Crítica | Halloween: Ressureição

estrelas 2

Quando Halloween: Ressurreição estreou no Brasil em 2003, fiquei num misto de surpresa e desagrado. Eu tinha vindo da geração Pânico, filmes cheios de jogos metalinguísticos bem orquestrados. Ao passo que o filme ia se desenvolvendo, perguntei-me o que deu em Jamie Lee Curtis para participar desta continuação. Fatura do cartão atrasada? Medo de cair no esquecimento? Saudades de atuar diante das câmeras? Só fui descobrir recentemente: havia uma obrigação contratual em continuar caso o filme Halloween H20 fizesse sucesso.

Sendo assim, a personagem encontra-se internada em um manicômio. Após a cena de perseguição do filme anterior, descobrimos que depois de esfaquear o irmão e ser levada para o lado de fora pelo segurança, Michael Myers se levantou, matou um policial, colocou o corpo e a máscara no lugar e sumiu. Ao pegar a vã e sair pela estrada para o confronto final, a personagem de Jamie Lee Curtis não decapitou o irmão, mas outra pessoa, por isso, foi presa (haja criatividade e interesse em faturar).

No manicômio, ela aguarda pelo possível retorno do irmão. Os dois duelam e ela acaba perdendo, sendo morta para sempre e tornando-se livre da fúria assassina do irmão. A pergunta é: por que um final tão ordinário para um personagem tão brilhante nos filmes anteriores? E há ainda outra questão: se estava na agenda de Michael matar a irmã, qual a necessidade de seguir numa empreitada de sangue com pessoas que nada tem a ver com a situação?

Estas são perguntas praticamente retóricas, porque a resposta todos nós já sabemos: capitalizar em cima de um personagem-convenção. Michael Myers, Jason, Freddy e outros são ícones do cinema de horror e independente da qualidade do roteiro, há o chamado “poder de troca”, e por isso, sempre haverá alguém disponível para conferir e garantir a conta bancária dos produtores. O roteiro é muito fraco, a edição tenebrosa, os sustos são fáceis e a música ruim.

Após matar a irmã, Michael Myers segue para a casa onde viveu a sua infância. Lá, um grupo de estudantes universitários é contratado por uma empresa para passar uma noite no local, como numa espécie de reality show. Ao chegar, eles percebem que tudo vai além de um simples jogo de representação via internet. Eles precisam sobreviver ao psicopata que está de volta e com muita sede de sangue. Divertido em alguns instantes, mas irregular na maioria do tempo, há até uma interação com o público que assiste ao programa, mas a direção preguiçosa e o roteiro ruim não deixam espaço para uma perspectiva crítica da presença de Michael Myers na era da convergência.

Halloween: Ressurreição ainda não se contenta em ser ruim. É preciso garantir mais. O final abre espaço para outra “cena obrigatória”: o corpo carbonizado de Michael Myers reanima-se e ataca uma das enfermeiras do hospital. A pergunta é: para onde a narrativa pretendia ir? Aparentemente só encher a paciência dos espectadores. De 2002 para cá não tocaram no assunto, pois nada foi produzido além do ótimo reboot de Rob Zombie e da sua péssima continuação, Halloween 2, uma das piores coisas do terror nos últimos anos.

Halloween: Ressurreição (Halloween: Resurrection, Estados Unidos – 2002)
Direção: Rick Rosenthal
Roteiro: Larry Brand e Sean Hood
Elenco: Jamie Lee Curtis, Brad Loree, Busta Rhymes, Bianca Kajlich, Sean Patrick Thomas, Daisy McCrackin, Katee Sackhoff, Luke Kirby, Tyra Banks
Duração: 94 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.