Crítica | Harry Potter e as Relíquias da Morte, de J.K. Rowling

estrelas 4

Obs.: Leia também a visão de Ritter Fan sobre o livro aqui. E leia a crítica do todos os livros da saga – e além – bem aqui.

Harry Potter e as Relíquias da Morte marca o fim de uma era. Não só para o leitor que acompanhou durante anos a saga do Menino-Que-Sobreviveu, mas para a vida de Harry Potter. No sétimo e conclusivo volume da série, Harry enfrenta mais do que Voldemort: encara desafios trazidos pela vida adulta. A independência, a solidão, os conflitos com amigos, o medo, a dificuldade em tomar decisões e a morte são barreiras que o herói terá que ultrapassar para derrotar seu maior inimigo. Essa ruptura no mundo de Rowling se mostra claramente desde o início do livro – os Dursley vão embora e Harry se despede da casa na qual viveu até então; Edwiges morre logo nas primeiras páginas; o trio de amigos não retorna à escola e sai em busca das horcruxes. Em outras palavras, vários elementos que ligam Harry ao mundo infantojuvenil lhe são tirados permanentemente. Entrementes, o ministério da magia é finalmente dominado por Voldemort, mudando de diretriz e passando a perseguir os bruxos que não são puros-sangues, outra ruptura essencial para a trama.

Nesse contexto, o livro apresenta um tom muito mais pesado do que até então. Se os volumes anteriores continham cenas bem humoradas, intrigas adolescentes, namoricos e aulas, As Relíquias da Morte é denso, carregado de ação e tensão do início ao fim. Os volumes com centenas de páginas de expectativa e uma batalha final ficaram para trás: aqui, antes da metade do livro já houve uma batalha aérea entre Ordem da Fênix e Comensais da Morte, uma invasão no ministério da magia com direito a participação da maligna Dolores Umbridge e uma visita à casa e ao túmulo dos pais de Harry, que culmina numa batalha surpreendente contra a gigantesca cobra Nagini. O ritmo muito mais constante torna a leitura irresistível, e compensa as poucas risadas. Afinal, os dias amenos ficaram no passado: Harry agora é O Indesejável Nº1, perseguido pelo ministério e com a cabeça a prêmio – “se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”, já diria Malcom X.

Um dos pontos fortes do livro é a construção das cenas de batalhas e cenários até então desconhecidos. Nesse sentido, sobressai o arrombamento ao banco Gringotes e a espetacular fuga subsequente. Rowling consegue criar sequências improváveis sem que elas soem inverossímeis, e a descrição é sempre pontual e sucinta. Conhecemos a mansão dos Malfoy, a aldeia de Godric’s Hollow, a casa de Luna Lovegood e outros espaços interessantes até então inexplorados. Algumas cenas, além disso, são marcantes pela própria criatividade do enredo. Destaca-se, nesse caso, o episódio dos sete Potters, que é inusitado, engraçado e dramático na mesma medida. Tais eventos, entre outros, são memoráveis e marcam profundamente a leitura e um leitor que, se chegou até aqui, provavelmente já foi conquistado por esse mundo e pela escrita de Rowling.

A história, entretanto, não é perfeita. Além de um desfecho que confundiu muitos fãs (“por que Harry não morreu” levanta discussões na internet até hoje), há algumas falhas narrativas menores que, ainda assim, não passam despercebidas e poderiam ser evitadas com mais cuidado. Um leitor atento estranhará, por exemplo, que Hermione tenha supostamente alterado a memória dos pais para, poucos capítulos depois, dizer que nunca realizou um feitiço do tipo; ou que Dino Thomas esteja fugindo porque como não conhece o pai, não sabe se é sangue-puro, e mais à frente receba a mensagem de que “seus pais” estão preocupados. Harry aparata desaparata mesmo sem nunca ter feito o exame, o que teoricamente seria proibido e punido pelo ministério. E, a maior falha (na medida em que interfere decisivamente na história): Harry, Ronny e Hermione lançam feitiços protetores em torno de seu acampamento, de modo que Ronny, por exemplo, ao partir, não consegue encontrá-los novamente após deixar a área protegida; no entanto, mais à frente Harry abandona a mesma área (seguindo a corça prateada) e consegue retornar sem dificuldade e sem que haja em nenhum momento explicação para tal feito. É claro que leitores arrebatados pela narrativa muitas vezes nem mesmo perceberão esse tipo de coisa; também não se trata de dizer que a história é ruim por causa disso. Mas que as falhas existem, existem.

Por outro lado, As Relíquias da Morte é o volume que finalmente trará respostas às maiores questões da saga, o que é um bálsamo para quem acompanhou ansiosamente o desenrolar dos acontecimentos. Conhecemos, enfim, a história de Severo Snape, suas intenções e sua lealdade, um arco dramático bastante interessante. Mais interessante, inclusive, que a exaustiva mas compreensível especulação em torno da vida do misterioso Dumbledore. A revelação dessas duas trajetórias traz à tona surpresas significativas, e não é à toa que Alvo Severo será o nome de um dos filhos de Harry. É notável que a epígrafe do livro – o primeiro a utilizar epígrafe, inclusive – já traz uma dica da grande revelação de Snape: “há uma cura não vinda de outros, mas deles próprios”: a solução vem do próprio Harry. “Um não pode viver enquanto o outro sobreviver”.

O momento em que Harry toma consciência de sua morte iminente, aliás, é um dos mais belos da saga. Completando a transformação do menino em homem, essa difícil decisão e a escolha do sacrifício marcam a conclusão da jornada do herói: ele está pronto. E a narrativa, colada à perspectiva dele, mostra sua caminhada em direção ao seu destino, resignada mas não isenta de medo, corajosa mas não feliz. Harry se torna um verdadeiro herói quando faz o que precisa ser feito, simplesmente. Essa trajetória de agonia, sacrifício e glória não é exclusiva de Potter; há quem o compare até mesmo a Jesus Cristo – o pesquisador Derek Murphy escreveu “Jesus Potter Harry Christ” (2011), em que aproxima os dois como modelos literários e composições de mitológicos símbolos de salvação (!). Guardadas as devidas proporções, Harry sem dúvidas salva a bruxidade com seu sacrifício, e é um símbolo de valores como igualdade e justiça.

A saga Harry Potter não é unanimidade de crítica, isso é fato. Mas é inegável que a história do menino com a cicatriz em forma de raio é um marco na literatura do gênero (vide as malsucedidas tentativas editoriais em produzir algo do tipo após o seu fim). Ao longo da série, Rowling cresceu como escritora, e seus personagens, como pessoas. A luta de Harry e seus aliados é justa e não é difícil estabelecer paralelos entre Voldemort e seus sangues-puros e tantas segregações no mundo real. De maneira geral, Harry Potter deixa um legado que ultrapassa suas eventuais falhas, e o final épico retratado em As Relíquias da Morte não deixa dúvidas quanto a isso. Por fim, é preciso dizer que o epílogo – “19 anos depois” – embora soe clichê, é necessário dada a força e a intensidade do livro. Depois de tudo pelo que Harry passou, e lembrando que o público-alvo ainda é juvenil, é um alívio saber que “tudo estava bem”. Harry merece isso, e quem o acompanhou até o fim, também.

Harry Potter e as Relíquias da Morte (Harry Potter and the Deathly Hallows) – Grã-Bretanha, 2007
Autora: J.K.Rowling
Publicação: Editora Rocco, 2007
Páginas: 590

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.