Crítica | Hannibal

estrelas 4

Reencontros e continuações são sempre temas de muitas polêmicas. Foi assim com A Casa do Lago, romance com Sandra Bullock e Keanu Reeves que buscava repetir a química dos personagens dos atores em Velocidade Máxima. Deu certo. 10 anos após o desfecho mediano da ótima trilogia Pânico, Wes Craven uniu o elenco principal para um novo filme, Pânico 4, produção ágil e muito inteligente, com a já estabelecida metalinguagem pós-moderna. O filme conseguiu manter-se atual e instigante, mesmo que as bilheterias não tenham sido estrondosas como nos três primeiros (convenhamos que no quarto filme a “terra de ninguém” que é a internet já fazia parte do suporte cinéfilo de downloads, diferente dos filmes anteriores).

A chegada de Hannibal após dez anos do estrondoso sucesso de O Silêncio dos Inocentes instaurou um cisma na seara da indústria cinematográfica: alguns massacraram a obra e outros conseguiram compreender o seu estilo. Em meu caso, tantos anos depois, consegui rever e perceber que meu sentimento de repulsa da época tornou-se fascinação. A experiência, como dizem, conta muito, e acredito que Hannibal tenha sido um filme muito mal interpretado na época do seu lançamento.

Dez anos se passaram desde que a astuta Clarice (Jodie Foster, na época, agora interpretada por Julianne Moore) entrevistou Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) para a resolução dos crimes hediondos de Buffalo Bill. Por ter escapado da prisão, Hannibal fugiu para a Europa e atua como um bibliotecário de uma família nobre de Florença. Esperto, transita, mas nunca deixa vestígios. Sempre limpa as digitais em copos, talheres ou qualquer outro utensílio cotidiano. Eis que surge Mason (Gary Oldman), um homem que não esqueceu o psiquiatra canibal, pois foi vítima deste no passado, numa situação envolvendo alucinógenos e um rosto desfigurado. Obcecado por Lecter, Mason se aproveita de uma situação problema envolvendo uma parada policial fracassada de Clarice para atrai-la, e assim, trazer Hannibal para mais perto, afinal, há um plano de vingança configurado na situação.

Tudo torna-se muito complicado ao passo que um policial descobre Hannibal e resolve vender a informação para Mason. É quando o filme, em sua abordagem sociológica, nos apresenta a corrupção na polícia e na política. Os famigerados olhares machistas ainda são persistentes e Clarice, com maestria, esquiva-se de todos através da sua postura inteligente.

Jonathan Demme, diretor do primeiro filme, decidiu afastar-se do projeto, pois considerava a trama muito violenta. Jodie Foster também. Os críticos e cinéfilos ficaram em pânico, haja vista que a química entre a atriz e Anthony Hopkins era o ponto alto do enredo. Assumo que assisti e senti muita estranheza da primeira vez. Assistido hoje é possível observar o empenho de Julianne Moore e a compreensão referente ao segundo filme, uma história de Hannibal em si, não mais o foco numa investigadora competente e dedicada, cheia de problemas pessoais. Há uma reversão no roteiro, adaptado do romance homônimo de Thomas Harris, vendido para os produtores por U$10 milhões. Se o primeiro filme era de Clarice, o segundo é do Hannibal.

O final do livro de Thomas Harris, lançado em 1999, foi considerado, nas palavras de Ridley Scott, “impossível de filmar”. O lance envolvendo Clarice como uma reencarnação da irmã de Hannibal e os dois como amantes da Argentina seria uma das coisas mais ridículas já filmadas. Sábio, o diretor contratado, que leu o roteiro e disse sim enquanto terminava as filmagens de Gladiador, exterminou esse trecho da história. Bom para o filme, e claro, para nós espectadores.

Um dos pontos mais fortes deste filme é a fascinante figura de Hannibal, um sedutor personagem, com falas e atitudes brilhantes. É a sua presença, inclusive, que nos permite passar por cima de certos problemas do roteiro. Ao repetir o seu tom silabado com as palavras, um charme através do figurino bem elaborado e o domínio em relação ao personagem, Hopkins torna-se, definitivamente, o psicopata mais fascinante (se é que podemos usar essa nomenclatura) da história do cinema. Pelo menos da minha história do cinema, dos filmes que vi, afinal, cada um faz a sua história.

