Crítica | Harry Potter e a Ordem da Fênix, de J.K.Rowling

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estrelas 4

Harry Potter e a Ordem da Fênix, o quinto título da saga de J.K.Rowling, prometia ser marcado pela Guerra Bruxa após o ressurgimento do temível Voldemort ao final do quarto livro, Harry Potter e o Cálice de Fogo. Entretanto, não é isso o que acontece: A Ordem da Fênix tem pouquíssimas cenas com a presença do maior vilão da saga, e muitos capítulos (talvez até demais) sobre o cotidiano na escola de Hogwarts — aulas, deveres, exames e afins. O volume mais extenso da série, com mais de 700 páginas, não deixa de ser um pouco decepcionante para quem esperava muita ação após o retorno d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Porém, é preciso dizer que, apesar de um pouco cansativo às vezes, o livro é bastante coerente dentro da proposta da autora, e traz explicações esperadas pelos leitores desde o início da série.

Após a fuga de Harry, no ano anterior, e seu depoimento sobre o retorno do mais temido bruxo das trevas, o Ministro da Magia se mostra pouco inclinado a enfrentar o que tem tudo para ser a maior crise de seu mandato. Voldemort, por sua vez, permanece na surdina, já que seus planos não saíram conforme o esperado e sua volta triunfal foi frustrada por Potter. Assim, o Ministro Cornélio Fudge decide desacreditar Harry e Dumbledore, contando, para isso, com a ajuda da imprensa e, é claro, seu poder político, que lhe permitirá até mesmo interferir na escola, por meio da maligna Dolores Umbridge. Subsecretária sênior do ministro, Umbridge é enviada à escola como professora e nomeada, mais tarde, como “Alta Inquisidora”; inaugura-se um período de censura, repressão e injustiças orquestradas por essa que é, talvez, a personagem mais detestável já criada por Rowling.

A configuração de Umbridge é um dos pontos interessantes do livro. A “megera”, “maligna”, “pervertida”, “louca” – adjetivos utilizados mais de uma vez para caracterizá-la — tem uma aparência inofensiva, vive cercada de cor-de-rosa, gatinhos e lacinhos de veludo, tem uma voz infantilizada… Em resumo, o oposto do esperado para uma forte antagonista. No entanto, rege uma verdadeira ditadura em Hogwarts, cuja instauração toma grande parte da trama. Por meio dos Decretos Educacionais, Umbridge toma medidas comuns a regimes opressores, como a proibição de leituras específicas e grupos reunidos, a perseguição e dura punição aos opositores e, é claro, uma boa dose de sadismo. A personagem torna-se tão perversa que é difícil aceitar um desfecho tão brando para ela. E desfecho provisório, inclusive, porque ela retornará em Harry Potter e as Relíquias da Morte, com mais poder e mais insuportável ainda, se isso é possível.

Enquanto isso, Harry e seus amigos, cientes do que os espera lá fora, organizam resistência ao novo regime em Hogwarts. O lado psicológico do protagonista é bem mais explorado em A Ordem da Fênix do que jamais foi até então; descobrimos um adolescente instável, com explosões de fúria e mau humor (compreensíveis no contexto, é claro). Impulsivo, orgulhoso e ligeiramente arrogante, Harry é delineado de maneira menos idealizada e muito mais humana, por assim dizer. Esses traços, trabalhados ao longo de todo o enredo, serão determinantes para o clímax – a batalha no Departamento de Mistérios, que não aconteceria não fosse a imprudência do herói e sua “mania de salvar as pessoas”, nas palavras da sensata Hermione. Dessa forma, a análise psicológica é bem amarrada à ação do livro e não se torna apenas um adorno, o que é louvável.

Também é em A Ordem da Fênix que a conexão entre Harry e Voldemort é mais esclarecida e desenvolvida. As já conhecidas dores na cicatriz evoluem para sonhos constantes, compartilhamento de emoções e pensamentos, o que, apesar de assustador, mostra-se bastante útil para ambos em algumas ocasiões. Ainda nesse volume, Harry descobre a origem de todos os seus problemas: a profecia segundo a qual ele e Voldemort estão ligados de maneira que um deverá matar o outro. Essa profecia, aliás, responde à primeira pergunta que muitos fãs devem ter feito desde A Pedra Filosofal: por que Voldemort tentou matar Harry ainda bebê? Por que ele se tornou alvo do Lorde das Trevas antes mesmo de falar? A resposta está na profecia, e cabe ressaltar também que se inicia, na saga, um período de respostas a questões levantadas nos primeiros volumes. Nesse sentido, o sexto livro será ainda mais esclarecedor.

Sobre o início de um “novo ciclo” na série, vale a pena destacar também a figura de Gina Weasley. A irmã caçula de Rony, até então retratada apenas como a menininha tímida apaixonada por Harry, começa a ganhar contornos mais interessantes. Gina mostra-se inteligente, engraçada, dinâmica e atraente, ganhando falas e maior destaque dentro da turma. É importante lembrar que a Gina dos livros é infinitamente mais cativante que a dos filmes, e os fãs que só assistiram às adaptações cinematográficas têm uma impressão bastante diferente — e, geralmente, menos elogiosa — da personagem que mais tarde se tornará a Sra. Potter.

O Departamento de Mistérios, sobre o qual não se sabia praticamente nada até então, é digno de nota. As diversas salas, que servem como palco da batalha entre a Ordem da Fênix e os Comensais da Morte, retratam o pensamento, a vida, a morte, o futuro e outros “mistérios” que foram muito bem explorados pela autora e descritos de maneira nada óbvia. A cena no ministério também é extremamente marcante, é claro, pelo duelo entre Dumbledore e Voldemort e por uma das mortes mais sentidas de toda a série: Sirius Black. A cena final da personagem, inclusive, é muito bem escrita: sua morte parece relatada em câmera lenta, de maneira imensamente visual. Além disso, a maneira como Sirius desaparece abriu margem para muitas teorias de leitores que sonhavam com seu retorno, o que não ocorreu.

A batalha no Departamento de Mistérios, no entanto, é pouca recompensa para tantas páginas e tantas expectativas. Ver a Ordem da Fênix em ação é o que se esperava desde o início, e uma cena de luta parece pouco para tanta espera. A impressão que fica é que A Ordem da Fênix é mais um livro de preparação, de montagem contextual, e que o combate mesmo fica, mais uma vez, adiado para outro livro. Nesse sentido, a extensão exagerada da obra parece desnecessária. Com o aparecimento de Voldemort no ministério, no fim das contas, Fudge não tem mais como negar que a guerra está a caminho. No entanto, e infelizmente para o leitor impaciente, ela vem em marcha lenta, e mais uma vez, fica para a próxima.

Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix)– Grã-Bretanha, 2003
Autor: J.K.Rowling
Publicação no Brasil: Editora Rocco, 2003
702 Páginas

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.