Crítica | Halt and Catch Fire – 2ª Temporada

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estrelas 4,5

– Há spoilers da temporada anterior. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

É muito raro encontrar séries que fazem, de uma temporada para outra, especialmente em seu começo, o que Halt and Catch Fire fez da primeira para a segunda temporada: uma radical mudança de direção que faz absoluto sentido e que decorre naturalmente do que veio antes. Claro, tem muita série por aí que encerra uma temporada prometendo alterações de curso, mas que, na verdade, são apenas jogadas de marketing efêmeras que logo as fazem reverter ao que eram antes.

Christopher Cantwell e Christopher C. Rogers, porém, não demonstram qualquer traço de medo em quase rebootar a série já em sua primeira temporada. Mas eu uso essa expressão com cautela. O reboot, aqui, é completamente lógico e, assim como a tecnologia que serve de pano de fundo para a série, o caminho narrativo evolui a passos largos, mas não necessariamente em uma linha reta simplista como acontece normalmente. E é dessa maneira corajosa que Cameron (Mackenzie Davis), Donna (Kerry Bishé), Joe (Lee Pace) e Gordon (Scoot McNairy) voltam para mais uma temporada nessa fascinante fotografia do início do que se pode chamar da era moderna da computação, largando o desenvolvimento de computadores mais rápidos, mais baratos e menores, para mergulhar de cabeça na pré-história da internet como hoje a conhecemos.

Quando a temporada começa, 20 meses se passaram desde que Joe incendiou um carregamento de PCs da Cardiff Electric e largou o mundo para ir atrás de alguém incerto e não sabido, Gordon permaneceu na empresa levando-a ao sucesso, Cameron funda a Mutiny, levando os programadores da Cardiff e Donna acaba aceitando o convite para trabalhar com ela. Se a mudança de status já ficava evidente ao final da primeira temporada, os showrunners, muito ao contrário do que se esperaria de uma série ainda tentando galgar seu espaço na telinha, aprofundam ainda mais as alterações, colocando os personagens em caminhos divergentes e independentes que demoram bastante para convergir.

A Mutiny está em um ponto em que ela ou cresce de verdade ou afunda de vez. Cameron, com os conselhos de Donna e de um John Bosworth (Toby Huss) recém-saído da prisão, muito relutantemente começa a perceber que não pode continuar gerenciando sua empresa com o grau de democracia e relaxamento utópico que ela imaginara. Seus jogos em rede são bem quistos, mas a Mutiny é uma bagunça esperando para desmoronar sob uma completa anarquia. Enquanto isso, Cameron esbarra em Tom Rendon (Mark O’Brien), um hacker que furta sua propriedade intelectual, chamando sua atenção e também a de seu coração. Donna, por sua vez, trabalha pesado na Mutiny, tomando gosto pela coisa além do lado de negócios que tem que lidar e criando uma comunidade online como algo paralelo, sem maiores pretensões, mas que aos poucos vai mostrando a que veio e causando uma cisma entre ela e Cameron.

Gordon, por sua vez, recebe um gordo cheque representando sua parte na venda da Cardiff Electric, o que o leva à uma aposentadoria precoce. Sem rumo e apenas cuidando de casa, ele decide focar na montagem e venda de computadores customizados a partir da garagem de sua casa. Não demora muito, porém, e ele tem uma péssima notícia pessoal que muda sua visão da vida.

Finalmente, Joe MacMillan é o que talvez tenha passado pelas mais radicais alterações. Não demora nada e descobrimos que ele havia ido atrás de um amor da época da faculdade, Sara (Aleksa Palladino), filha do poderoso magnata do petróleo Jacob Wheeler (James Cromwell, sempre excelente) e que, agora, eles estão juntos, vivendo uma vida simples. Parece que aquele fogo da ambição de Joe passou, mas os inteligentes roteiros da temporada mantém o espectador na dúvida sobre o que exatamente se passa na cabeça do personagem. Trata-se, afinal, de um arco de redenção ou de mais um mirabolante plano dele para dar a volta por cima?

Assim como Donna foi o melhor arco de personagem na temporada anterior, esse prêmio, agora, vai para Joe justamente por ser impossível detectar o que aconteceu. Sem aqueles discursos inebriantes, sem figurinos formais, sem seu carro esportivo, Joe parece outra pessoa, alguém que podemos acreditar piamente que está mesmo apaixonado por Sara. E, ao longo da temporada, com certeza várias surpresas estão reservadas para os espectadores, mas dificilmente conseguimos acertar exatamente a estrada que está sendo seguida.

Na verdade, é deliciosamente difícil acertar qualquer aposta sobre qualquer personagem nesta temporada, ao mesmo tempo que todo o desenvolvimento que acontece surpreendentemente faz completo sentido depois que ele acontece. Mesmo a gradativa abertura da fechadíssima Cameron é algo crível, muito graças a um trabalho muito maduro e completo de Davis, que encarna a geninha da computação de uma forma muito humana, muito verdadeira, muito fácil de criarmo empatia por tudo o que ela faz, mesmo quando não gostamos de suas decisões.

Assim como na primeira temporada, porém, o único desvio narrativo mais sensível é mesmo Gordon. Se, antes, seu comportamento errático criou alguns pequenos problemas no miolo da história, aqui seu arco dramático é mais lento, com acontecimentos que, ainda que funcionem para explicar aquela abordagem mais lisérgica que o personagem teve na temporada anterior, o mantém um pouco fora da engrenagem azeitada composta pelos demais personagens principais, aí incluídos Bosworth e, também, as novas adições à série. Entretanto, ainda que sua evolução não seja exatamente tão suave quanto a de seus pares, gerando episódios aparentemente perdidos como o que ele vai até a Califórnia visitar seu irmão levando suas filhas a tiracolo, é importante o espectador ter paciência, pois cada momento, cada situação que envolve o personagem tem desdobramentos ao final da temporada. Nada é esquecido de verdade nos bem amarrados roteiros que abraçam uma técnica maravilhosa de narrativas paralelas que se tangenciam de tempos em tempos, mas sem realmente voltar à fórmula de núcleo único em prol de uma mesma direção.

E, ao final, fica mais uma vez a promessa de que novos e diferentes caminhos serão trilhados na terceira temporada, pois Cantwell e Rogers não parecem nada interessados em tocar a mesma tecla duas vezes. E, nesse olhar voltado ao nascedouro da tecnologia de que hoje tanto dependemos, é fascinante notar que Halt and Catch Fire não pretende relaxar e repetir fórmulas.

Halt and Catch Fire – 2ª Temporada (EUA, 31 de maio a 02 de agosto de 2015)
Criação e showrunners: Christopher Cantwell, Christopher C. Rogers
Direção: Juan José Campanella, Phil Abraham, Jeff Freilich, Kimberly Peirce, Michael Morris, Larysa Kondracki, Karyn Kusama, Daisy von Scherler Mayer, Craig Zisk
Roteiro: Christopher Cantwell, Christopher C. Rogers, Jonathan Lisco, Jason Cahill, Dahvi Waller, Zack Whedon, Jamie Pachino
Elenco: Lee Pace, Scoot McNairy, Mackenzie Davis, Kerry Bishé, Toby Huss, Aleksa Palladino, Morgan Hinkleman, Alana Cavanaugh, Graham Beckel, Annette O’Toole, Mike Pniewski, Scott Michael Foster, Mark O’Brien, James Cromwell
Duração: 435 min. (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.