O grande problema de Hannibal é o roteiro de Steven Zaillian e David Mamet (o último, inclusive, enfrentou problemas e não foi creditado). O suspense que envolvia o primeiro filme foi substituído pela violência gráfica e explicita apresentação de certos fatos. Quando Hannibal ensaia a vingança envolvendo o personagem interpretado por Ray Liotta, um policial cafajeste, a câmera segue o psiquiatra passo a passo na elaboração do seu plano. Não há surpresa, não há um clima de suspense, pois já não há dúvidas no que será possível acontecer, mas a certeza que o personagem vai virar parte do jantar de Hannibal.

Outro problema que nos faz acreditar em certos fatos forçados do filme é a batida policial de Clarice. Ela se deu mal, mas cadê as testemunhas para comprovar que a personagem agiu de maneira certa, sendo esnobada pela equipe que estava no local? 2001 já demarcava uma era virtual bem presente em todo o mundo. Como Hannibal Lecter, um dos dez criminosos mais procurados do mundo, circula pela Europa tranquilamente, atua num local de pessoas intelectuais, provavelmente leitoras e pesquisadoras, adornadas de conhecimento? Talvez haja um clima “fantástico” e “surreal” do filme, mas prefiro aceitar que foi uma falha do roteiro mesmo, fugindo da verossimilhança interna que encontramos muitas vezes no primeiro filme. Lembro, portanto, que comparar as duas obras talvez não seja uma atividade interessante, haja vista que não estamos diante de um remake, mas no segundo episódio de uma trilogia.

A produção de Hannibal foi tensa. Além da desistência de quase toda a equipe principal do primeiro filme, Anthony Hopkins, num provável surto de estresse, publicou que estava afastando-se da indústria cinematográfica. Houve uma confusão geral na época, pois as pessoas não imaginavam Hannibal sem Hopkins. Mas o ator, que filmava Titus, adaptação da peça de Shakespeare revisitou a sua declaração e decidiu continuar. Sorte a nossa, não?

Ademais, Clarice continua como uma personagem solitária. Julianne Moore, um camaleão versátil, deu conta do recado, afinal, como já exposto, o foco do enredo era Hannibal, não Clarice. No que tange aos aspectos técnicos, há um clima charmoso, resultado da direção de arte e fotografia que aproveitou bem o clima de Florença, espaço cênico de boa parte da narrativa. O som e a trilha sonora de Hans Zimmer são primorosos, muito bem adequados ao filme.

A versão do clássico Danúbio Azul ao acompanhar uma cena do desfigurado Mason é irônica e bem alocada. A montagem é eficiente, bem regulada e consegue dar um clima dinâmico ao filme. Em suma, Hannibal não sofre de problemas técnicos, mas apenas de algumas falhas de roteiro.

Algo para reflexão. Uma questão que incomoda, mais uma vez, é a postura de alguns colegas de campo. Ao escrever sobre o filme, gosto de saber a opinião e compreender a cotação de outros críticos, para fazer uma medição da relação do filme com o campo da crítica de uma forma geral. Que a visão sobre um filme e a opinião posterior é subjetiva, sabemos. Cabe observar, portanto, que imperativos do tipo “assista”, “não assista” e “fuja deste filme” não só enfraquecem o gênero discursivo crítica, mas o torna, como já tentamos fugir, um texto apenas como juízo de valor. É preciso colocar o filme num mosaico de reflexões entre nós críticos e vocês: leitores, espectadores e internautas. Outra questão antipática é insistir em chamar certos atores de “estrelas”. Jodie e Hopkins vão além desse sistema de celebridades. Fica a reflexão para o nosso campo crítico.

Ao longo dos 131 minutos de duração, somos presenteados pela cenografia exuberante, por diálogos sagazes e uma história envolvente. Hannibal nos mostra como a sociedade, apesar de demonizar na vida real estes criminosos, conseguem alça-los ao status de ícones e mitos da cultura pop. Hannibal encabeça diversas listas dos psicopatas prediletos do cinema. É o que veremos em nosso próximo texto, uma análise sobre o fechamento da trilogia, Dragão Vermelho. Até lá, uma sugestão: reveja Hannibal. Se não gostou da primeira vez, que tal dar uma nova chance ao filme?

Hannibal (Hannibal, EUA – 2001)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Steve Zaillian (baseado no romance homônimo de Thomas Harris)
Elenco: Anthony Hopkins, Julianne Moore, Giancarlo Gianinni, Gary Oldman, Ray Liotta
Duração: 131 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.