Crítica | Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1

estrelas 3,5

Após o duo inicial encantador e pueril de Chris Columbus para a série Harry Potter, tivemos a visão um pouco cansativa mas muitíssimo autoral de Alfonso Cuarón para O Prisioneiro de Azkaban, a prioridade dos efeitos e avanço da história em detrimento da qualidade na versão de Mike Newell para O Cálice de Fogo, e chegamos a David Yates, que assinou o contrato para a direção de A Ordem da Fênix e conseguiu cadeira cativa e a missão de finalizar a série cinematográfica mais cotada desse início de século, ao lado de O Senhor do Anéis.

A Ordem da Fênix, um dos livros mais complexos da série, teve uma versão cinematográfica rala e ainda marcou o início da Era do Espectador Potteriano, ou seja, só entenderia completamente os filmes dali para frente, quem tivesse lido os livros. Não é preciso dizer que para o cinema, essa atitude de “grupo fechado” é algo completamente anormal e imperdoável, mas por outro lado, os fãs do menino bruxo sentem-se privilegiados pelo domínio pleno de uma linguagem e sucessão de fatos incompreensíveis para o mundo dos trouxas.

Em O Enigma do Príncipe, uma tendência fotográfica abominável que muito permeia os filmes de fantasia dessa Era Digital encontrou nos tons verdes e cinza seu reino eterno: o monocromatismo. Além disso, a pouca originalidade da trilha sonora, sem John Williams na composição desde Azkaban, serviu para dar ânsias e semear o mal estar nos fãs mais exigentes e nos espectadores mais críticos, algo que, felizmente, diminui muito nessa penúltima parte da saga, As Relíquias da Morte: Parte I.

Se nos dois filmes que dirigiu anteriormente David Yates priorizou os efeitos visuais e especiais acrescidos de uma agilidade quase forçada a fim de dar andamento à história, nessa penúltima parte, em duas horas e vinte e seis minutos de filme, o objetivo é outro: trazer o máximo de elementos do livro para a tela, plasmar o amadurecimento emocional-psicológico e mágico dos protagonistas e dar conta do mundo ameaçado pelas forças de Lord Voldemort, um mundo de medo, repressão, prisão e julgamentos arbitrários de bruxos de “sangue ruim”, além de busca solitária por objetos ícones para o “lado das trevas”.

Apesar dessa nova linha de direção – a tardia, mas oportuna remissão antes do fim – é muito difícil analisarmos essa primeira parte do último capítulo da série, porque ela é o meio de um processo iniciado no filme anterior e que será completada no próximo ano. Ainda assim, As Relíquias da Morte I possui luxos e lixos dignos de um olhar mais atento.

Já nas primeiras sequências, a sensibilidade quase lírica com que vemos Hermione apagar a memória dos pais e sua foto de todos os quadros da casa, mais as tomadas paralelas do trio protagonista da saga, mostram o estado de espírito de cada um e o rumo que seguem a partir desse momento. O filme, desde a sua introdução, é a saída para uma longa busca.

Em meio ao tenso e macabro mundo em que vivem os bruxos agora, pontadas de humor e inadequações dramáticas quebram a atmosfera lúgubre: o casamento de Fleur e Gui Weasley, a invasão do Ministério da Magia por Harry, Rony e Hermione, as tentativas de reconciliação de Rony com Hermione, após voltar para a cabana, e a melhor de todas as sequências cômicas, embora dentro de um contexto nada engraçado: a transfiguração dos sete Potter. Mesmo o uso da câmera e a moderada quantidade de planos dessas sequências são exemplos de um leve amadurecimento narrativo, o que podemos dizer que também aconteceu com a fotografia e o uso da música.

A montagem preferiu a divisão entre os planos como se fossem capítulos do livro (a aproximação é nítida), e o uso do fade-out foi a transição usada em larga escala. A suavidade entre os blocos de ação, no entanto, não justificam a supressão do preparo para os acontecimentos. Tudo acontece muito rápido e essa é a poeira que acompanha o novo vento de David Yates. As longas panorâmicas geográficas e os planos médios de observação das vigílias de Harry e Hermione poderiam dar lugar ao processo de criação da ação, o que deixaria a narrativa melhor embebida em suspense, recurso usado de forma parca.

Apesar de não inovar completamente e pecar sem escrúpulos na passagem do tempo e no trabalho com a decupagem, rompantes de criatividade e beleza arrebatam o espectador neste filme, sendo o maior deles, a representação em animação d’O Conto dos Três Irmãos. Aqui, a fotografia do português Eduardo Serra alcança um de seus melhores momentos no longa. As sombras que desfilam para formar a história que ouvimos narrada em off são um espetáculo à parte. Nunca, em nenhum dos filmes da série, uma sequência tão bela (e fora da trama) teve tanto a ver com o contexto e conseguiu tamanha beleza e pertinência no roteiro. Mesmo os elementos visuais — a pena negra de um corvo e um pequeno pântano — que ligam a casa de Xenofílio Lovegood à história macabra, “_Era uma vez três irmãos que estavam viajando por uma estrada deserta e tortuosa ao anoitecer…”, correspondem imageticamente à representação, quase um teatro de sombras digital.

A emoção e o definitivo clima de guerra são as grandes colunas aqui. A morte da coruja Edwiges, do elfo Dobby e do líder da Ordem da Fênix, Alastor Moody, dentre outras, servem para salientar a maldade dos Comensais da Morte e a impotência dos bruxos bons frente a essa força que cresce desenfreadamente.

A supressão do tempo de preparação de algumas ações-chave para a trama tentam ser corrigidas através das visões de Harry em contato com a mente de Voldemort. Sequestros, mortes e violações são pré-vistas pelo jovem e mostradas rapidamente ao espectador, culminando na última cena do filme, quando o túmulo de Dumbledore é violado e a principal relíquia da morte é roubada pelo Lorde das Trevas.

Esta primeira parte de As Relíquias da Morte é claramente um grande esforço de David Yates. Embora não seja um excelente filme, agrada por seu moderado dinamismo narrativo, pela revelação leve da sexualidade, pelos sustos e bons efeitos especiais. A história perde no roteiro que prima pela languidez (a divisão em duas partes foi realmente necessária?), carregando muito tempo morto e deixando de lado o caminho da ação, algo tão prezado no último livro. Espera-se, dada a realidade mais amadurecida que hora temos, uma Parte II épica, definitivamente muito boa. Daqui a um ano, quando do lançamento final e definitivo da série, esperamos não escrever um texto com apenas duas palavras, e desejar que seu efeito atinja em cheio o diretor do filme: Avada Kedavra.

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte I (Harry Potter and the deathly hallows: Part I, UK, EUA, 2010)
Direção: David Yates
Roteiro: Steve Kloves (adaptação da obra de J.K. Rowling)
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Helena Bonham Carter, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Bonnie Wright, Tom Feltom
Duração:

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.