Crítica | Harry Potter e o Cálice de Fogo, de J.K. Rowling

estrelas 4

Harry Potter e o Cálice de Fogo traz, logo à primeira vista, uma diferença notável em relação aos primeiros tomos da série: quase 250 páginas a mais que seu antecessor, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Os grandes volumes se tornarão comuns na saga a partir deste título – mas, ao contrário do que acontecerá em outros livros, Harry Potter e o Cálice de Fogo não dá a impressão de páginas desnecessárias; o enredo é marcado por muita ação do início ao fim. O maior responsável por essa “sacudida” nos já agitados anos escolares de Hogwarts é o Torneio Tribruxo, competição interescolar da qual, previsivelmente, nosso herói irá participar.

O início da obra também traz outra característica nova: pela primeira vez na saga, o narrador se descola da perspectiva de Harry, num capítulo muito interessante sobre o destino da família Riddle e o atual paradeiro de Voldemort, após ser resgatado por Rabicho. Essa abertura, marcada por um assassinato, já mostra a que veio o quarto livro: tornar a história mais sinistra, processo iniciado em Azkaban e intensificado a cada obra a partir de então. Harry Potter, gradativamente, perde seu lado infantil, ingênuo, para dar lugar a Maldições Imperdoáveis, cenas de tortura, homicídios frios, rituais macabros e Comensais da Morte.

Um dos pontos positivos de Harry Potter e o Cálice de Fogo é, sem dúvida, um desenvolvimento mais aprofundado de suas personagens principais. É aqui que veremos, por exemplo, o ciúme de Rony, o menino pobre e cheio de irmãos, constantemente ofuscado pelo melhor amigo famoso. Também toma forma uma Hermione mais engajada, idealista, que se preocupa com questões além do próprio rendimento escolar – ainda bem, pois do contrário a personagem se tornaria cansativa. A revolta de Hermione com a situação de escravidão dos elfos domésticos (trama secundária que foi retirada do filme), apesar de quase cômica, contribui para sua configuração como alguém que, mais à frente, será capaz de coisas extraordinárias em prol de uma causa. Harry, por sua vez, mostra-se orgulhoso, procrastinador e, é claro, marcado por sua “mania de herói”, perceptível na segunda tarefa do Torneio e que será decisiva futuramente.

As relações entre as personagens também ganham novos contornos; com a adolescência, surgem as paixonites, como a que Harry nutre por Cho Chang. O relacionamento entre Rony e Hermione aponta para novas direções após o Baile de Inverno, embora seja posto completamente de lado após essa cena, só retornando em Harry Potter e a Ordem da Fênix. A conexão entre Harry e Sirius é delineada mais profundamente, e sua briga com Rony deixa claro que está inaugurado um novo período em suas vidas, em que lidar com as emoções é muito mais complicado que anteriormente. Também é aqui que descobrimos a origem gigante de Hagrid e o passado como Comensal da Morte de Snape. Em suma: personagens mais bem delineadas, esféricas, marcam Harry Potter e o Cálice de Fogo e só têm a acrescentar à narrativa.

A construção visual das cenas merece destaque. Rowling explora novos cenários – o fundo do lago, um labirinto, um cemitério – criando episódios fascinantes. O labirinto, por exemplo, enfrentado pelos competidores na última tarefa do Torneio, proporciona cenas incríveis como a da névoa que deixa o mundo invertido – e que, infelizmente, não aparece no filme. Por outro lado, o ressurgimento de Voldemort no túmulo de seu pai após um ritual nefasto mostra uma outra faceta da história, que começa a flertar com oterror – gênero cujo ápice, na saga, ocorrerá na aparição dos inferi (mortos-vivos), alguns volumes depois.

Como não poderia deixar de ser, Harry Potter e o Cálice de Fogo também traz elementos do mundo real, que nos permitem traçar paralelos e elaborar críticas interessantes. O que mais se distingue, nesse caso, é o papel da imprensa sensacionalista, representada pela figura intragável de Rita Skeeter. Se o jornal Profeta Diário nunca pareceu muito confiável – o que vai piorar a partir do quinto livro – Skeeter consegue se tornar uma das personagens mais detestáveis do universo Harry Potter. E, claro, não é difícil reconhecê-la ao pensarmos no papel que a nossa imprensa muitas vezes assume, sendo extremamente parcial, tendenciosa, distorcendo fatos e invadindo o que não deveria ser de interesse público, mas particular. É interessante notar que os textos de Skeeter chegam a afetar realmente as pessoas envolvidas, que passam por linchamento moral após a publicação de inverdades – qualquer semelhança com a realidade…

Mais sutil na obra é a presença de certa reflexão sobre fins e meios. Bartô Crouch, figurão do ministério, cumpridor implacável de normas e regulamentos, é questionado e mesmo comparado aos partidários das trevas por sua inflexibilidade, ausência de piedade e frieza. Inicia-se um processo interessante de relativização do maniqueísmo inicial; o mundo não se divide entre boas pessoas e comensais da morte. Essa humanização de ações e personagens será essencial para alguns papéis na saga, como Snape e Draco Malfoy, que, de outra forma, seriam impossibilitados de redenção.

A maior crítica a Harry Potter e o Cálice de Fogo fica por conta de um fato essencial à trama: a própria participação de Harry no Torneio Tribruxo. A leitores mais exigentes, não é muito convincente a decisão dos juízes – especialmente Dumbledore – em aceitar um quarto competidor no Torneio, abaixo da idade permitida e em conhecido e constante risco, como é o caso de Harry Potter. Embora ao longo da saga haja pequenas falhas de verossimilhança – o que é até comum em histórias dessa extensão – esse “detalhe” faz com que o argumento desse volume não seja tão bem amarrado quanto Azkaban, por exemplo. Apesar disso, porém, Harry Potter e o Cálice de Fogo é uma das leituras mais agradáveis da série. A ação constante prende facilmente o leitor; os relacionamentos interpessoais, os conflitos e a adolescência tornam natural a identificação com os personagens; a assustadora volta de Voldemort, por fim, evidencia que tempos sombrios estão a caminho. A sensação que fica ao término da leitura é de que nada – nem ninguém – será como antes.

Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Goblet of Fire) – Grã-Bretanha, 2000
Autor: J.K.Rowling
Publicação: Editora Rocco, 2001
Páginas: 583

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.