Crítica | Harry Potter e a Ordem da Fênix

estrelas 3,5

Desde que Alfonso Cuarón dirigiu Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, as aventuras do bruxo (“bruxinho” é coisa do passado) míope e com uma cicatriz em formato de raio na testa deixaram de ser voltadas ao público infantil. Cuáron revolucionou a série ao optar por uma abordagem mais séria e sombria, que foi levada adiante por Mike Newell em Harry Potter e o Cálice de Fogo. Mas é este Harry Potter e a Ordem da Fênix que define o que a série deveria ter sido há muito tempo, e os méritos disso vão especialmente para David Yates, um premiado diretor televisivo, que causou certa dúvida se era a escolha apropriada ou não, mas que surpreendeu com seu bom resultado, transformando o mais enfadonho livro da série em um dos filmes mais interessantes.

Em seu quinto ano na escola de Hogwarts, Harry Potter descobre que a comunidade bruxa está abnegando seu recente encontro com o maligno Lord Voldemort, preferindo fechar os olhos para as notícias de que Voldemort teria retornado. Temendo que o venerável diretor da escola de Hogwarts, Alvo Dumbledore, esteja mentindo sobre o retorno de Voldemort, na tentativa de tomar seu cargo, o Ministro da Magia Cornélio Fudge indica um novo professor para a disciplina de Defesa Contra as Artes das Trevas, de forma que fique este fique vigia em Dumbledore e os alunos de Hogwarts. Mas a indicada, professora Dolores Umbridge, faz com que a disciplina deixe de ser ministrada para os bruxos mais novos que estão despreparados para defender-se contra as artes das trevas que ameaça a comunidade bruxa. Diante disso os amigos Rony, Hermione e Harry tentam resolver o problema formando secretamente um pequeno grupo de estudantes quem se denominaram “Armada de Dumbledore”. Harry os ensina a como se defender contra as Artes das Trevas, preparando-os para a batalha futura.

Assumindo o posto do roteirista Steve Kloves, o novato Michael Goldenberg alcança um ótimo resultado ao conservar apenas o essencial da trama. Ainda que exista um ou outro tropeço, em termos de roteiro, o filme apresenta um grande salto: é mais complexo, mais tenso e trabalha muito bem os aspectos dramáticos de alguns personagens. Claro, para isso, Goldenberg foi forçado a realizar grandes cortes na obra, o que logicamente, causou a revolta na maioria dos fãs.

Mas ainda que seja superior aos seus antecessores neste quesito, existe algo que tira boa parte da força do filme, que é a pouca inventividade da produção, problema que já veio da obra de J.K. Rowling. O filme não é tão inteligente quanto O Prisioneiro de Azkaban, nem tão eletrizante quanto O Cálice de Fogo. Mas é, sem dúvida, superior aos dois primeiros exemplares (A Pedra Filosofal e A Câmara Secreta), pelo fato de se afastar completamente do tom infantil e inocente visto nos filmes de Columbus. O clima de magia e descontração aqui é inexistente, dando lugar para a evolução da história e dos personagens.

E em meio ao clima pesado que permeia quase cada canto do longa, o diretor encontra tempo para criar cenas belas e sensíveis, como o primeiro beijo de Harry, um momento que é motivo de grande euforia, não apenas para o bruxo, mas para os fãs, que tão ansiosamente aguardava por um momento desses. Outra passagem interessantíssima acontece durante um diálogo entre Harry e seu padrinho, Sirius Black (Gary Oldman), onde o garoto desabafa estar com medo possuir certa tendência para o mal, pelo fato de estar sempre irritado, e é quando Sirius responde que o mundo não se divide entre pessoas boas e ruins, todos temos luz e trevas dentro de nós, e que o que conta é o lado no qual decidimos agir. Um momento marcante.

