Crítica | Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, de Jack Thorne

estrelas 3

Considerações importantes:

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada foi imaginado inicialmente como uma peça de teatro e a história foi desenvolvida por J. K. Rowling, John Tiffany e Jack Thorne. No entanto, a redação do texto da peça em si ficou na responsabilidade apenas de Jack Thorne, certamente sob supervisão intensa de Rowling, considerando o quanto ela é protetora de sua criação máxima. De toda forma, Criança Amaldiçoada é uma história canônica, ou seja, se passa dentro do mesmo Universo de Harry Potter dos sete livros principais escritos por Rowling e, por consequência indireta, dos oito filmes produzidos pela Warner.

No entanto, novamente, trata-se de uma peça de teatro, com estrutura narrativa substancialmente diferente de um romance. Além disso, a edição comentada e a única da história lançada até agora é a Edição Especial do Roteiro de Ensaio. Em outras palavras, o texto é o do roteiro usado para permitir a montagem da peça (na verdade, não duas peças, uma de cada parte do livro, que é dividido em dois) e não necessariamente representa a versão hoje utilizada nas peças em cartaz no West End (a “Broadway Britânica”) em Londres, já que é comum que os textos sofram alterações dinâmicas ao longo do tempo. Claro que, via de regra, não são alterações substanciais que mexam com elementos importantes da história, mas vale o aviso de toda forma. É possível que, daqui a alguns anos, tenhamos uma “edição definitiva”, contendo todas essas possíveis mudanças.

Outro ponto importante é que a crítica a seguir poderá conter spoilers e abordará as duas partes do livro com base nas críticas que fiz anteriormente. Quando do lançamento oficial da obra na Inglaterra e Estados Unidos – 31 de julho de 2016 – publiquei duas críticas completamente sem spoilers na mesma semana, pelo que sugiro a conferência delas caso ainda não tenham lido Criança Amaldiçoada e se importem com spoilers. Os links estão logo abaixo:

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada – Parte Um (Sem Spoilers)

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada – Parte Dois (Sem Spoilers)

A crítica (com potenciais spoilers, mas nada sobre o vilão):

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada é uma peça dividida em duas partes, com dois grandes atos cada uma e tem como foco mostrar o que aconteceu com Harry e seus amigos Rony e Hermione 19 anos depois dos eventos de Harry Potter e as Relíquias da Morte. No entanto, como a presente saga se passa em um período maior que um ano, esta indicação de “19 anos depois” aumenta ao longo dos Atos.

O maior triunfo da primeira parte A Criança Amaldiçoada é a manutenção da essência que conhecemos dos sete livros iniciais da série. Não é como se estivéssemos entrando em um outro gênero literário e, por isso, em um Universo irreconhecível, apenas “levemente inspirado no original”. Não. Logo na Cena 1 do primeiro Ato, somos jogados em um mar de nostalgia que se resolve em diálogos rápidos e apresentação inteligente dos principais personagens da obra. Estão lá o contato do velho com o novo, o espanto, um delicioso medo inocente e algumas ações que quase rememoram, em texto, as cenas de apresentação, encontros e despedidas dirigidas por Chris Columbus em A Pedra Filosofal e A Câmara Secreta.

Considerando que a peça aborda uma grande dificuldade de relacionamento entre Harry — agora um funcionário do Ministério da Magia — e seu filho do meio, Alvo Severo Potter (seu irmão mais velho chama-se Tiago Sirius e a mais nova, Lílian Luna), o leitor fica espantado pela entrada esperançosa e alegre do primeiro Ato. Em pouco tempo, alguns personagens serão colocados em situações onde muito de sua personalidade virá à tona (não necessariamente uma queda de máscaras, mas uma reação natural a uma “crise”) e é a partir desse momento que a narrativa passa da confraternização para a tensão, com Alvo construindo sua amizade com Escórpio Malfoy, único filho de Draco e com os dois sendo sorteados para a Casa Sonserina.

Aqui não existem rompantes chocantes e nem apelações jogadas a esmo, apenas para chocar o leitor e fazer algo polêmico com este ou aquele personagem conhecido. Todas as ações são organicamente trabalhadas e, salvo uma invasão que vai deixar o leitor com o coração batendo e suando frio durante toda a Cena 19 — nada, porém, que atrapalhe ou diminua o valor do produto final –, tudo é muito bem explicado e não há nenhum caminho extremo necessário para compreender e aceitar os arranjos da trama.

Muito mais do que na série original, o conflito de geração ganha destaque e extrema problematização aqui, assim como uma maior liberdade nas indicações afetivas/fraternas/amorosas, inclusive com um tratamento dado ao status de “melhores amigos” que ganha contornos tão profundos que chegam a impressionar o leitor dada a rapidez, coesão e objetividade com que são construídos, chegando a um patamar que nos cativa facilmente e mostra um nível de conflito entre pessoas que se gostam que só tivemos pela primeira vez neste Universo, do meio de O Cálice de Fogo para o início de A Ordem da Fênix!

Quando chegamos ao segundo Ato, temos muito clara a ideia de que “as aparências enganam” e andamos às voltas com questões ligadas à falta ou excesso dos pais na criação dos filhos; à ação impulsiva de alguns adolescentes que abraçam determinadas causas como se fossem a última coisa válida no mundo; e o quão injustas e erradas podem ser a “interpretação” de coisas que servem para julgar, isolar ou punir alguém sem que realmente haja culpa. Todo o segundo Ato da peça é estruturado nesse tom existencialista e humanista aplicados, caráter do texto que fica ainda melhor quando as principais ações dos personagens nos trazem lembranças de O Prisioneiro de Azkaban, com mistérios, intricadas realidades e comemorações que deixarão a todos com olhos do tamanho de um pires…

No entanto, os problemas começam a surgir logo no primeiro Ato da Parte Dois.

