Crítica | Hardware Wars

A paródia sempre viveu de mãos dadas com obras de sucesso e, com Star Wars, não poderia ser diferente. No mesmo ano em que o primeiro filme da saga ganhava seu estrondoso lançamento e o próprio George Lucas, além dos executivos da 20th Century Fox tentavam entender exatamente a dimensão do que havia acontecido, Ernie Fosselius (também de São Francisco) criava Hardware Wars, hoje um absoluto clássico em seu próprio direito, que seria colocado à disposição do público 18 meses depois da estreia de Uma Nova Esperança, que nem esse sub-título tinha à época.

Mas o que é Hardware Wars, alguns podem perguntar. Simples: o que hoje faz-se aos borbotões usando a tecnologia disponível na ponta dos dedos de muita gente, com um sistema de distribuição viralizante e instantânea, Fosselius fez com oito mil dólares, alguns amigos e muita imaginação: um fanfilm paródico de Star Wars usando utensílios domésticos de 13 minutos que ainda é um dos melhores spoofs da franquia (guardadas as devidas proporções, o curta é pari passu com Spaceballs), tendo sobrevivido muito bem ao teste do tempo, ganhando até mesmo distribuição em home video. Fosselius, certamente não é o primeiro, mas é um dos nomes mais importantes a abrir caminho para os mais variados tipos de fãs, das mais diferentes franquias, usarem sua imaginação sem limites para trabalhar em cima do material criado por seus ídolos.

Hardware Wars é tão importante na história do fanfilm que ele próprio já foi parodiado algumas vezes, uma delas com os tradicionais blocos de Lego. Além disso, o curta de apenas 13 minutos ganhou 15 primeiros lugares nos mais diversos festivais de filmes e é considerado como o mais lucrativo da história, obtendo, segundo fontes aqui e ali, algo como um milhão de dólares em retorno e popularidade instantânea para Fosselius que, depois, ganharia a honra de fazer a voz do treinador de Rancor, em O Retorno de Jedi. E, como se isso não bastasse, em 2003 o filme recebeu o prêmio especial de pioneirismo diretamente da Lucasfilm, com George Lucas, antes disso, tendo dito que Hardware Wars era sua paródia favorita.

E, realmente, Lucas tem razão. Tosco, ridículo, mas absolutamente hilário, o curta efetivamente merece todo esse destaque por conseguir encapsular absolutamente todo o espírito do filme original em sua curtíssima duração com um Luke Skywal… digo, Fluke Starbucker (Scott Mathews, que viria a ser um extremamente bem sucedido produtor musical) que só fala em gírias de surfista drogadão, um Ham Salad (Bob Knickerbocker) canastrão ao extremo e que tem como sidekick uma versão do Cookie Monster da Vila Sésamo, um hilariamente batizado Augie ‘Ben’ Doggie (Jeff Hale) como um ancião que parece completamente perdido, uma Princesa Anne-Droid (Cinthia Freeling) que, no lugar do cabelo clássico de Leia, tem rolinhos de canela (sim!) e, lógico, Darph Nader, o vilão com máscara de soldador que é ininteligível. Ah, e claro: 4-Q-2 (Frank Robertson), um C-3P0 feito à imagem do Homem de Lata de O Mágico de Oz e seu parceiro Arty-Deco, um aspirador de pó das antigas.

Aliás, falando em aspirador de pó, como o título deixa claro e eu já mencionei rapidamente, Fosselius faz um criativo uso de utensílios domésticos. Um ferro de passar roupa é a Millenium Falcon, uma torradeira é um cruzador espacial (com as torradas sendo os Tie-Fighters), uma máquina de waffle é a Estrela da Morte (ué, é redonda, oras!), um gravador de fita cassete é a Tantive IV e a fita em si é o pod de fuga dos androides e assim por diante. Se, visto com os olhos de hoje, Hardware Wars talvez não fosse tão original assim, olhando com os olhos setentistas, o filmete é praticamente o precursor do que hoje milhares de pessoas se divertem fazendo pelo mundo: bobagens inteligentes.

Estruturado como um longo trailer, com direito à narração de Paul Frees (que narrara os trailers de Uma Nova Esperança), o curta tem uma progressão que segue à risca o roteiro da obra que parodia, com um surpreendente senso de ritmo, talvez ditado pelas limitações do espaço físico e da tosquidão completa do que Fosselius usa, que tornada cada pequena sequência um teaser para a próxima, até que praticamente toda a obra original ganhe uma versão “linha branca”. Os atores cumprem maravilhosamente bem seus “papeis”, emprestando personificações de seus respectivos personagens que extraem perfeitamente o elemento caricato principal de cada um.

Em 1997, seguindo as versões especiais (odiosas!) que George Lucas fez de sua Trilogia Original, Fosselius não se fez de rogado e criou sua própria versão especial, algo como 30 segundos mais longa, com alguns takes inéditos das filmagens originais utilizados no lugar dos clássicos e com a levíssima alteração de alguns efeitos especiais, retirando-os do nível máximo de tosquidão e colocando-os um meio degrau acima nessa escala. Ou seja, Fosselius é um grande brincalhão que, em seu pioneirismo, acabou tornando-se o George Lucas dos fanfilms.

Hardware Wars (Idem, EUA – 1978)
Direção: Ernie Fosselius
Roteiro: Ernie Fosselius
Elenco: Frank Robertson, Artie Deco, Scott Mathews, Jeff Hale, Cinthia Freeling, Bob Knickerbocker, Ernie Fosselius, Paul Frees, Sonny Buddy Jr., Walt Kraemer
Duração: 13′ (versão original), 13’30” (versão especial)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.