Crítica | Halloween – A Noite do Terror (1978)

estrelas 4

O cinema de terror dos anos 1970 é comumente conhecido por dar início a uma “nova era” dentro do gênero, uma fase que renovou e tornou massivos os experimentos já desgastados dos anos 1930 (nos EUA) e algumas das experimentações feitas após a Segunda Guerra e durante a década de 1950, ao final da qual o gênero voltava à vida com as criaturas que no passado haviam-no enaltecido: Drácula, Frankenstein e derivados.

O final dos anos 50 e os anos 60 foram marcados pelos baixo orçamentos e pela progressiva ousadia dos cineastas em explorar violência e temáticas antigas de uma forma em tese inovadora, com forte apelo sexual, psicológico, dramas familiares ou pessoais mal resolvidos e metáforas de questões sociais. Os exemplos mais influentes desta fase foram Psicose (1960) e A Noite dos Mortos-Vivos (1968), películas que não só “abriram as portas do inferno” para o que viria na década seguinte como se tornaram verbetes idolatrados dentro do cinema de terror.

Halloween (1978), é fruto maduro desta renovação sessentista e parte de uma safra bem rica de filmes que compuseram a “nova era” do terror, cujos primeiros passos foram dados dentro do fator diabólico/ritualístico (O Exorcista e O Homem de Palha, ambos de 1973) e que depois ganhou amiguinhos da pesada com os giallos de Dario Argento, O Massacre da Serra Elétrica (1974), Carrie, a Estranha (1976), A Profecia (1976) e Zombie – O Despertar dos Mortos (1978), só para citar os mais relevantes.

Escrito por Carpenter e Debra Hill em cerca de 10 dias, o roteiro de Halloween pega o espectador de surpresa logo na sequência inicial, que dura mais ou menos cinco minutos. O público sabe que está assistindo a um slashfilm, mas a abertura e a forma como o primeiro assassinato acontece mistura suspense e uma atmosfera macabra que fogem bastante dos maus slashers, seja pela cuidadosa direção de Carpenter e seu excelente uso de ponto de vista do assassino com steadicam –- a condução da câmera e seus movimentos criam uma crescente angústia no espectador –-; seja pela trilha sonora , composta pelo próprio Carpenter e que se alterna em três temas básicos e algumas variações, todos com uma melodia simples ao piano acompanhada de um som sintetizado ou de um pequena frase musical com outros instrumentos.

A ligação entre o imaginário popular e aquilo que o roteiro tomará como elemento central é estabelecido já nos créditos e abertura, com a abóbora se aproximando da tela e a música aterradora de Carpenter ao fundo. Essa ligação se segue no decorrer do filme à medida que entendemos a ameaça –- com direito a idiossincrasias e tropeços em alguns diálogos, atitudes estúpidas frente ao medo, e clichês do gênero como telefones mudos e “burrice curiosa” dos personagens ameaçados –- e somos constantemente postos em estado de atenção para algo que é estrategicamente adiado, aumentando não só a expectativa macabra do público para querer ver o assassinato acontecer como também dando maior significado a ele.

A exibição de cenas de O Monstro do Ártico (1951) e Planeta Proibido (1956) é uma curiosa forma do diretor homenagear clássicos de sua infância e engrossar o horror sugerido ao longo do filme. Como a cobrança em relação ao elenco não é grande – o filme definitivamente não é conhecido pelas ótimas interpretações –, o trabalho de direção volta-se para dois elementos básicos do roteiro, que é a construção psicológica do medo e pinceladas de ingredientes da época, como liberdade feminina e organização social do americano médio, com suas babás jovens e saidinhas, famílias enfurnadas em suas casas e, em termos cinematográficos, a reafirmação de dois pontos básicos do terror: as cidades [quase] fantasmas e o “vilão imortal”.

O interessante nesses dois pontos é que o texto não se fixa unicamente na facilidade por eles concedida, mas dá a ambos uma carga de tensão que faz com que sejam bem aceitos pelo espectador, vide o misterioso e intrigante desaparecimento de Michael Myers ao final do longa e a possível indicação de Carpenter para a ligação familiar entre o “bicho-papão” e a sofrida Laurie Strode.

É bastante exagerado dizer que Halloween – A Noite do Terror é uma obra-prima, um filme imbatível ou coisas do tipo. Como já foi dito, a obra possui defeitos, alguns deles bem elementares, o que nos impede de elevar a nota ou elogiar mais características gerais da fita. No entanto, o trabalho de John Carpenter na construção do medo e na criação de um enredo mais psicologicamente tenso do que gráfico acabou superando parte dos tropeços narrativos e fazendo com que Halloween se tornasse uma obra obrigatória para quem quer entender de verdade a evolução do cinema de terror. Um ótimo filme em um ótimo contexto de medo e tensão a toda prova.

Halloween – A Noite do Terror (Halloween) — EUA, 1978
Direção: John Carpenter
Roteiro: John Carpenter, Debra Hill
Elenco: Donald Pleasence, Jamie Lee Curtis, Nancy Kyes, P.J. Soles, Charles Cyphers, Kyle Richards, Brian Andrews, John Michael Graham, Nancy Stephens, Arthur Malet, Mickey Yablans, Brent Le Page
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.