E todas essas emoções complexas e diversas são passadas ao espectador com uma atuação muito mais eficiente de Daniel Radcliffe. Este foi o primeiro filme que exigiu mais do trabalho dele e o ator respondeu com competência, apresentando uma maior entrega ao papel e tornando Harry uma figura muito interessante de se acompanhar. Mas Radcliffe ainda precisa de um pouco mais de esforço para conseguir se equiparar a Emma Watson, sem dúvida, a mais expressiva do trio. Sua personagem é inteligente, racional, sabe o que quer, e tudo somado ao carisma de Watson torna Hermione uma das facetas mais interessantes da série. Mas deve-se destacar também a evolução de Rupert Grint e o novo rumo que seu personagem toma. Deixando de vez as caretas de lado, vemos que Rony já não é mais aquele sujeito boboca que víamos nos filmes anteriores. Quando o vemos defender seu melhor amigo das injustas investidas maldosas de outros, percebemos que ele já não é mais uma caricatura e sim um sujeito capaz de se por na frente do perigo para proteger sua forte amizade com Harry.

E já que chegamos na discussão sobre os personagens, é impossível não sentir uma tristeza ao ver uma variedade de coadjuvantes, interpretados por atores tão eficientes, serem reduzidos a pequenas participações. Alan Rickman, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Brendan Gleeson, todos possuem um tempo ínfimo no filme, e mesmo que ainda cumpram seus deveres com eficiência, fica difícil não se sentir decepcionado pela redução de personagens tão interessantes.

Mas o filme compensa todas essas diminuições com três adições pra lá de satisfatórias: a primeira é Evanna Lynch, que interpreta a esquisita Luna “Di Lua” Lovegood. Impressionante como a atriz, escolhida entre 15 mil candidatas, transborda naturalidade na tela, o que torna impossível não abrir um sorriso a cada vez em que aparece. Da mesma forma, Helena Bonham Carter torna digna de aplausos sua interpretação da tresloucada Bellatriz Lestrange, que apesar de também não possuir muito tempo em cena, já dá uma prova do que esperar da personagem.

Mas o filme é dela. Imelda Staunton. Já indicada ao Oscar de melhor atriz pelo filme O Segredo de Vera Drake, Staunton nos traz aquela que é, possivelmente, a melhor atuação de toda a franquia. Desde seu jeito de andar, até seu modo de falar e sorrir, Staunton encarna com uma perfeição tremenda a megera e odiosa Dolores Umbridge. Nada menos que uma atuação espetacular.

Mas surpreendentemente, o longa encontra alguns empecilhos em sua parte técnica. Sim, isso mesmo! E isso é visível em alguns efeitos visuais. Mesmo com um gordo orçamento de US$ 500 milhões, alguns efeitos visuais acabam soando mal feitos e irreais, como é o caso do gigante Grope, feito completamente em CGI, e que consegue ser ainda pior do que o Trasgo visto no primeiro filme. Entretanto, é visível o esforço da equipe neste aspecto quando chegamos ao movimentado e divertido clímax. Um duelo entre varinhas tenso e empolgante, que culmina em um grandioso embate final, regado a efeitos de fazer cair o queixo.

Uma pena que a saída do compositor John Williams, que foi responsável pela trilha dos três primeiros filmes, continue prejudicando a série. Se Patrick Doyle, no quarto filme, não conseguiu se equiparar ao compositor veterano, aqui o resultado é pior, já que o filme conta com uma trilha fraca e pouco inspirada de Nicholas Hooper, que não chega a ser ruim, mas passa praticamente despercebida.

Deve-se destacar, porém, o admirável trabalho de fotografia de Slawomir Idziak, que abusa das entonações azuladas, e contribui para a construção do clima sombrio do filme. E o competente desenhista de produção Stuart Craig, único da equipe técnica que permaneceu na série desde o primeiro filme, novamente faz um trabalho esplendoroso, ao criar cenários luxuosos, grandiosos e que foram, injustamente, esquecidos pela premiação do Oscar.

Entre seus erros e acertos, A Ordem da Fênix consegue surpreender por seu resultado positivo, mesmo que nos faça torcer o nariz em vários momentos. Surpresa maior é o bom trabalho feito por David Yates, que com sua direção segura, apesar de pouco ousada, mostra que, de fato, entendeu a essência da série, e transformou estes em um dos mais interessantes da série.

Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix) — Reino Unido, Estados Unidos, 2007
Direção: David Yates
Roteiro: Michael Goldenberg (baseado na obra de  J.K. Rowling).
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Harry Melling, Fiona Shaw, Richard Griffiths, Ralph Fiennes, Brendan Gleeson, Gary Oldman, David Thewlis, Maggie Smith, Julie Walters, Imelda Staunton
Duração: 138 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.