O primeiro deles – e que normalmente não seria um problema, mas aqui é – é que há uma enorme mudança de tom narrativo entre a primeira e a segunda parte da obra. Enquanto nos dois atos de abertura o leitor é presenteado com uma calorosa lembrança do passado — inicialmente os livros 1 e 2 e, posteriormente, os livros 3 e 4 –, nestes dois Atos finais, há uma incômoda permanência de ações em um ciclo já bastante familiar, quase estragando a experiência tão instigante e tão bem apresentada anteriormente.

O terceiro Ato ainda começa com o mesmo tom de aventura e mistérios que marcou o bloco anterior. A coisa funciona como uma consequência natural, então o leitor quase aceita certas mudanças de perspectiva adotadas pelo texto, imaginando que são desvios para “enganar” o público, levando-o para um lado que não tem exatamente muita importância e deixando a verdadeira ação acontecer em outro lugar. É um truque de construção de mistério que já era clichê desde Agatha Christie, mas um clichê apresentado com charme e dentro de um “plano maior” pode funcionar perfeitamente como algo bom, vide os recursos nesse sentido utilizados pelos autores na abertura da peça. Porém, os desvios não eram para “enganar”. Eles eram uma nova estrutura dramática nascendo. E aí fica difícil perdoar Jack Thorne – e Rowling! – pelo que se segue.

Que uma coisa fique clara aqui: a parte dois de A Criança Amaldiçoada não é integralmente ruim. Ela tem momentos muito bonitos, ainda mantém cenas interessantes de humor e fantasmas do passado razoavelmente bem inseridos nessa realidade, mas o fato de haver uma troca de motor narrativo entre a brilhante abertura e esta sequência faz com que tenhamos de nos acostumar com coisas bem difíceis de digerir. A partir dessa perspectiva, a cada cena, a coisa vai se tornando mais e mais medíocre. Ela não chega a cair para algo ruim, mas fica naquele poço morno de repetições e algumas barras forçadas que enraivecem ainda mais o leitor por virem depois de algo muito bom.

O momento em que Alvo e Escórpio resolvem destruir o Vira-Tempo é quando a mudança ocorre. Os desdobramentos desse combinado nos levam para um posto diferente em intenção e representação, buscando muito mais ingredientes dos livros anteriores do que fazendo uso de momentos pontuais deles, de forma aceitável e divertida, para avançar a história, como ocorrera na Parte Um. Vemos, então, uma nova jornada se iniciar e é quase como se a peça mudasse de mote, sendo a primeira parte sobre Alvo e Escórpio lidando com “problemas de adolescer” e marcados pelo conflito de gerações; e a segunda parte, pela caça de um vilão revelado que, até agora, estou tentando entender o porquê de J. K. Rowling ter permitido que tal personagem existisse. Não dá para aceitar o vilão dessa peça, pois ele é retirado da cartola e não faz sentido orgânico com tudo que Rowling construiu em seus livros (decidi não revelar nada sobre a identidade mesmo considerando que a crítica pode conter spoilers).

A parte final da obra, pelo menos, é fiel à sua proposta inicial, ou seja, investe nos relacionamentos da nova geração e mostra como filhos se opõem aos pais, podendo, com um pouquinho de boa vontade, estabelecer um bom diálogo, aprender lições valiosas e realmente dividir momentos de muito afeto. Duas coisas, porém, me incomodaram bastante nessa retomada: o fato dos outros filhos serem abandonados pelo roteiro — se eles aparecem no início, por que não fechar a obra com pelo menos uma breve aparição? — e o fato de a relação de amizade de Alvo e Escórpio diluir-se consideravelmente, o que me parece um descuido de construção dos personagens. Passado tudo o que essa dupla passou junto, o mínimo que deveria ocorrer seria a manutenção do tom da amizade como estava no início da peça, não o estacionamento em um estágio menos empolgante.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada parece ser duas peças. Uma que nem de longe parece um caça níquel bobo, retomando com imenso respeito e acuidade o Universo do Menino Que Sobreviveu e fazendo os mais diversos tipos de família como elemento de crise e, ao mesmo tempo, redenção par quem deseja. Mas, a grande verdade é que, depois de ler a segunda parte, minha opinião sobre a necessidade de uma revisitação desse Universo mudou um pouco. Ainda gosto da ideia, mas se é para criar personagens que gargalham na cara do cânone, é melhor não fazer nada. Por outro lado, tem a dupla principal vale a peça inteira.

O resultado final, portanto, ainda é positivo, mas não há dúvidas de que os atos 1 e 2 são um verdadeiro xodó de qualidade e nostalgia, enquanto os atos 3 e 4 são um mini-pesadelo que nem uma reza em ofidioglossia conseguirá fazê-los passar tranquilamente pelo crivo de quem gosta de Harry Potter. Se um dia J. K. Rowling voltar a escrever (ou permitir que escrevam) algo sobre esse mundo, que seja sobre outro grupo de personagens, outra escola, outro cenário. Harry Potter, Alvo e todos os outros queridos ou odiados bruxos dessa realidade precisam seguir a vida deles em paz.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada – Parte Um e Dois (Harry Potter and the Cursed Child) — Reino Unido, 2016
Autores: Jack Thorne (baseado em uma história de Jack Thorne, John Tiffany e  J. K. Rowling).
Editora original: Little, Brown and Company
Data original de lançamento: 31 de julho de 2016
Editoria no Brasil: Editora Rocco
Data de lançamento no Brasil: 31 de outubro de 2016
Tradução: Anna Vicentini
352 páginas (volume completo como lançado no Brasil)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.