Crítica | Halloween H20 – Vinte Anos Depois

estrelas 4

O sucesso de Pânico abriu portas para tantas coisas. Desde os filmes que copiavam a sua fórmula, como por exemplo, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, aos clássicos reinventados para a nova geração de consumidores. Halloween H20 é um desses casos, muito bem sucedido por sinal. Aqui no Brasil, o filme estreou no dia 25 de dezembro de 1998, um verdadeiro presente de Natal para os fãs da série e de filmes de terror. Dinâmico, coeso e direto, a sétima produção da franquia ligava-se apenas aos dois primeiros filmes e mostrou que uma ideia batida pode render bem quando a direção é competente.

Em Halloween H20 – Vinte Anos Depois, todos parecem viver tranquilamente as suas vidas. Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) mudou de nome e de cidade para esquecer o passado. Ela forjou a própria morte e vive como diretora de uma escola, tendo como foco a educação e os cuidados com o filho, interpretado por Josh Hartnett. O problema é que ela vive cotidianamente com medo do retorno do irmão, possivelmente morto após o incêndio do hospital no primeiro filme, e com isso, os remédios para depressão fazem parte da sua rotina.

O pânico toma conta da sua vida quando se dá conta de que o dia 31 de outubro está próximo e que Michael Myers pode voltar, o que de fato acontece. Por sinal, na melhor forma. As cenas de perseguição são ótimas, bem dirigidas e coreografadas, o filme começa e termina em um ritmo tão intenso que não conseguimos sentir uma gota de tédio. É preciso ressaltar que a produção foi estágio para vários bons atores contemporâneos, dentre eles, Michelle Williams, que interpreta a nora de Jamie Lee Curtis, e Joseph Gordon-Levitt, um dos massacrados na clássica cena de abertura do filme.

Dirigido por Steve Miner, responsável por Sexta-Feira 13 Parte 2, o filme possui uma dinâmica incrível. A câmera desloca-se muito bem, os enquadramentos dão conta da narrativa, a direção de arte e o figurino conseguem estabelecer a relação de depressão e melancolia do personagem de Jamie Lee Curtis, através de cores opacas e sem expressividade. A montagem de Patrick Lussier, responsável pelos quatro filmes da saga Pânico, também é eficiente e ajuda a aproximar os personagens dos anos 1970-1980 ao contexto contemporâneo.

Outro aspecto técnico interessante é a música de John Ottman. Ele consegue empregar classe aos principais trechos, sempre referenciando a trilha original, mas dando vários toques inovadores. O roteiro é coerente e mais expressivo que qualquer episódio entre o primeiro filme e esse. O conteúdo textual ganhou força na encenação dos bons atores: Jamie Lee Curtis encarna uma espécie de Sarah Connor e parte para o ataque, sendo essas, por sinal, as melhores cenas, haja vista que boa parte do meio para o final do filme é a luta entre os dois irmãos.

Há o processo metalinguístico comum aos filmes da época, com referências à Pânico 2, pois, numa cena, dois personagens assistem ao filme enquanto se arrumam para uma festa, bem como Carrie – A Estranha e o próprio “original” da série. Um dos momentos mais intensos é o diálogo entre Jamie Lee Curtis e Janet Leigh (a Marion Crane do chuveiro de Psicose), com direito a conselhos maternais e tudo mais. No filme, Leigh é assistente da diretora. Na vida real, eram mãe e filha. Uma bela homenagem ao gênero e a atriz que marcou a história do cinema, ao lado de Alfred Hitchcock. Há também uma homenagem ao ator Donald Pleasence, logo após os créditos, pois o filme foi dedicado ao ator (me pergunto por que não no começo, para ficar mais evidente).

O final chocante deixou espaço para a “cena obrigatória” aristotélica. O que teria acontecido com a personagem de Jamie Lee Curtis após o confronto final com o irmão Michael Myers. Infelizmente, os produtores não deixaram a cena povoando a mente dos espectadores. Resolveram produzir mais um filme, quatro anos depois. Hallloween: Ressurreição estreou em 2002 e mostrou a falta de tato dos realizadores com o terror, gênero em decadência após Pânico 3 e Medo em Cherry Falls.

Halloween H20 – Vinte Anos Depois (Halloween H20: 20 Years Later, Estados Unidos – 1998)
Direção: Steve Miner
Roteiro: Robert Zapia, Matt Greenberg
Elenco: Jamie Lee Curtis, Adam Arkin, Michelle Williams, Adam Hann-Byrd, Josh Hartnett, LL Cool J, Janeth Leigh, Joseph Gordon-Levitt, Nancy Stephens
Duração: 86 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.