Crítica | Harry Potter e o Enigma do Príncipe

estrelas 3

O Enigma do Príncipe pode não ser a revelação da saga Harry Potter, mas certamente é um dos filmes mais densos da série. O diretor David Yates teve aqui o mérito de trazer um livro bastante teórico para as telas de um modo muito satisfatório, esboçando viagens, diálogos quase filosóficos, crises de consciência e abertura para a grande investida do bem contra o mal.

Embora haja uma infantilização desnecessária — ou o retorno a ela — e os amores adolescentes tenham minimizado bastante o valor geral do filme (quase como o foco desportivo de Mike Newell em O Cálice de Fogo, apesar de a adaptação ali ser mais instigante), o apuro estético contido nas diversas sequências de magia e a grande jornada de Harry ao lado de Dumbledore, mais sentida no livro do que no filme, fazem dessa obra, apesar dos defeitos, uma boa e sombria diversão.

Com a ascensão do Lord das Trevas, a comunidade bruxa procura ao máximo minimizar os efeitos que isso pode causar para as suas vidas, mas a agressão dos Comensais da Morte, agindo cada vez mais abertamente, só mostra o quão complexa é a situação da sociedade bruxa nesse momento. Uma comparação com a ascensão de qualquer regime fascista não seria deslocada aqui, e podemos observar essas semelhanças de uma melhor forma se nos atermos ao discurso de Voldemort e seus seguidores, com destaque para a primazia dada aos bruxos de “sangue-puro” ou a forma como ele trata os que não se enquadra nessa categoria. Tanto na obra literária quanto no cinema, O Enigma do Príncipe é uma espécie de ponte para a longa jornada e futura batalha que ocorreria em Hogwarts mais adiante.

Há um deslocamento das aulas, do funcionamento interno de Hogwarts para algo mais “solto”, e o roteiro do filme, nesse sentido, sofre bastante. Mas a compensação aparece nas “viagens” feitas por Harry, com destaque para a ótima animação feita “com tinta” em relação à penseira (muito diferente da que conhecemos no filme anterior) e em toda a longa sequência de Dumbledore e Harry na busca da Horcrux num rochedo perdido do Mar do Norte.

Um dos ótimos momentos visuais no filme é o feitiço lançado por Dumbledore que afasta os mortos do lago. Na mesma medida, vejo que a morte do diretor de Hogwarts é de deplorável alcance dramático, com uma secura que não convém à cena. Isso é ainda mais grave, porque a fotografia de Bruno Delbonnel não ajuda nem um pouco a construir os sentimentos do espectador e nem em passar as mudanças internas da obra através de uma paleta de cores ao menos básica. Isso que dizer que O Enigma do Príncipe é certamente o exemplar monocromático da saga. Isso aconteceu antes, é verdade, mas aqui, essa presença é maior e de impacto mais negativo, justamente pelo peso que o texto nos traz.

Mas infelizmente não para por aí. O final do longa é realmente o seu ponto mais fraco, com uma deixa e um arranjamento de eventos que nem satisfaz bem a totalidade do presente filme e nos enerva ao máximo quando não prepara bem o cenário para a dobradinha de longas vindouros. Ao menos no livro essa deixa está bem estruturada, Steve Kloves deveria ter seguido o exemplo literário nesse ponto.

Apesar de todos esses elementos, O Enigma do Príncipe não é um filme tão odioso quanto pintaram-no alguns fãs. Vale uma boa e tensa sessão de cinema, apesar do ar de romance adolescente e certas escolhas narrativas contrastando com a realidade trágica em que os bruxos enfrentavam. Uma realidade que, para desespero deles, só piora.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, UK, EUA, 2009)
Direção:
David Yates
Roteiro: Steve Kloves (adaptação da obra de J.K. Rowling)
Elenco: Daniel Radcliffe, Michael Gambon, Jim Broadbent, Bonnie Wright, Rupert Grint Emma Watson, Tom Felton, Alan Rickman, Helena Bonham Carter
Duração: 153min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.