Crítica | Harry Potter e a Câmara Secreta

estrelas 3,5

Harry Potter e a Câmara Secreta (2002), o segundo filme baseado na obra de J.K. Rowling, possui uma grande vantagem sobre o seu antecessor, A Pedra Filosofal. Tendo estabelecido os personagens, o cenário de Hogwarts, os professores e a potencial ameaça de Lord Voldemort querendo voltar à vida, tanto o roteirista Steve Kloves quanto o diretor Chris Columbus puderam realizar aqui um trabalho mais fluído, sem as bruscas mudanças entre os “episódios” que chateavam bastante no primeiro filme, embora a fidelidade ao livro e o peso de “início de saga” forçassem aquela obra para esse caminho.

É verdade que Chris Columbus mantém o ‘feijão-com-arroz’ da direção burocrática, não arriscando no desenvolvimento da obra, mas é também inegável que ele faz um bom trabalho dentro desse escopo de direção. Veja como o cineasta consegue fluir as ações — com a ajuda de um roteiro igualmente mais livre de amarras, embora ainda com problemas no desenvolvimento de personagens, escanteando um bom número deles — do “resgate” de Harry pelos Weasley, a primeira aparição do elfo-doméstico Dobby, A Toca, a traumática viagem no carro voador até a Hogwarts… tudo está bem interligado, não havendo necessidade de sub-histórias como pequenos curtas dentro do longa.

E é evidente que um caminho mais confortável em termos narrativos ajude não só a criar um bom resultado final para a trama como também dê maior liberdade para os atores entrarem em seus personagens e acompanharem a evolução da situação em pauta: a abertura da Câmara Secreta e os ataques a alguns alunos alunos na escola, que acabam petrificados — embora se saiba que a intenção do vilão era matar. O trio protagonista formado por Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson está mais convincente e definitivamente mais entrosado, fazendo com que cada um tenha ótimos momentos em cena, mas nesse filme, curiosamente, os dois garotos se saem melhor, algo que não veríamos muito nos longas seguintes, já que Emma Watson ganharia rápida maturidade cênica, constantemente roubando as cenas a partir de O Prisioneiro de Azkaban.

Mas o maior ganho de A Câmara Secreta — e de toda a saga, que, para mim, é um dos melhores conjuntos de produção artística do cinema nesse início de século — é a direção de arte. Com uma equipe principal forma por 11 profissionais, sendo Stuart Craig responsável pelo desenho de produção, Stephenie McMillan pela decoração de cenários e mais 9 diretores de arte, a película esbanja criatividade e beleza nesse aspecto técnico. Da casa dos Dursley à Toca e daí para o Beco Diagonal; das áreas externas de Hogwarts ao interior das Salas Comunais, escritório de Dumbledore, cabana de Hagrid, salas de aula e Floresta Negra… absolutamente toda a produção artística do filme é de um primor inacreditável. Detalhes de cor, objetos complementares, localização e utilização desses objetos dentro da trama são quesitos muito bem vindos aqui.

A fotografia de Roger Pratt transmite muito bem a urgência da questão racista nas entrelinhas do filme e ajuda a mudar um pouco a visão mais infantil que marcara não só toda a narrativa de A Pedra Filosofal mas também o seu tratamento estético. Com uma paleta de cores mais escuras do que a do filme anterior e uma maior dramatização na iluminação e formas de filmar os personagens abre-se caminho o para a intensificação da ameaça sobre o mundo bruxo, que, como sabemos, se torna maior a cada filme e é acompanhada por um progressivo escurecimento da fotografia.

Trazendo o excelente Kenneth Branagh como professor Gilderoy Lockhart, ótimos efeitos especiais e visuais, uma trilha sonora novamente marcante de John Williams — que não se limita em rearranjar os temas do filme anterior — e uma equipe técnica exemplar, Harry Potter e a Câmara Secreta é uma aventura e tanto. O filme perde no tratamento dado a alguns personagens e na direção sem muita imaginação, mas é capaz de nos entregar sequências como as do ótimo jogo de quadribol e a luta final de Harry contra Tom Riddle e o Basilisco, provando que, a despeito dos tropeços, a magia vence e pode-se ter um ótimo filme nas mãos.

Harry Potter e a Câmara Secreta (Harry Potter and the Chamber of Secrets) — Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, 2002
Direção: Chris Columbus
Roteiro: Steve Kloves (baseado na obra de J.K. Rowling)
Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Richard Griffiths, Fiona Shaw, Harry Melling, Toby Jones, James Phelps, Oliver Phelps, Julie Walters, Bonnie Wright, Mark Williams, Tom Felton, Jason Isaacs, Kenneth Branagh, Matthew Lewis, Alan Rickman, Richard Harris, Maggie Smith
Duração: 161 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.