Crítica | “Hard Candy” – Madonna

“Hard” e “Candy” ao mesmo tempo. Essa é a Madonna de 2008. Uma artista feminina ainda insuperável em seus desempenhos nos palcos da cultura pop, mas com um álbum bem menor que o anterior, Confessions on a Dance Floor, um dos seus melhores momentos nos anos 2000. Com faixas que gravitavam em torno dos elementos que todo mundo estava interessado na época de sua concepção e lançamento, Hard Candy traz a sonoridade das produções de Britney Spears e Nelly Furtado, trabalhos comercialmente bem sucedidos, mas fruto do início de uma saturação pop, época em que todo mundo estava falando e fazendo a mesma coisa.

Geralmente vanguardista, os álbuns de Madonna são esperados com muita ansiedade pelos fãs e pela crítica especializada, pois como já apontado anteriormente, a artista é um fenômeno no bojo da cultura pop, representação de resistência e força nos meandros de uma indústria que descarta as suas criações com a mesma rapidez que as lança no mercado. As mensagens em Hard Candy não trazem um dos elementos fortes dos trabalhos de Madonna: a crítica política, a discussão religiosa e o empoderamento feminino que os ouvintes tanto gostam.

Tais tópicos encontram ressonâncias em alguns pequenos trechos, mas nada muito marcante. O que dá para perceber é que Madonna queria muito trabalhar com Justin Timberlake e Timbaland, além de experimentar as tendências adotadas por suas crias genéricas. O resultado foi um álbum genérico, longe de ser ruim, mas ainda mais distante da efusão do inesquecível trabalho anterior. “Confessions” nos fez criar muitas expectativas em torno do que viria depois, algo que se tornou um problema para Hard Candy. Os problemas, por sua vez, habitam apenas a seara do gosto, afinal, comercialmente falando, o álbum conseguiu ótimo desempenho e deu origem a uma turnê muito bem concebida, um dos pontos fortes na carreira de Madonna, uma mulher magnetizante.

Em seus 56 minutos e 13 segundos (a edição padrão), o décimo primeiro álbum de estúdio de Madonna traz a assinatura de Demo Castellan, Hannon Lane (também nos teclados), The Neptunes, Timbaland e Danja, com a cantora na produção executiva. Kanye West adentrou apenas como um dos vocais ocasionais. Numa mescla de doçura e resistência, Madonna encarna uma boxeadora chamada M-Dolla para a concepção geral do álbum que trouxe 4 Minutes como o primeiro single. Composta por Madonna, Danja, Timothy Mosley, Justin Timberlake e Timbaland, a faixa inspirou a artista na produção do documentário I Am Because We Are,  ao versar sobre a necessidade de salvar o mundo da destruição, tendo em vista um reflexo da “conscientização social” que Madonna geralmente utiliza em seus espetáculos. Com vocais de Timbaland e Timberlake, 4 Minutes traz elementos da música bhangra, um dos estilos que definiu o sucesso de In The Zone, de Britney Spears, além de metais, instrumentalização campana e percussão para acompanhar o ritmo.

Give It 2 Me é uma canção enérgica, otimista e divertida, composta por Madonna e Pharrel Williams, com vocais ocasionais, presença reverberante da bateria, linhas de baixo fortes, no melhor estilo dubstep, elementos conduzidos pelos samplers, sintetizadores e teclados, com arranjo que lembram os versos de oito compassos do grime, subgênero oriundo da música urbana inglesa.  Ao falar sobre sexo, dança e sua trajetória de três décadas, Madonna inclui um vasto repertório de estilos para o acompanhamento sonoro da faixa adornada por musicalidade africana, chocalhos e traços da batida bounce, isto é, um subgênero do hip hop, específico de New Orleans, conhecido por suas batidas rápidas e quebradas, além do forte uso de loops.

Miles Away é a baladinha do conjunto. Assinada por Madonna, Justin Timberlake, Nate Hills e Timothy Mosley, a faixa com tons melancólicos e aspectos autobiográficos oriundos do casamento da cantora com Guy Ritchie fala da dificuldade de se conectar com alguém num relacionamento à distância. Ainda dentro da seara dos relacionamentos, She’s Not Me, outra composição de Madonna, desta vez, em outra parceria com Pharrel Williams, versa sobre uma mulher que desconfia da traição de seu namorado. Bem humorada, a canção é um bom momento do trabalho desenvolvido no álbum, com Madonna a despejar as suas constantes ironias ao passo que a música avança. Candy Shop, também escrita pela dupla, com produção musical assinada por The Neptunes, metaforiza uma relação sexual, com arranjos empolgantes e ritmo bem conduzido. É outro momento divertido e enérgico que infelizmente, não ganha continuidade na totalidade da produção.

Sem correr o risco de ser injusto na análise do álbum de uma artista de presença tão marcante, reforço o caráter insípido de Hard Candy. Complementado pelas faixas Heartbeat, Incredible, Beat Goes On, Dance 2night, Spanish Lesson, Voices, Devil Wouldn’t Recognize You, Hard Candy é apenas mais uma experimentação de Madonna, repleto de altos e baixos, complicado de ser conferido em sua totalidade, pois o ouvinte pode constantemente ser tentado a passar “milhas distantes” de algumas faixas, tendo em vista a média de “quatro minutos” a escutar faixas cheias de tédio ou mesmice.

Aumenta: Give It To Me.
Diminui: Beat Goes On.

Hard Candy
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Elenco: 19 de abril de 2008.
Gravadora: Warner Bros.
Estilo: Pop, R&B e dance.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.