Crítica | “Hardwired… To Self-Destruct” – Metallica

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estrelas 4

“Falem bem ou falem mal, mas falem de mim” – é irônico, mas essa famosa expressão parece propícia para resumir a história geral da discografia do Metallica. É seguro dizer que nenhuma banda de metal foi responsável por tanto debate e discussão, experimentando novas sonoridades, perdendo e ganhando fãs, dividindo opiniões que variam da repulsa extrema ao amor incondicional. A conclusão fácil a se fazer é que a banda segue de longe entre as mais relevantes de um gênero que ao mesmo que se expande a partir de uma visão micro (hoje há uma inacreditável quantidade de subgêneros do metal), perde poder em uma visão macro (quase nenhuma banda nova consegue ser um fenômeno como antes). Prova disso é que há anos que um álbum de heavy metal não tem uma repercussão na mídia como Hardwired… To Self-Destruct, primeiro disco da banda desde 2008, fazendo uso de um marketing extremamente efetivo.

O novo trabalho é uma verdadeira viagem pelas diversas passagens da história do Metallica, seguindo tanto a recapitulação do thrash metal feito em Death Magnetic – que buscou os anos dourados da década de 80 do grupo – quanto inserindo elementos de sua fase mais comercial e alternativa nos anos 90. Temos aqui um compilado de riffs surpreendentes, um retorno aos tempos áureos da banda em um balanço geral que consegue agradar seus diferentes fãs. Veja, por exemplo, a fúria de Atlas, Rise!, faixa que parece saída direto de Ride The Lightning, enquanto a pegada mais alternativa e menos punch de Now That We’re Dead foi feita pra agradar os fãs de discos como Black Album ou até Load/Reload.

Todos os membros parecem melhores do que nunca. Kirk cria solos espetaculares ao longo da obra, sempre dinâmicos (dentro do que se pode esperar dele e sua obsessão por efeitos wah wah) enquanto ajuda James Heitfield na criação de um excelente pacote de riffs. O vocalista, por sua vez, prova a unanimidade entre os fãs: se trata do ápice de suas performances vocais, cantando com um ótimo balanço de técnica e forte interpretação. Lars, embora incomode com sua bateria padronizada demais, segue uma execução eficiente, tendo como ponto alto sua brilhante participação na faixa homônima. Já Robert Trujillo fecha o trabalho com seu baixo construindo com grande competência a liga entre a bateria punch e os riffs afiados.

A grande cartada do álbum parece ser conseguir soar “memorável” no sentido mais literal da palavra. Basta apenas uma audição para os arranjos, sempre distintos um do outro, ficarem gravados na sua cabeça. Perceba como a incrível Moth Into Flames e seu refrão foram feitos para serem cantados com facilidade nos shows. Dedique sua inteira atenção para não passar despecerbido por nenhum detalhe da ótima Halo Of Fire (que poderia até se chamar Unforgiven IV devido a suas brilhantes linhas melódicas), a faixa que melhor faz uso da longa duração (8 minutos) através de sua progressão improvável que leva o ouvinte por uma espiral avassaladora de instrumental técnico e muito criativo.

Há um ar épico por vários cantos de Hardwired… To Self-Destruct. Perceba como Spit Out The Bone pode deixar arrepiado qualquer fã da fase mais pesada da banda. Se trata de uma visível sintonia perfeita entre os membros do grupo ao longo de seus riffs massacrantes, groove excelente e atmosfera apocalíptica. Parece um piscar de olhos para o thrash extremo de Kill’ Em All, possivelmente já podendo ser considerada uma das mais impressionantes canções do grupo. Por outro lado, há canções menos inspiradas, como Dream No More, embora prove que até a pior canção do álbum – com alguns riffs clichês que lembram a fase recente pouco criativa do Megadeth – tem ainda o que se aproveitar. Ainda sobra espaço para homenagens, como o tributo a Lemmy no divertido videoclipe e bela letra de Murder One, uma homenagem sincera ao ícone responsável por moldar e influenciar tanto a banda.

Hardwired… To Self-Destruct peca talvez apenas no excesso, por alguns refrões repetidos em exaustão e trechos inofensivos de longas durações que poderiam ser removidos na edição. Entretanto, no fim, reforça a razão do grupo ainda ser tão relevante no cenário de um gênero que carece de movimento mais intenso no mainstream. O Metallica apresentado aqui continua gigante e deixa um seleto número de faixas que não devem em nada a muitos de seus clássicos. A “auto-destruição” dita no título até soa como piada. Se depender do material que a banda mostra aqui, esta seguirá ativa e imponente ainda por bastante tempo.

Aumenta!: Spit Out The Bone
Diminui!: Dream No More
Minha canção preferida: Halo Of Fire

Hardwired… To Self-Destruct
Artista: Metallica
País: Estados Unidos
Lançamento: 18 de novembro de 2016
Gravadora: Blackened
Estilo: Heavy Metal, Thrash Metal

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.