Crítica | Happy!

Você já teve – ou tem – um amigo imaginário? Garanto que ele não é tão interessante quanto Happy, o mini-unicórnio alado, azul e cartunesco que Nick Sax, ex-policial que se tornou assassino de aluguel, passa a ver depois que tem um ataque cardíaco. O bichinho, que provavelmente deve ser um dos vários que o próprio Grant Morrison vê costumeiramente em sua mente lisérgica, é um primor de delírio visual e de artifício narrativo que, sozinho, já justifica a leitura de Happy! que, na versão encadernada brasileira, curiosamente, não foi traduzido para Feliz! como na série do Syfy.

Mas há mais nesta breve minissérie de quatro edições que conta uma história redonda e fechadinha, ainda que o restante seja uma reunião bem trabalhada de clichês de histórias do gênero. Nick Sax, apesar de moralmente corrupto e constantemente bêbado, permanece, mesmo depois de deixar a força policial, a única pessoa que não se deixa corromper financeiramente pela máfia que controla sua cidade e, daquele jeito relutante que já vimos dezenas de vezes, acaba comprando a cruzada de Happy para salvar Hailey, a garotinha que o “imaginou” e que se encontra em uma terrível situação periclitante junto com outras crianças sequestradas por um homem nojento fantasiado de Papai Noel. O charme, aqui, é a forma desbocada e ultra-violenta com que Morrison desenvolve seu personagem, não economizando no desfile de bizarrices e na podridão da alma humana, algo que está não só no âmago do protagonista, como em tudo o que o cerca, inclusive e especialmente na cidade de Nova York, aqui vista no estilo dos filmes setentistas na linha de Operação França ou Desejo de Matar.

Unicórnio alado azul fofinho + ultra violência = É assim que a mente de Grant Morrison trabalha, minha gente…

Além disso, o humor negro permeia o texto de Morrison do começo ao fim, com o deboche marcando cada fala de Sax que encara a vida de maneira sombria e completamente pessimista, mesmo que, lá no fundo, seja possível detectar seu bom coração e um semblante de moralidade que, claro, vai sendo extraído quase que a fórceps pelo unicórnio azul na medida em que a história evolui. Aliás, é interessante notar como, apesar de ser uma obra muito curta, quase três quartos do tempo é dedicado à fuga de Sax do hospital da máfia para onde é levado que funciona como pano de fundo para que o amigo imaginário de Hailey convença-o a parar de pensar apenas em seu umbigo e dar atenção ao potencial terrível destino da menina. É ação sem parar, mas com quase nenhum foco no salvamento final e sim nessa compreensivelmente demorado caminho à redenção do protagonista catalisada por uma importante – mas óbvia – informação que é finalmente revelada por Happy´e que, de certa forma, ironicamente, devolve a narrativa ao umbigo de Sax, por assim dizer.

A arte de Darick Robertson poderia ser classificada, sem muitos rodeios, como a perfeita manifestação da podridão que Morrison procura passar a cada interação em Happy!. Seu traço é forte e preciso e constrói personagens que praticamente exalam decadência, vilania, sujeira e falência de espírito, incluindo – e especialmente – o próprio Nick Sax, mesmo que o enfoque para ele, em linhas gerais, seja de um anti-heroísmo no estilo do Justiceiro da Marvel Comics, algo perfeitamente esperável e absolutamente aceitável. Ninguém escapa da acidez artística do desenhista que não economiza em caracterizações que, assim como o texto, também descambam para o clichê, mas que funcionam muito bem dentro da proposta. Além disso, o choque com a forma como o mini-unicórnio azul é representado, ou seja, da maneira mais “fofa” e simpática do mundo, cria aquela relativização e estranhamento necessários que, sozinhos, já são capazes de levantar sobrancelhas e trazer aquele sorriso ao rosto de quem lê a minissérie.

Happy! triunfa no uso de seu “gatilho” narrativo e na simplicidade de sua execução. Não é nem de longe uma obra-prima da Nona Arte, mas funciona surpreendentemente bem como uma leitura rápida – mas não leve, que fique claro – que sacia o leitor que estiver procurando violência extrema, mas caricata, diálogos sombrios e tragicômicos, mas inteligentes, e, claro, unicórnios azuis dignos de cartum da Hanna-Barbera.

Happy! (Idem, EUA – 2012/3)
Contendo: Happy! #1 a 4
Roteiro: Grant Morrison
Arte: Darick Robertson
Cores: Richard Clark
Letras: Simon Bowland
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: setembro de 2012 a fevereiro de 2013
Editora no Brasil: Devir
Data de publicação no Brasil: novembro de 2014 (encadernado)
Páginas: 136

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.