Crítica | Harakiri (1962)

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A tradição do cinema de samurai tem origens antigas na história da cultura japonesa. As raízes vão das narrativas orais e escritos literários e estendem-se às encenações teatrais do Kabuki, do Nô e do Bunraku. Os heróis samurais, destros com suas espadas, cheios de honra e códigos de ética, figuraram como ótimos exemplos para a transmissão pedagógica da boa conduta para todo o tecido social. Quando consolidou-se a sétima arte, a força desta mitologia popular pôde transmitir-se em escala industrial; as narrativas mais célebres, como a dos “47 ronins” e a do lendário Miyamoto Musashi logo tiveram bem-sucedidas realizações fílmicas.

A transposição do mito, no entanto, nem sempre se deu sem subversões. A partir do final dos anos 50 e início dos anos 60, sobretudo, os padrões samurais passaram a ser questionados por enredos revisionistas. O chamado gênero chambara — gênero teatral e cinematográfico que se refere à batalha de espadas — acompanhou o transe político da época, inscrevendo em seus dramas históricos marcas da contemporaneidade das produções. Harakiri (1962), do grande diretor Masaki Kobayashi, vai justamente nessa linha. Este que para alguns é o melhor filme de samurais de todos os tempos (ou que, no mínimo, concorre pau a pau, espada a espada, com Os Sete Samurais de Kurosawa) faz, na verdade, uma dura crítica a toda a tradição que representa. Nesta obra, o Bushidô, sistema de normas marciais e éticas que guiava a elite do Japão feudal, é desmascarado como pura hipocrisia que edulcora a imagem dos donos do poder.

A trama acompanha Tatsuya Nakadai na pele do ronin empobrecido Hanshiro Tsugumo. A Era Tokugawa, na qual se passa o filme, foi marcada por uma centralização nacionalista do poder, que sufocava todo e qualquer clã que representasse um risco à hegemonia política. Tendo seu grupo destruído, Tsugumo viu-se na pobreza, passando várias dificuldades para se estabelecer com sua família. Por sua vez, Motome Chijiwa (Akira Ishihama), casado com a filha de nosso protagonista, dirige-se ao palácio de um clã enriquecido em busca de dinheiro; seu plano é fingir o intento de praticar o “karakiri”, suicídio ritual e honroso do samurai, e, contando com a compaixão dos líderes marciais, receber recursos, roupa e alimentação. Chijiwa, desesperado para salvar a família, lança-se a esta tentativa que, no fim das contas, resultou fracassada: viu-se obrigado à prática do suicídio, sem receber uma gota de dó ou piedade.

Poucos dias depois, Tsugumo aparece no mesmo lugar, declarando, ele também, a vontade de executar o “harakiri”. As verdadeiras intenções vão se desdobrando pouco a pouco, e nisso reside uma das características mais estruturais do roteiro do filme. Os eventos são revelados sem atropelo, até com alto grau de protelação, tudo para que o suspense se estabeleça e os planos do protagonista irrompam no momento certo. Para este fato contribui a arquitetura complexa da narrativa, cheia de flaskbacks acoplados que suspendem o livre desenrolar do entrecho. Tsugumo repasse momentos anteriores de seu percurso, com a voz empostada (que lembra a elocução do teatro clássico japonês) e o tom irônico.

O que torna Harakiri um manifesto contra o autoritarismo da tradição samurai é o grande debate historiográfico que se trava no drama. O protagonista, antes de tomar a decisão final de sua morte, desnuda as hipocrisias do clã Iyi, mostrando que o código de honra é uma grande farsa, um adultério dos fatos, uma fraude. A convivência com a família, por outro lado, marca os momentos mais afetivos e melodramáticos da obra, momentos em que o verdadeiro amor se faz notar. Os espectadores acompanham a queda da máscara dos samurais, mas logo depois percebem que os registros históricos, nas mãos dos donos do poder, são manipulados de forma a construírem uma falsa grandeza. Kobayashi mostra que as versões históricas são, no mais das vezes, oficialescas, e que as narrativas que nos legam a tradição serviram para consolidar falsos heróis. Como no clássico Rashomon (1950), também no filme de Kobayashi a veracidade dos discursos é maculada pelos interesses escusos daqueles que os proferem.

O próprio registro do chambara vem aqui, seguindo a linhagem de Yojimbo (1961) e Sanjuro (1962), mais “sujo”. Nas cenas de batalha, nada da encenação dura e nobilitante que marcava, por exemplo, os filmes de Hiroshi Inagaki (Trilogia Samurai). Não. As lutas são desengonçadas, desordenadas; os personagens, sujos e suados. A figura do samurai não apresenta mais a retidão que, segundo a tradição, lhe era própria. Por outro lado, e isso é um dado paradoxal, a mise-en-scène do filme não poderia ser mais organizada. A construção dos quadros é geometrizada simetricamente; os travellings horizontais seguem linhas de força sistemáticas; o próprio enquadramento dos rostos, e principalmente do rosto de Tsugumo, dá-se quase sempre pela mesma perspectiva; o cálculo se encontra mesmo sob a anarquia marcial que destaquei. Uma obra controlada, quase sob o jugo de um “bushidô linguístico”, destrói impiedosamente as leis históricas de conduta, invalidando-as.

Há um remake deste filme, feito em 2011 e dirigido por Takashi Miike. Sobre esta versão, nada tenho a relatar, a não ser o vergonhoso empobrecimento estético que ela representa. Pura regressão linguística. Fiquemos, isso sim, com a obra-prima de Kobayashi, um dos grandes filmes não só do gênero, como de toda a história do cinema japonês. O prêmio do juri no festival de Cannes bem lhe coube, e caberiam ainda infinitos outros. A ótima atuação de Nakadai (junto com Toshiro Mifune, o grande ator de filmes de samurai), o rigor da encenação, o preto e branco magnífico, a fotografia que nos ápices dramáticos abandona o naturalismo, absolutamente tudo chega às alturas da perfeição.

Em tempo e antes do fim: certa cena de batalha, arquitetada em moldes mais clássicos, é uma das coisas mais belas já feitas no cinema. Kobayashi pinta um verdadeiro quadro. Quem já viu há de se lembrar. A quem não viu, fica o conselho e a mais entusiasmada exortação.

Harakiri (Seppuku)- Japão, 1962
Direção: Masaki Kobayashi
Roteiro: Shinobu Hashimoto, Yasuhiko Takiguchi (obra literária)
Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Ishihama, Shima Iwashita, Tetsurô Tanba, Masao Mishima, Ichirô Nakatani, Kei Satô, Yoshio Inaba
Duração: 133 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.