Crítica | Halt and Catch Fire – 1ª Temporada

estrelas 4,5

Como começar a escrever sobre Halt and Catch Fire?

Talvez a melhor maneira seja bastante óbvia e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, bastante ousada. A série é para a década de 80 e para o cenário do desenvolvimento dos computadores pessoais o que a espetacular Mad Men, da mesma produtora, foi para os anos 60 e para o ambiente da evolução da publicidade comercial. E digo isso em termos de valores de produção, qualidade do elenco e, especialmente, a coesão dos roteiros.

Mas, como toda afirmação ampla e genérica assim, há que haver um certo grau de qualificação. Halt and Catch Fire (ou, em tradução literal, “pare e pegue fogo”), cujo nome é baseado em um famoso comando inicialmente fictício, mas que depois foi implementado em alguns programas, que colocava os computadores em uma “corrida interna” que o parava completamente, exigindo que ele fosse reiniciado, é uma série de foco fechado em um universo bem menor do que o de Mad Men, ainda que mais facilmente relacionável para o público atual. Afinal, Mad Men tinha ambições maiores (plenamente alcançadas, diga-se de passagem), com um elenco vasto e multifacetado, mesclando questões históricas importantes dos EUA com um núcleo fictício fascinante no metiê das agências publicitárias da famosa Madison Avenue, algo de menos, digamos, apelo para a geração da internet. Já HCF (doravante usarei a sigla pela qual a instrução era mesmo conhecida para identificar a série), focando em apenas quatro personagens interconectados, lida com questões tecnológicas que diretamente impactam nosso dia-a-dia, do tamanho de computadores pessoais e tudo que isso implica aos primórdios da internet como a conhecemos, passando pela corrida oitentista para quebrar a hegemonia da gigante IBM, então praticamente monopolizadora desse nascente mercado.

E o trunfo de HCF é justamente começar pequena, de forma enganosamente simplista. Somos apresentados a  Joe MacMillan (Lee Pace), um gerente de vendas ambicioso, brilhante e egresso da IBM, com um passado conturbado, chegando na fictícia Cardiff Electric, pequena empresa texana especializada em software para mainframe e literalmente colocando-a de cabeça para baixo e no meio da concorrência pelo próximo grande passo no mercado de hardware: o computador portátil. Para alcançar seu objetivo, ele arregimenta a ajuda de Gordon Clark (Scoot McNairy), um engenheiro da Cardiff em quem ele já estava de olho (Joe nunca dá ponto sem nó) e que já tentara emplacar um produto ousado na COMDEX, e manobra quase que criminosamente para que a estudante geek, rebelde, genial e representante da futura geração, Cameron Howe (Mackenzie Davis), seja contratada para desenvolver o código de um novo sistema operacional. Fechando o elenco principal, há a esposa de Gordon, Donna (Kerry Bishé), que, apesar de toda a presença magnética de Joe MacMillan capitaneando a temporada, é a mais fascinante personagem dos quatro e, curiosamente, a série marca a segunda vez em que Bishé e McNairy formam um casal, a primeira tendo sido em Argo.

Será, portanto, justamente por Donna que começarei minha abordagem mais detalhada. Christopher Cantwell e Christopher C. Rogers, criadores e showrunners da série, tinham um plano muito bem traçado para a personagem e ele chega à completa fruição em apenas 10 episódios de duração “regulamentar” em que vemos Donna partir de uma mulher definida essencialmente por seu hesitante marido e pela sua vida doméstica cuidando de suas duas filhas, mesmo tendo uma vida profissional, e chegar a uma personagem inesquecível, de personalidade indiscutivelmente forte, que sai das sombras e ganha um brilho intenso que ecoa inteligentemente o pleito de tratamento igualitário entre gêneros. Não há maniqueísmos, nem palavras vazias de ordem – como o “empoderamento” atual acabou se tornando -, mas sim uma construção realmente genial que vai surpreendendo o espectador a cada desenvolvimento, a cada revelação, a cada ação, com episódios inicialmente quase sem Donna e outros, mais no final, em que Donna é elemento dramático essencial e condição sine qua non para os desdobramentos narrativos.

