”. Pouco foi divulgado, mas o que sabemos é que em breve o antagonista aparecerá para mais uma noite de matança. Antes das releituras de Rob Zombie, Stefan Hutchinson, em parceria com Anthony Masi, escreveu e dirigiu o retrospectivo Halloween – 25 Years of Terror, documentário que buscou resgatar a memória da série, sem deixar de contemplar o subgênero slasher e o legado do psicopata mascarado na cultura pop, dos anos 1970 até os anos 2000.

Produzido pela Paranormal Pictures, Halloween – 25 Years of Terror conta com a participação de profissionais na indústria que estiveram ligados aos filmes da franquia. Entre os entrevistados estão John Carpenter, Jamie Lee Curtis, Debra Hill, Rob Zombie, Danielle Harris, Moustapha Akkad, Rick Rosenthal, Donald Pleasance, Ellie Cornell, Beau Star, etc. No panteão dos admiradores da série, temos Greg Nicotero, Clive Barker, mestres do terror dentro de suas respectivas áreas de atuação, afinados no discurso sobre o potencial do antagonista Michael Myers.

O padrão é similar aos documentários que buscam resgatar a memória de determinados clássicos do cinema de horror: a elaboração do argumento, o desenvolvimento do roteiro, a idealização dos bastidores, a linguagem e a interpretação do filme, os resultados das bilheterias e o legado que a franquia estabeleceu dentro do subgênero slasher. Com exercício constante da contextualização histórica, o filme aproxima o espectador contemporâneo do clima da época, apontando questões políticas, sociais e estéticas que culminaram no lançamento do primeiro e mais respeitado filme da saga, Halloween – A Noite do Terror, em 1978.

Com narração de P. J. Sales, somos informados inicialmente que nos anos 1970, os filmes de baixo orçamento dominaram a indústria e se tornaram grandes sucessos de bilheteria. O terror já havia deixado suas marcas com os lançamentos de produções memoráveis, tais como A Profecia, O Exorcista, O Massacre da Serra Elétrica, Natal Negro e os “antecedentes criminais” do subgênero slasher, isto é, os cheios de classe Psicose (Alfred Hitchcock) e A Tortura do Medo (Michael Powell).

O destaque maior é para os elementos da linguagem cinematográfica que fizeram do primeiro filme um sucesso financeiro estrondoso e com aval da crítica especializada, premiação pouco fornecida aos filmes de terror deste estilo. Com fotografia e iluminação minimalista, enquadramentos que escondem o perigo a todo instante e espaço cênico comum, próximo da realidade dos espectadores, Halloween – A Noite do Terror também surpreendeu com a surpresa ao final do plano-sequência de abertura que revelava ser uma criança a autora do assassinato de abertura.

O documentário também faz questão de deixar claro que as reflexões jornalísticas positivas foram fundamentais para a franquia alavancar. As pessoas estavam cientes que o período gótico do horror, com seus monstros que variavam entre vampiros, lobisomens e outras criaturas misteriosas tinham dado espaço para a presença do mal que pulsava em presenças humanas mescladas com toques de sobrenatural. Tratado como “a sombra” em algumas partes do roteiro original de John Carpenter e Debra Hill, Michael Myers tornou-se o primeiro ícone da Santíssima Trindade do Slasher, seguido logo mais por Jason (Sexta-Feira 13) e Freddy (A Hora do Pesadelo).

Com edição pouco ousada de Rod C. Spence, a produção trafega pela história da franquia e com base no roteiro didático, colhe depoimentos de extras dos DVDS, eventos realizados por fãs, cenas de bastidores e outros materiais genealógicos. Depois de analisar o filme de 1978, o documentário mergulha nas continuações, explicando-as de maneira crítica e bastante elucidativa: por questões de mercado, Halloween 2 – O Pesadelo Continua abandonou as sutilezas e investiu no gore; filmado nas mesmas locações do clássico Vampiros de Almas, de 1956, Halloween 3 – Dia das Bruxas teve problemas de produção e acabou se distanciando da mitologia de Michael Myers; na esteira do sucesso da franquia Sexta-Feira 13, Halloween 4 – O Retorno de Michael Myers aumenta os níveis dos litros de sangue e mortes violentas; em 1989, Halloween 5 – A Vingança de Michael Myers, demonstra-se como um exemplar mal sucedido, com fotografia escura, roteiro focado na violência, em detrimento do desenvolvimento dos personagens, além de demonstrar os sinais de cansaço de um subgênero exaurido.

A linha retrospectiva ganha continuidade com uma profunda análise do polêmico Halloween 6 – A Última Vingança, filme que teve dois cortes e hoje circula pela internet em versões diferenciadas. Alega-se que a versão oficial teve que ser quase toda reajustada depois de uma exibição teste fracassada. Donald Pleasence havia falecido e tiveram que montar o filme com ajustes claramente prejudicais para o andamento da narrativa. Lançado em meados dos anos 1990, a produção tinha como foco atualizar o antagonista para as plateias, haja vista o retorno (mal sucedido) de Jason na nona parte da franquia Sexta-Feira 13 e de Freddy (bem sucedido) em O Último Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger.

Com o sucesso de Pânico, a Miramax decidiu investir numa versão turbinada da franquia, o que culminou no retorno de Jamie Lee Curtis. Dirigido por Steve Miner, responsável por Sexta-Feira 13 Parte 2, Halloween H20 – Vinte Anos Depois era uma continuação direta do segundo filme. Melhor e mais interessante que qualquer filme protagonizado por Michael Myers depois de 1978, a produção acertou em cheio e ganhou notoriedade do público e da crítica. Tanto dinheiro, por sua vez, culminou no lançamento de Halloween – Ressurreição, oitavo filme da saga, atrelado ao advento das novas tecnologias que dominavam o campo da cibercultura. Jamie Lee Curtis topou participar apenas da abertura, alegando ser a sua última participação, num exemplar que pode ser considerado o pior de todos os exemplares.

Com votação do público pela internet, o filme tinha como destino agradar aos fãs da série. As pessoas diziam o que achavam da produção, os rumos que o psicopata deveria seguir, mas a ideia de um olhar voyeurista e a busca por criticar a internet não funcionaram.  Reduzido a um simples perseguidor implacável, Michael Myers perdeu todo o seu potencial. Coube a Rob Zombie reapresentar o “mal” em seu reboot, mas o assunto não é tema do documentário, pois as produções do roqueiro foram lançadas depois das comemorações dos 25 anos de uma das sagas mais rentáveis do cinema de horror.

Com 85 minutos, Halloween – 25 Years of Terror é um documentário básico, sem grande ousadia em sua narrativa. Ganha notoriedade pelo exercício crítico de suas próprias produções, bem como resgate de bastante material de bastidores e entrevistas valiosas para a confirmação da tese que se propõe, isto é, a franquia ser um importante marco do gênero e o potencial de Michael Myers para representar uma autêntica figura do “mal encarnado”.

Halloween – 25 Years of Terror — Estados Unidos, 2006
Direção: Stefan Hutchinson
Roteiro: Stefan Hutchinson, Anthoni Masi
Elenco: John Carpenter, Jamie Lee Curtis, Moustapha Akkad, Rick Rosenthal, Clive Baker, Donald Pleasence, Brian Andrews,  Tom Atkins, Nick Castle, Debra Hill, John Ottman
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.