Crítica | Halt and Catch Fire – 3ª Temporada

estrelas 4

– Há spoilers das temporadas anteriores. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Depois da grande e corajosa mudança narrativa da primeira para a segunda temporada, Halt and Catch Fire chega ao Vale do Silício, local por diversas vezes mencionado como a “Terra Prometida” do mundo digital. Mas há menos mudanças radicais na terceira temporada, ainda que novamente os showrunners não tenham sentado e berço esplêndido e largado a série no automático.

Seis meses se passaram desde a mudança da Mutiny para São Francisco, com a temporada começando no momento em que Gordon (Scoot McNairy) e Donna (Kerry Bishé) conseguem colocar o mainframe deles em funcionamento, comemorando em evento batizado de Dia da Independência, com direito a jornalista que, porém, não se encanta completamente pela empresa e com novos caminhos para a empresa, no lado do comércio eletrônico, que começa como “escambo eletrônico”. Ao mesmo tempo, Ryan Ray (Manish Dayal), um novo e genial programador, tenta levar suas ideias à diretoria, ideias essas relacionadas com a segurança de dados, um dos motes da temporada, mas não encontra recepção séria, o que o frustra tremendamente e o leva gradativamente na direção de Joe MacMillan (Lee Pace), também na mesma cidade, agora bem estabelecido no ramo de anti-vírus (depois de furtar o programa de Gordon) e enquadrado pelos episódios iniciais como uma figura visionária na linha do que era Steve Jobs, com direito a apresentações misteriosas e marqueteiras. De certa forma – mas apenas de certa forma – o Joe que vemos aqui é o Joe da primeira temporada.

No entanto, o grande foco humano da temporada é mesmo na relação entre Donna e Cameron (Mackenzie Davis) que passam a navegar nas águas mais turbulentas de uma relação empresarial que sobrepuja sua amizade. É a representação perfeita e literal, em uma série de TV, do velho e sábio adágio “amigos, amigos, negócios à parte”. Quando as duas tentam conseguir investimento para ampliar a Mutiny, elas acabam se deparando com a oportunidade de adquirir outra empresa e, em seguida, tentar o IPO (oferta pública de ações). Donna, com uma visão mais negocial, entende as vantagens e a inexorabilidade desse caminho, mas Cameron hesita para não perder controle de sua empresa que, para ela, é muito mais do que apenas um meio para gerar dinheiro. Nessa equação, entra Diane Gould (Annabeth Gish), como a sócia da empresa que investe na Mutiny e que tem uma relação com Donna em razão das filhas das duas estudarem juntas (ainda que se odiando), além do sempre simpático – mas aqui um pouco perdido – John Bosworth (Toby Huss), como um mediador entre todas elas.

Com isso, aquela relação de amizade e co-dependência entre Donna e Cameron passa por testes difíceis e os roteiros são hábeis em pontuar ambos os lados das posturas das personagens, equilibrando inteligentemente a questão e deixando para o espectador decidir quem está certa ou, pelo menos, menos errada. Bishé continua mostrando toda sua latitude como atriz, desenvolvendo sua personagem a passos largos. Aquela Donna insegura e dividida entre trabalho e família que vimos na primeira temporada simplesmente não existe mais. Em seu lugar, há uma mente calculista e fria (mas no bom sentido) que deseja mergulhar de cabeça em um mundo complexo, que realmente exige distanciamento. Por sua vez, Davis trabalha uma Cameron com “dores de crescimento”. Desde que a vimos pela primeira vez como uma pós-adolescente genial e rebelde, ela também caminhou bastante, mas, no fundo, Cameron ainda é uma criançona que ainda quer viver em sua bolha, cercada de seus brinquedos favoritos. Isso fica evidente em seus estranhíssimos momentos de interações com pessoas fora do ambiente da Mutiny e, também, com seu relacionamento meteórico com Tom (Mark O’Brien) que volta para a temporada mais para a frente, depois de Cameron tê-lo deixado no Texas ao final da temporada anterior.

O lado empresarial da temporada é também espelhado na relação de Joe com a diretoria da empresa que leva seu nome – MacMillan Utilities -, normalmente em lados opostos. Joe, como mencionei, parece o mesmo personagem seguro do começo da série, mas a questão é que, depois do que Cameron fez com ele como uma espécie de vingança e de seu divórcio, ele é uma casca do que foi. A frieza que vemos em Donna é completamente oposta à humanidade que Lee Pace deixa finalmente seu personagem transparecer, algo raro antes, mas que, aqui, é intenso e inteligentemente costurado na trama, incluindo uma bela e silenciosa narrativa paralela sobre AIDS, demonstrando a capacidade que os showrunners têm de lidar com uma miríade de questões dentro do contexto histórico em que a série está inserida.

