Crítica | Hardcore Henry: Missão Extrema

estrelas 2,5

Não é a primeira vez que a ideia de um filme inteiramente filmado em primeira pessoa é reproduzida nos cinemas. Doom: A Porta do Inferno, que adapta o clássico first-person shooter é um exemplo disso. Hardcore Henry: Missão Extrema, contudo, se destaca não unicamente por sua perspectiva e sim pela união dela com um ritmo frenético, que conta com cenas ousadas de ação, que nos levam por uma jornada incessante e descontrolada. Seria, porém, o filme algo a mais que apenas uma receita para passar mal? Evidente que a intenção está longe de provocar qualquer enjoo e sim reproduzir uma narrativa típica de games, mas alguns problemas essenciais relacionados a nosso cérebro e algumas escolhas do filme acabam prejudicando sua efetividade.

Longa-metragem estreante do diretor Ilya Naishuller, que já tivera sua experiência com vide-games através de Payday 2, Hardcore Henry nos conta a história de um homem que foi revivido através de aprimoramentos cibernéticos. Antes, todavia, que sua ativação fosse completada 100%, o laboratório no qual se encontra é atacado por um grupo de mercenários liderados por Akan (Danila Kozlovsky), que passa a perseguir Henry por todo o filme, visto que esse consegue escapar do violento ataque inicial. A trama, portanto, gira em torno dessa constante fuga, que traz elementos clássicos do first-person shooter para as telonas, enquanto descobrimos mais sobre o vilão e o protagonista, cujas memórias foram quase que totalmente apagadas.

A ideia, sem dúvidas, é inovadora. Naishuller demonstrou considerável coragem ao realizar seu primeiro longa em caráter experimental e esse fator, evidentemente, era o foco do realizador, visto que ele próprio elabora, junto de Will Stewart, que já contava com extensa experiência em filmes de ação, um roteiro bastante simples, que entrega justamente o que promete. De fato, o texto em si não é o problema da obra, ele nos traz uma boa dose de diversão descerebrada, ainda que exista uma notável repetitividade na maior parte da projeção, salvo alguns momentos “espertinhos” nos quais a dupla de roteiristas apresenta alguns interessantes desdobramentos da ficção científica.

A verdadeira pedra no sapato de Hardcore Henry é justamente o cérebro humano. Ao introduzir uma perspectiva em primeira pessoa na qual a câmera treme constantemente, o filme já foge da realidade, visto que o protagonista jamais veria a realidade dessa forma. Nosso cérebro adapta tudo o que vemos de forma que nossa visão não fique tremida – basta pegar o simples ato de andar, não fosse o funcionamento de nossa mente, a cada passada nossa visão subiria e desceria, quando, na prática, enxergamos como uma bem manuseada steady-cam. Esse é o fator que causa um grande desconforto no olhar do espectador do filme, mesmo que esse acabe não sentindo náuseas ao assistir. Isso acaba causando uma constante quebra de imersão, visto que percebemos a câmera a todo e qualquer instante da obra, fugindo de uma das diretrizes primárias do cinema clássico, que é justamente ocultar a existência de uma.

Não bastasse isso, a montagem faz umas escolhas bastante ilógicas, visto que introduz cortes pontuais, nos trazendo elipses dentro da narrativa. Se a intenção é nos colocar no lugar do protagonista, como se nós fôssemos ele, como é possível simplesmente cortar alguns pedaços de sua vivência, sem introduzir uma justificativa para isso dentro da narrativa? Em alguns momentos isso, de fato, acontece: uma falha em sua visão nos faz pular para alguns instantes depois, mas isso não ocorre sempre, gerando cortes que mais uma vez quebram nossa imersão na projeção. Evidentemente que tal fator é também uma falha do roteiro, visto que esse poderia evitar esses acontecimentos sem necessitar de um longa-metragem filmado inteiramente em plano-sequência.

Um ponto que, felizmente, se traduz como positivo são os efeitos, em ponto algum sentimos a presença de um CGI, o que é impressionante, considerando as manobras ousadas que Henry realiza. A impressão é que, de fato tudo é realizado através de efeitos práticos, quando, na verdade, fora utilizado o software open-source Blender para trazer os efeitos-especiais do longa-metragem. A perspectiva em primeira pessoa também ajuda nessa percepção que temos, visto que não estamos acostumados a ver isso fora de video-games, o que torna essa uma experiência divertida em determinados pontos, especialmente para quem aprecia uma certa dosagem de gore, já que a obra conta com uma violência explícita constante.

No fim, Hardcore Henry é mais uma experiência descerebrada, que tenta nos colocar no lugar do protagonista, mas que consegue apenas emular um game em primeira pessoa sem a parte da interatividade. Como uma obra experimental e sendo seu primeiro trabalho de direção para os cinemas, Ilya Naishuller é até bem-sucedido, o diretor mostra coragem ao tentar inovar. Infelizmente algumas das escolhas artísticas e as falhas do roteiro simplesmente trazem constantes quebras de imersão, o que nos distancia do objetivo primário do longa. Dito isso, ainda temos aqui uma experiência divertida, que vale ser conferida, ainda que sob o risco do espectador adquirir fortes náuseas durante a projeção.

Hardcore Henry: Missão Extrema (Hardcore Henry) – Rússia/ EUA, 2015
Direção: Ilya Naishuller
Roteiro: Ilya Naishuller, Will Stewart
Elenco: Sharlto Copley, Tim Roth, Haley Bennett, Danila Kozlovsky, Andrei Dementiev, Svetlana Ustinova
Duração: 96 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.