Mas esse cuidado – raro, muito raro de se ver por aí, pois personagem feminina forte não tem nenhuma relação necessária com aspectos físicos ou ação na acepção comum da palavra – não funcionaria não fosse pela atuação da pouco conhecida Kerry Bishé. A atriz se esforça em mergulhar completamente nas várias versões da personagem que a temporada exige. Quando somos apresentados a ela, apesar de entendermos que um dia, junto com o marido, ela capitaneou um fracassado projeto pessoal relacionado a um computador musical batizado de Symphonic, nós a vemos como uma típica dona de casa que trabalha também fora do lar, tendo que sacrificar sua vida profissional e equilibrar o dilúvio de afazeres diários, notadamente diante de um marido apático, que se entregara à derrota e à mesmice cotidiana depois da pouco explicada, mas muito subentendida questão envolvendo sua invenção. Na medida em que a temporada progride, porém, os roteiros vão exigindo mais de Bishé que transforma Donna em profissional gabaritada, mas subutilizada, em mulher infeliz e carente e, finalmente, em alguém que encontra seu caminho, caminho esse que dificilmente algum espectador – mesmo o mais calejado – conseguirá imaginar  a partir das informações inicialmente disponibilizadas. De certa forma e mantendo o paralelo com Mad Men, Donna é a versão oitentista de Peggy Olson.

Lee Pace e seu Joe MacMillan, por sua vez, é uma força da natureza, o Don Draper de HCF, se o leitor me permitir mais essa conexão com a outra genial série da AMC. Personagem construído cuidadosamente para ser a imagem da série em seu início, ele é um angustiado profissional que sabe antecipar jogadas e visualizar o futuro muito claramente, ainda que sem saber se realmente é aquilo que quer. Sempre muito bem arrumado, de terno e cabelo perfeitos, com uma postura ereta e que estabelece – sem que ele precise sequer falar – comando e certeza, Joe é um profissional quebrado internamente, algo muito bem representado por terríveis cicatrizes que têm em seu tórax e cuja história acabamos sabendo, mas que ele doura como o Coringa ao explicar suas “marcas” em Batman – O Cavaleiro das TrevasÉ muito interessante ver Pace fazer seu personagem evoluir, apenas ocasionalmente abrindo janelas para seus verdadeiros sentimentos, especialmente no que se refere a Cameron, com quem inicia um caso nos primeiros segundos de projeção.

Falando em Cameron, ela é o exato oposto de Joe, um quase estereótipo da geek perdida na vida que passa seu tempo entre aulas na faculdade e no fliperama local, sentindo-se deslocada por não entender sua função nesse mundo. Mackenzie Davis vive a personagem de forma crível e eficiente, com um arco narrativo que, se não fascina como o de Donna, certamente tem um desfecho tão inesperado quanto, mas perfeitamente lógico dentro da estrutura da temporada, com uma franca evolução quando sua personagem finalmente encontra seu caminho na vida, lá pela segunda metade. É particularmente interessante como ela é a única personagem sem um passado. Como representante do “porvir”, ela não carrega o peso do que já passou e só olha para a frente, sem exatamente entender o que vem por aí, mas arriscando tudo para chegar lá, sem pensar em nada que não seja o presente.

A quadra de ases acaba com Gordon, um engenheiro computacional brilhante, mas que acusou o golpe de sua derrota anterior e nunca mais se levantou da lona. Vivendo infeliz entre seu emprego na Cardiff Electric e sua vida doméstica que ele não valoriza, a chegada de Joe na Cardiff reacende sua ambição e sua genialidade, criando um interessante misto de dívida e antagonismo que ele sente em relação ao visionário gerente de vendas. Essa oposição entre os personagens é, também, uma das forças motrizes da série, já que uma relação de respeito mútuo é cirurgicamente estabelecida entre essas duas bem diferentes pessoas.

Mas o grande trunfo da temporada fica mesmo com os roteiros. O cuidado já mencionado acima na construção dos personagens é presente mesmo em relação aos de menor relevância, como John Bosworth (Toby Huss), o diretor da empresa que é manobrado por Joe MacMillan, mas que aos poucos vai se enamorando da nova direção que é forçado a seguir e Nathan Cardiff (Graham Beckel), um tradicional texano e dono da empresa. Além disso, como nos melhores roteiros, há uma circularidade impressionante com tudo o que é apresentado, algo que vai desde o uso das filhas de Gordon e Donna para mostrar o lado humano de Joe, até as informações sobre o passado de cada um deles sendo utilizadas para estabelecer o presente e predizer o futuro. Se o espectador prestar atenção, verá que cada pequena revelação do começo da temporada é usada e amplificada mais para o final, tornando a culminação da narrativa perfeitamente lógica e crível quando analisada em retrospecto. Até mesmo o grau de abertura do final – mais do que dependente de uma continuação – funciona muito bem e recria o status quo como poucas séries têm coragem de fazer.