Gordon, assim como nas temporadas anteriores, é o personagem que mais dificilmente se encaixa nesse cenário todo. Sua doença neurológica progride, mas não é algo que o torna uma carta fora do baralho. Ao contrário, sua presença na Mutiny é constante e sua relação litigiosa com Joe MacMillan – há uma ação em andamento sobre furto de propriedade intelectual em razão do anti-vírus – parece andar sempre em paralelo, sem tangenciar a trama principal. No entanto, da mesma forma como vimos antes, o personagem de McNairy é fundamental para o encontro narrativo mais para frente, gerando ótimos momentos entre Gordon e Joe e também Donna e, de forma inusitada, com Cameron (os dois viciados em Mario Bros. é um momento impagável).

É interessante também notar como Ryan Ray, introduzido nesta temporada, ganha relevo com velocidade, tornando-se o braço direito de Joe em uma espiral criativa entre os dois que apresenta ao espectador os conceitos básicos – e técnicos – da Arpanet e, principalmente, da NSFNET, que viria a tornar-se o backbone da internet como hoje a conhecemos. Há um certo didatismo no roteiro nesse aspecto, mas é algo inevitável para nivelar o espectador que não tem familiaridade com o tema. Mas o importante é o desenrolar da relação profissional de Rayn com Joe e o que isso significa para o futuro do visionário ex-gerente de vendas. Manish Dayal está excelente no papel, com uma mistura muito crível de inocência e reverência, tornando-o um dos mais emocionalmente frágeis personagens da série.

Mas então, do oitavo para o nono – e penúltimo – episódio, a série estranhamente acaba e recomeça.

Ok, estou exagerando. Mas não muito. Uma cadeira de eventos de monta acontece ao longo e especialmente ao final de You Are Not Safe (3X08) que parece funcionar como fim de temporada. E tanto é assim que, quando NIM (3X09) começa, estamos em 1990, quatro depois, e o status quo muda completamente, com Cameron em outro país, Donna em outra profissão, Gordon trabalhando em sua empresa e Joe vivendo de seus investimentos e isso só para listar aquilo que não considero como spoiler, pois tem mais. Essa quebra gera uma enorme estranheza e ela demora a ser driblada. Aliás, demora não, ela não é driblada. Donna tem uma misteriosa ideia genial que hesitantemente une os quatro novamente, mas os dois episódios finais são verborrágicos ao limite, exagerando no texto expositivo – com direito até a gráficos desenhados – e arrastando o final e qualquer chance de o espectador acostumar-se de verdade com a virada imaginada pelos showrunners.

Não sei se isso foi causado pela baixa audiência da série e a possível decisão, a essa altura, de que ela só teria mais uma temporada, mas fica a clara sensação que uma parte da história foi pulada para acelerar seu final, resultando em uma temporada quebrada. É importante, porém, deixar claro que esse salto temporal não destrói nem invalida o que veio antes. Se conseguirmos reconstruir em nossa mente os fragmentos do que aconteceu ao longo desses quatro anos que foram pulados, veremos que há lógica em todo o encadeamento de ideias. Mas a impressão de um salto abrupto permanece, detraindo um pouco da impressão geral da temporada.

Mesmo com um razoavelmente sério problema em seu final, a terceira temporada de Halt and Catch Fire continua fascinando pela exploração de relações humanas críveis em um meio tecnológico que, por incrível que pareça, aconteceu há muito pouco tempo. Com um elenco de se tirar o chapéu e escolhas narrativas nada óbvias, Christopher Cantwell e Christopher C. Rogers prepararam bem o terreno para o encerramento da série.

Halt and Catch Fire – 3ª Temporada (EUA, 21 de agosto a 11 de outubro de 2016)
Criação e showrunners: Christopher Cantwell, Christopher C. Rogers
Direção: Daisy von Scherler Mayer, Kimberly Peirce, Jeff Freilich, Jake Paltrow, Andrew McCarthy, Michael Morris, Karyn Kusama, Reed Moreno, Christopher Cantwell, Phil Abraham
Roteiro: Christopher Cantwell, Christopher C. Rogers, Michael Saltzman, Lisa Albert, Alison Tatlock, Mark Lafferty, Angelina Burnett
Elenco: Lee Pace, Scoot McNairy, Mackenzie Davis, Kerry Bishé, Toby Huss, Morgan Hinkleman, Kathryn Newton, Alana Cavanaugh, August Emerson, Mark O’Brien, Annabeth Gish, Manish Dayal, Matthew Lillard
Duração: 435 min. (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.