Crítica | Hamlet Vai à Luta

estrelas 4

Obra de um diretor ainda em início de carreira, Hamlet Vai à Luta é um filme de tendência experimental e humor dramático bizarro, uma livre adaptação da obra de Shakespeare que funciona perfeitamente no ambiente nonsense e impessoal de uma empresa familiar marcada por perigosas brigas entre seus principais acionistas. A morte, a vingança e a ambição expostas em um teor de aparência noir na película ajudam a construir um enredo criativo e fazem da livre adaptação de Kaurismäki uma deliciosa aventura.

A primeira vez que eu vi uma versão de Hamlet no mundo corporativo foi em Homem Mau Dorme Bem, de Akira Kurosawa. A dinâmica fílmica básica funciona mais ou menos igual naquele e neste filme, mas Kaurismäki não tinha preocupação de ser tão meticuloso e perfeccionista quanto o mestre japonês. Um outro tempo e uma outra forma de fazer cinema motivavam-no a brincar com o texto do bardo e com seus próprios atores e espaço cênicos, especialmente com a personagem de Hamlet, interpretado de forma bastante enigmática e fria pelo ator Pirkka-Pekka Petelius; bem como e em todas as sequências que se passam nas dependências do escritório da empresa.

A história começa com a preparação do famoso assassinato da peça, que é confidenciado ao espectador e realizado de forma simples em ação e planificação, ao passo que extremamente bem filmado. Kaurismäki já mostrava a sua forma quase minimalista de dirigir e ao mesmo tempo deixava claro que sabia utilizar ângulos precisos e o mínimo necessário para capturar bem uma ação. Não se trata, porém, de uma economia gratuita de movimentos ou simplicidade cênica barata. Na decupagem limpa de Kaurismäki, há aquele maravilhoso efeito de mostrar muito e bem, utilizando de bem pouco.

O fato do filme ser em preto de branco ajuda a criar uma atmosfera bastante peculiar para a trama, que mesmo se passando no final dos anos 80, parece pertencer a um outro tempo, não só em aparência mas em significado geral. Isso é curioso, porque vemos objetos da era yuppie e ouvimos jazz, blues e pop, além de trechos de sinfonias de Shostakovich e Tchaikovsky; mas a essência do filme nos remete facilmente a um lugar fora disso tudo, o que nos permite enxergar de imediato as mais fortes características shakespearianas no filme, ingredientes da alma e psicologia humanas que podem se fazer presentes em qualquer espaço e época em que haja algo que chamamos de civilização.

A fraqueza de Hamlet frente ao perigoso tio Klaus é um ponto complexo da obra, porque começa de uma forma quase infantil (as cenas dele desenhando durante a reunião da diretoria da empresa ou lendo gibi são bons exemplos disso), mas à medida que a personagem se desenvolve, ganha experiência e endurece o coração, transforma-se em uma indecisa forma de manter o controle sobre tudo. Daí que os jogos dramáticos do diretor começam a se revelar. O filme guarda esse efeito de duas faces da moeda, onde um lado não anula o outro mas é desenhado de forma completamente diferente. Assim é a personagem protagonista e assim é o próprio motor da história, que se revela quase como uma expiação de pecado no final.

Kaurismäki altera certos pontos da obra de Shakespeare em seu favor e consegue um resultado fílmico notável, com um elenco dirigido de forma bastante impessoal e distante (uma característica do diretor, mas que ganha contornos peculiares em cada filme, haja visto a sua proposital artificialidade em O Porto) e uma trama que se segura sem forçar situações, e isso contando todos os absurdos, ironias, pontos cômicos e trágicos que perpassam a narrativa.

Com direito a uma das sequências de mortes mais imaginativas e bem realizadas do cinema oitentista, Hamlet Vai à Luta mostra as consequências da ambição e o resultado de uma vingança inconsequente no seio de uma família e de uma empresa. Se há algo a depor contra o filme, diríamos que é a sua característica episódica, mas aí caímos em uma armadilha, porque é justamente nesse ponto que reside o interessante tom de crônica nonsense pretendido pelo diretor. Cabe então ao espectador julgar se gosta ou não desse modo de contar uma história, mas que fique claro que não são os cortes secos e os fades relâmpagos entre cada “episódio” que vão impedi-lo de apreciar esta que é uma das mais interessantes versões cinematográficas de Hamlet.

Hamlet Vai à Luta (Hamlet liikemaailmassa) – Finlândia, 1987
Direção:
Aki Kaurismäki
Roteiro: Aki Kaurismäki (livre adaptação do Hamlet de Shakespeare).
Elenco: Pirkka-Pekka Petelius, Esko Salminen, Kati Outinen, Elina Salo, Esko Nikkari, Kari Väänänen, Puntti Valtonen, Mari Rantasila, Turo Pajala, Aake Kalliala, Pentti Auer, Matti Pellonpää
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.