Crítica | Halloween – The Inside History

Halloween – A Noite do Terror, de John Carpenter, é um inegável clássico do terror e os textos veiculados sobre Michael Myers não deixam de reforçar tal afirmação. Phil Nobile Jr., em 2010, assumiu a direção de Halloween – The Inside History, documentário guiado pelo próprio roteiro, produção que tem como projeto analisar o legado e o impacto do filme de 1978 na cultura cinematográfica estadunidense, em especial, o campo de produção dos filmes de terror. Narrado por Rob Naughton, os 86 minutos nos faz mergulhar neste universo extremamente explorado pela cultura do DVD, suporte para entrevistas, resgate de especiais de TV e material de bastidores, mas assisti-lo é, ainda assim, uma experiência que não deixa de ser fascinante.

Ao longo do documentário, os relatos esclarecem que a produção estabeleceu o subgênero slasher nos Estados Unidos, subsidiado por seus antecedentes italianos, isto é, os filmes do estilo giallo. Com excessivo e repetitivo uso de imagens de arquivo, Halloween – The Inside History se revela um documentário eficiente no que concerne a crítica genética de uma produção, mesmo que não apresente nada de novo para os cinéfilos que conhecem John Carpenter, o slasher e as enxurrada de psicopatas mascarados que surgiram na vira dos anos 1970 para a década de 1980, em sua maioria, frutos do subtexto opressor de seus respectivos contextos históricos de produção.

Fora as questões estruturais, cansativas e monótonas em alguns trechos, o documentário feito para a TV investe em trechos do roteiro extraídos para alavancar os depoimentos de John Carpenter, Jamie Lee Curtis, Donald Pleasence, Nick Castle, Moustapha Akkad, além do design de produção e editor Tommy Lee Wallace, o diretor de fotografia Dean Cundey, a produtora e roteirista Debra Hill e Rob Zombie, responsável por renovar a franquia no exagerado, mas interessante Halloween – O Início e no famigerado e questionável Halloween 2.

No que tange aos aspectos de conteúdo, Halloween – The Inside History trafega entre depoimentos, trechos do filme, entrevistas de arquivo e fotografias de bastidores, material editado por Mike Punzo, tendo em vista reforçar que o filme foi um sucesso inesperado, que Michael Myers é uma força da natureza, o mal em seu estado puro, imitado posteriormente pela indústria, responsável por colorir mais a tela de vermelho, fazendo escorrer bastante sangue das mortes violentas. Parte integrante de um esquema de produção independente, conforme cada integrante do elenco, da equipe técnica e do campo da crítica de cinema depõe, fica atenuado que Halloween – A Noite do Terror é um filme estilo, conduzido por uma trilha sonora que acerta no ponto, bem como uma direção de fotografia eficaz ao utilizar com steadycam e ponto de vista (câmera subjetiva) com sofisticação.

O documentário retoma a cena de abertura e o seu plano-sequência elogiado, flerta com o sucesso de Carpenter em Hollywood após o sucesso da noite de crimes de Michael Myers, filme que inicialmente seria O Assassino de Babás, modificado para o título que conhecemos provavelmente por questões comerciais. Precisamos lembrar que datas comemorativas no cinema garantem a possibilidade de sucesso e Natal Negro já havia dado início ao reinado dos feriados e dias especiais sangrentos.

Tal como Em Pedaços, Halloween – The Inside History demarca Psicose como marco zero do slasher. Conforme os relatos dos depoentes, Hitchcock esboçou, inspirado no romance de Robert Bloch, a provocação inicial para o que seriam as narrativas de assassinatos em série por meio de armas brancas e violência gráfica. A casa gótica continuava em destaque e o “Bates Motel” é uma prova cabal disso, mas os crimes agora eram mais próximos da humanidade, longe dos fantasmagóricos castelos e mansões, locais habitados por vampiros e lobisomens.

Engraçado observar, no entanto, que ninguém menciona A Tortura do Medo, de Michael Powell, lançado em 1960, contemporâneo de Hitchcock, cineasta pouco conhecido, mas responsável por estabelecer alguns detalhes narrativos que reforçariam as bases do slasher futuramente. Uma falha imperdoável. Com vilão comparado e contrastado com a onipresença da fera assassina de Steven Spielberg em Tubarão, o documentário reflete sobre o impacto e legado da franquia, catalisadora de convenções anuais que reúnem elenco, produtores e fãs, vendas de produtos ligados ao universo e outras atividades comerciais e memorialísticas em torno do psicopata que “nunca morre” e sequer dá uma palavra ao passo que atravessa a cultura pop deixando um extenso rastro de sangue.

Halloween – The Inside History (Estados Unidos – 2010)
Direção: Phil Nobile Jr.
Roteiro: Phil Nobile Jr.
Elenco: John Carpenter, Debra Hill, Rob Zombie, Janeth Leigh, Nick Castle, Moustapha Akkad, Jamie Lee Curtis, Donald Pleasence, Tommy Lee Wallace, Dean Cundey
Duração: 86 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.