Aliás, é quase inusitada a forma como os cliffhangers são estabelecidos para a segunda temporada. Para começar, eles não são “surpresas” retiradas da cartola no último segundo, mas sim progressões lógicas do que vinha sendo construído, o que desde logo já é um alívio. Além disso, eles não aparecem nos minutos finais do último episódio. Muito ao contrário, eles já estão presentes no penúltimo e até no antepenúltimo episódios, com os showrunners usando o último para efetiva e concretamente pavimentar a ponte que leva a série a outro patamar, em uma escolha narrativa pouco comum em séries de TV que foge do batido final inesperado e súbito.

No entanto, isso não quer dizer que os roteiros são infalíveis. Há momentos e escolhas mais ordinários e infelizes que poderiam ter sido limados facilmente da temporada. Um deles é logo a sequência que abre o primeiro episódio, em que vemos Joe MacMillan em seu carro esportivo atropelar um tatu. A metáfora é forçada e até bobalhona, algo que de forma alguma combina com a abordagem temática que viria a seguir. Mas é óbvio que esse aspecto é um detalhe insignificante em seu todo. O problema mesmo está em momentos pseudo-filosóficos como quando, em Landfall, Gordon fica enlouquecido correndo atrás de um Bebê Repolhinho para suas filhas e lida com sua própria mortalidade ou quando ele obsessivamente cava um buraco em seu jardim ou mesmo quando ele e Donna são alvos de um assalto. Nesses pontos, a narrativa certeira ganha desvios que se desconectam com o trilho principal, sem que tenha uma verdadeira função maior.

E, ainda que muitos dos problemas sejam centrados em Gordon, Joe não fica imune a eles. Sua relação problemática com seu pai, algo que fica evidente discretamente aqui e ali ao longo da história, ganha um grau mais explícito quando o executivo sênior da IBM efetivamente entra na história, vivido pelo veterano John Getz. Em uma série comum, com mais episódios, essa interação poderia ter funcionado melhor, mas, aqui, ela soa quase que como um filler, como um elemento estranho em um arco narrativo de outra forma perfeito. Joe MacMillan Sr. tem muito mais presença e influência em seu filho quando ele não aparece do que quando ele é socado na história sem um propósito claro e objetivo.

De toda forma, esse pequenos problemas de roteiro são isso mesmo: pequenos. Há uma organicidade muito grande no trabalho de Cantwell e Rogers que supera e nos faz esquecer quase que completamente dessas distrações e que elevam a série, já nessa primeira temporada, a um nível diferenciado de apreciação. É como ver algo realmente grande nascendo e que permanecerá na mente de quem assistir mesmo que as temporadas seguintes não mantenham a qualidade.

Halt and Catch Fire tem o cromossomo daquelas séries destinadas a serem memoráveis como Mad Men. Se essa característica será dominante nas temporadas seguintes, só mergulhando de cabeça para descobrir. Uma coisa, porém, é certa: Joe, Gordon, Donna e Cameron são personagens inesquecíveis e isso, por si só, já coloca HCF entre as obras atuais obrigatórias para um aficionado por séries.

Halt and Catch Fire – 1ª Temporada (EUA, 1º de junho a 03 de agosto de 2014)
Criação e showrunners: Christopher Cantwell, Christopher C. Rogers
Direção: Juan José Campanella, Karyn Kusama, Johan Renck, Ed Bianchi, Larysa Kondracki, Jon Amiel, Daisy von Scherler Mayer, Terry McDonough
Roteiro: Christopher Cantwell, Christopher C. Rogers, Jason Cahill, Jonathan Lisco, Dahvi Waller, Zack Whedon, Jamie Pachino
Elenco: Lee Pace, Scoot McNairy, Mackenzie Davis, Kerry Bishé, Toby Huss, Scott Michael Foster, Graham Beckel, John Getz, Annette O’Toole, August Emerson, Mike Pniewski
Duração: 435 min. (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.