Crítica | Harry Potter e a Câmara Secreta, de J.K. Rowling

estrelas 4

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Lançado praticamente um ano após o primeiro livro da série, Harry Potter e a Câmara Secreta dá continuidade à saga do bruxo mais famoso da literatura. Trata-se de um livro que é, ao mesmo tempo, muito similar e diferente de seu antecessor e que trouxe uma grande dificuldade à autora, J.K. Rowling para ser finalizado, visto que ela temia que o romance não cumprisse com as altas expectativas geradas com Harry Potter e a Pedra Filosofal. Essa segunda entrada, contudo, não somente agradou aos fãs, como aos críticos de forma geral ao redor do mundo, estabilizando a franquia logo cedo.

Com o universo de magia e bruxaria apresentado no primeiro livro, a primeira tarefa de J.K. seria trazer uma introdução diferente do que lemos no anterior, afinal, apesar de começarmos a leitura no mundo dos trouxas, sabemos que o protagonista não é um deles. Rowling, felizmente, foge do óbvio e aproveita para se aprofundar no universo criado por ela mesma. Aprendemos como uma família de bruxos vive, se locomove e age quando no ambiente familiar. As peculiaridades vistas em Hogwarts no ano anterior são apenas a superfície desse mundo e Harry novamente é utilizado como nosso representante nesse recém descoberto universo.

Se Harry Potter e a Pedra Filosofal pode ser considerado, inteiramente, como a introdução da franquia, A Câmara Secreta evidentemente já faz parte de seu desenvolvimento. Após a dura tarefa de chegar em Hogwarts, a autora tem um claro cuidado em abordar diferentes questões desse mundo, aprofundando-se não somente nos personagens (tanto professores quanto alunos), como nos conceitos mágicos em si. Um bom exemplo disso é a presença maior do Ministério da Magia no livro, mostrando que os bruxos não simplesmente fazem o que querem – contam com uma série de regras, como a velha norma de um menor de idade não poder utilizar magia fora da escola.

Naturalmente, todas essas questões garantem um realismo maior à obra como um todo e é apenas natural que Rowling apresente-as com certa parcimônia, não apenas porque já havia planejado os sete livros desde o início, como que para representar o próprio aprendizado de seu protagonista, seu amadurecimento ao longo dos anos. Além disso, estamos falando de um livro mirado no público infantil, o que pede uma maior cautela na hora de abordar esses pontos – afinal, acima de tudo, a história precisa ser divertida e não apenas uma enxurrada de conceitos provenientes da cabeça de uma adulta.

O pensamento no público-alvo se torna ainda mais evidente quando os ataques do basilisco tem início. Ainda que as mensagens escritas em sangue nas paredes do colégio sejam um tanto quanto fúnebres, é uma gigantesca conveniência que a criatura capaz de matar apenas com um olhar não gere nenhuma vítima. Toda a questão da petrificação soa muito forçado quando revisitamos o romance já na vida adulta, mas, felizmente, a escritora sabe utilizar esse ponto negativo a seu favor, ao passo que o insere dentro do mistério da Câmara Secreta como uma das muitas pistas que Potter, Granger e Weasley devem descobrir.

Nesse sentido, Harry Potter e a Câmara Secreta apresenta um mistério muito maior que o seu antecessor e em muitos aspectos adota uma narrativa similar a histórias de investigação, já delineando o tom que seria seguido nos livros posteriores. Há uma nítida sensação de urgência, presente desde os trechos iniciais em Hogwarts, o que apenas é ampliado pela capacidade de Harry em escutar a criatura que rasteja pelas paredes – um elemento introduzido no romance anterior que é muito bem resgatado aqui pela autora. Aliás, se J.K. tem um talento é o de apresentar pontos a serem resgatados posteriormente, não somente no mesmo livro como dentro de toda a série.

Já entrando nessa questão, não temos como não abordar o diário de Tom Riddle, que posteriormente descobriríamos se tratar de uma horcrux. Se a escritora já havia pensado nisso na época não chega a ser a questão principal, o interessante é como ela sabe criar uma nítida coesão dentro da franquia. Dentro do livro em questão, porém, o diário nos traz fascinantes trechos que sabiamente abordam o passado do grande antagonista desse universo, além de lidar com a questão do preconceito através de Hagrid e Riddle, algo também abordado através de Draco e Hermione, uma boa jogada de Rowling, mostrando que seus livros podem ser, sim, bastante educativos.

Não há como negar que a estrutura narrativa do livro, todavia, é praticamente igual à do primeiro, noção que apenas é ampliada com o confronto final na Câmara Secreta. Felizmente, a autora minimiza esse fator com o uso de animais mitológicos, que dão um toque renovado ao clímax e um papel mais ativo de seu protagonista, que não apenas perde a consciência e acorda no hospital. Isso sem falar no embate em si, que chega a ser consideravelmente mais sombrio que o do anterior, especialmente se considerarmos que Voldemort já era cruel desde cedo – um vislumbre que a autora nos dá sobre os traumas passados por uma criança e como isso pode afetar um ser humano de forma avassaladora.

Rowling sabe, sim, contar uma história, mas o problema mais claro em sua escrita, que é passado de A Pedra Filosofal para cá é a forma como seus personagens dialogam. Não entrarei em maiores detalhes, pois já abordei essa questão na crítica do primeiro livro, mas chega a ser triste ver como todos os diversos indivíduos desse universo falam de maneira idêntica, exigindo sempre que as falas sejam identificadas.

Felizmente, apesar de seus deslizes, Harry Potter e a Câmara Secreta nos deixa com uma percepção bastante positiva sobre esse mundo de magia e bruxaria. Temos aqui um romance que se aprofunda não somente no universo criado por J.K. Rowling, como nos seus personagens (ainda que haja o problema das falas). Goste ou não, é inegável que a autora sabia o que fazia desde cedo e seu temor inicial acerca das expectativas criadas pelo primeiro livro certamente foram infundadas, visto que ela conseguiu nos trazer uma história tão boa quanto a primeira.

Harry Potter e a Câmara Secreta (Harry Potter and the Chamber of Secrets) — Reino Unido, 2 de julho de 1998
Autores: J.K. Rowling
Editora original: Bloomsbury
Editoria no Brasil: Rocco
252 páginas


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GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.