Crítica | Hannibal – 3ª Temporada

estrelas 2,5

 *Contém spoilers*

Depois de uma primeira temporada já de alto nível, na qual fomos apresentados a originais conceitos de estética e narrativa de terror, Hannibal nos entregou uma segunda temporada que beirou a perfeição, elevando à máxima potência seu brilhante roteiro, o desenvolvimento minucioso de seus personagens e seu visual único, entrelaçando tudo isso à uma carnificina classuda. O genial Bryan Fuller estava fazendo história na televisão aberta. Com o louvor da crítica – praticamente unânime – à segunda temporada, a equipe que fazia Hannibal acontecer tinha a difícil missão de apresentar as ceias derradeiras do doutor Lecter. Infelizmente, o tempero que marcou presença nas duas primeiras refeições faltou aqui, deixando este último banquete insosso e sem o sabor esperado.

Primeira parte: a caçada

Como todos sabem, nosso canibal favorito cansou de fazer o lobo em pele de cordeiro e cometeu um massacre no final da segunda temporada – em Mizumono, um dos melhores episódios de toda a série –, com direito a muitos e muitos litros de sangue derramados por praticamente todos os personagens principais: Will, Jack, Abigail e Alana. Depois do banho de sangue, Hannibal foge para a Europa levando de ~refém~ a doutora – e sua psicanalista – Bedelia Du Maurier.

E não é que, logo nos primeiros episódios da temporada final, descobrimos que o fatídico massacre não passou de uma pegadinha do Mallandro? Episódio após episódio, vamos descobrindo que: sim, Will sobreviveu; sim, Jack está vivíssimo; aham, Alana continua viva (sem razão aparente) e Abigail? Bom, Bryan Fuller e sua trupe de roteiristas achou que ia ser legal fazer uma pegadinha dentro da pegadinha, fazendo parecer com que a menina estivesse viva para depois revelar que SIM! Hannibal conseguiu tirar alguma vida naquele massacre! Uma artimanha batida que já estava demonstrando a discrepância da qualidade narrativa da terceira temporada em relação às passadas.

Hannibal sempre deixou muito claro, desde o episódio piloto, que usaria de sua direção, fotografia, estilo e roteiro para contar sua história, mas toda essa questão estilística, um dos maiores trunfos da série, acabou se tornando sua maldição na temporada final. O slow motion começou a ser usado de forma desenfreada, muitas vezes inadequada e irritante (em Contorno, o quinto episódio, a cena de Will caindo de um trem depois de ser empurrado é o cúmulo do absurdo – quem tiver o mínimo senso crítico sabe do que estou falando), dando fortemente a impressão de que a estética estava ali para substituir uma deficiência de roteiro. Deficiência essa que se faz perceptível através da repetição de ideias das outras temporadas (Ainda essa história de This is my design?), do ritmo e da falta de acontecimentos, assim como no tratamento urgente deles – esta é a temporada final, pelo amor de Deus! A caçada a Hannibal não é de tirar o fôlego como achamos que seria – e como o finale da segunda temporada nos vendeu que seria –, é lenta, com acontecimentos desinteressantes e aleatórios (a inserção de Chiyoh na série é sonolenta, assim como tudo que envolve a personagem; o sem-pé-nem-cabeça relacionamento lésbico de Alana com Margot Verger, irmã de Mason).

Mason Verger é uma das poucas coisas realmente excitantes do primeiro arco da temporada final de Hannibal. Joe Anderson substitui Michael Pitt (que interpretou o personagem brilhantemente na temporada passada), e de forma igualmente competente, capta o espírito diabólico de Verger – agora vingativo – com a mesma sagacidade do ator anterior. Responsável pela captura de “Hannibal The Cannibal”, Mason cria um circo dos horrores dentro de sua mansão, com direito a um bebê crescendo dentro de um porco (!!!). Mesmo os exageros – o feto dentro do porco sendo um dos maiores exemplos disso –, que sempre fizeram parte da série e têm a função de chocar, aqui dão uma sensação de falta de novidade, de prato requentado – coisa que Hannibal jamais deixaria existir em sua cozinha. Porém, o que realmente importa é que é nesse episódio (sétimo), Digestivo, onde todo esse circo se revela, que vemos o principal arco da série se encerrar, o da captura do nosso serial killer favorito, em um episódio que, assim como a temporada até então, não empolga da forma que deveria. A captura em si acontece de forma sem graça, anticlímax. É perfeitamente compreensível a manutenção da narrativa da série, mas volto a sinalizar: caramba, essa é a última temporada! Onde estão os momentos icônicos, as cenas antológicas (que permearam praticamente todo o segundo ano)? Fala a verdade, esperamos até hoje, depois de tantos episódios épicos, de tirar o fôlego, para ver Hannibal ser capturado em um episódio sem graça como Digestivo?

Segunda parte: Dragão Vermelho

No segundo arco da derradeira temporada, somos apresentados a um novo serial killer, que é tão ou mais impiedoso quanto Hannibal, o maior de todos (ou pelo menos deveria ser). Francis Dolarhyde é um psicopata que acredita estar se transformando – fisica e psicologicamente – no Grande Dragão Vermelho das icônicas pinturas de William Blake. É importante ressaltar que eu decidi conhecer o personagem através da série de Bryan Fuller, pois não li os livros de Thomas Harris e não vi o filme de Brett Ratner que introduz o personagem. Logo percebi que fiz a escolha errada. O Dragão Vermelho de Richard Armitage não é bem desenvolvido; não conseguimos entender suas verdadeiras motivações, ambições, traumas e anseios. Dolarhyde é um personagem complexo e extremamente pertinente para o universo de Hannibal, e é facilmente perceptível que ele merecia uma construção melhor. Não é culpa de Richard Armitage, e sim do roteiro e da direção. O Dragão Vermelho da série se limita a malhar, se olhar no espelho e sussurar – inúmeras, inúmeras, inúmeras vezes – que é o tal “Grande Dragão Vermelho”. Toda essa abordagem errônea, sem dinamismo e criatividade para com o personagem o tornou chato, maçante, tedioso. Seu relacionamento com Reba, importantíssimo para entendermos a psique do personagem, é enfadonho de todas as formas possíveis. O espectador não se identifica e muito menos se deixa emocionar pelo romance, que depois acaba se revelando de uma importância enorme para o entendimento e o desenvolvimento do serial killer. Um pecado que não poderia ter sido cometido em hipótese alguma.

Outro problema que atrapalha o desenvolvimento do personagem é não vermos Francis “em ação”, cometendo seus crimes; o mais perto que chegamos disso resulta em cenas nada convincentes de perseguição, com o criminoso empunhando uma arma com silenciador (medonho, não?). O Dolarhyde da série simplesmente não convence como ameaça – muito menos uma ameaça digna da série Hannibal –; convence apenas como um doido mimizento e chato, que ninguém dá ouvidos, que acha que está se transformando em dragão. Fuller e os roteiristas, sem dúvida, não conseguiram captar a essência do personagem e transpassá-la para a tv. Como a trama central desse segundo arco gira em torno dele, os episódios sofrem de uma tremenda sensação de pressa e imperfeição, sem muita coisa interessante – e relevante! – acontecendo.

O episódio final

The Wrath of the Lamb, o episódio que encerra a saga Hannibal na televisão, segue o ritmo do errôneo segundo arco da temporada e é, infelizmente, na maior parte do tempo, tão insosso quanto a comida de hospital psiquiátrico que dão ao doutor Lecter. Perdemos quase dez minutos em uma sequência absurdamente inerte envolvendo Francis e Reba, na qual a direção falha totalmente na construção da atmosfera. Não há tensão alguma. Francis fica por incontáveis minutos (toda a sequência parece não ter fim) dando ordens a Reba e fazendo seu discurso de Dragão Vermelho, que a essa altura do campeonato ninguém aguenta mais ouvir. E logo depois disso, com uma reviravolta forçadíssima e um plano de concepção duvidosa, vemos os roteiristas montarem o encontro Hannibal-Will-Francis.

Entretanto, no momento que a série volta a focar na relação Will x Hannibal é que as coisas voltam para os eixos e nos sentimos assistindo novamente a série que tanto gostamos. Temos uma cena incrível dos dois travando um diálogo enquanto é montada uma realidade alternativa em que Hannibal está no altar da capela europeia, dando ao espectador a ideia de poder, liderança, de mestre ou até mesmo de Deus em relação a Will, que se encontra onde o público assiste à missa. Simples, simbólica e sensacional. São nesses momentos que percebemos a falta que Hannibal fará, principalmente por causa desses dois personagens, cuja relação – uma das mais complexas e mais bem orquestradas que já passaram pela televisão – tivemos o prazer de assistir durante esses anos.

Bryan Fuller, Steve Lightfoot e Nick Antosca deixam para os dez minutos finais a satisfação e o sentimento de closure (encerramento) que tanto esperávamos. Em uma cena belissimamente dirigida, doentia e ao mesmo tempo tão emocionante pelo seu contexto, vemos Hannibal e Will finalmente consumarem seu desejo recíproco, se entregando ao impulso de matarem, juntos, o Dragão Vermelho. Toda aquela alegoria sexual subentendida, existente desde a primeira vez que botaram os olhos um no outro, é convertida em sangue, violência e golpes orquestrados. Naquele momento, os dois são um só.

É no último diálogo entre eles, ensanguentados, que vemos que só há um fim para essa história. Os dois consumam mais uma vez sua relação, agora com palavras – em uma das cenas mais marcantes e bonitas de toda a série – e se entregam ao seu destino. Da forma que tem que ser. Porque a energia magnética (e recíproca) que une os dois jamais se ofuscará. É então que Will toma uma decisão e Hannibal, demonstrando em seu semblante que não se importa, se rende a um último abraço.

*

A temporada final de Hannibal termina demonstrando a reunião dos quesitos que a consagraram e que fazem tanta falta na televisão: ousadia, estética única, roteiro impecável e atuações magistrais. Uma pena que a temporada só realmente tenha surpreendido e mostrado a quê veio literalmente nos minutos finais. Esses surpreendentes últimos momentos, infelizmente, não conseguiram me fazer esquecer da jornada cansativa que tive que passar para chegar até eles. De qualquer forma, Hannibal entra para a história, sem sombra de dúvida, como uma das melhores e mais satisfatórias experiências televisivas de horror de todos os tempos.

Hannibal – 3ª Temporada (EUA, 2015)
Criação:
Bryan Fuller (baseado nos personagens criados por Thomas Harris)
Direção:
Vincenzo Natali, Marc Jobst, Guillermo Navarro, Adam Kane, Neil Marshall, John Dahl, Michael Rymer.
Roteiro: Bryan Fuller, Steve Lightfoot, Jeff Vlaming, Angelina Burnett, Nick Antosca, Tom de Ville, Don Macini, Helen Shang, Angela Lamanna.
Elenco:
Mads Mikkelsen, Hugh Dancy, Laurence Fishburne, Carolline Dhavernas, Gillian Anderson, Joe Anderson, Richard Armitage, Rutina Wesley, Tao Okamoto.
Duração: 45 min por episódio (treze episódios).

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira