Crítica | “Harry Styles” – Harry Styles

Harry-Styles-album

estrelas 3,5

É interessante observar o fenômeno das boybands. Surgem, explodem e se desmembram, assim sem muito segredo. Quando o One Direction anunciou sua separação foi um caos entre a juventude obcecada pela banda. Querendo ou não, foram obrigados a superar. E desde então, começou uma famosa etapa nesse fenômeno da ciência chamado boyband: foi dada a largada das carreiras solo dos membros. Zayn saiu na dianteira com seu R&B direcionado ao pop. Agora é a vez de Harry Styles, o ex-membro que repercutiu na mídia pelo caminho alternativo que optou para sua carreira, sustentado por influências setentistas (ou ao menos assim era divulgado). Assim chegamos a seu homônimo álbum de estreia.

Harry Styles não possui objetivos pretensiosos em seu début, visando apenas chamar atenção através de um produto autêntico e de personalidade, tentando se afastar das sombras de sua antiga boyband. Sem elevar expectativas, diria que Harry atingiu um resultado bastante satisfatório em sua primeira empreitada. Não temos aqui um excelente trabalho, mas, sim, um disco de estreia muito bom – e que deve ser avaliado como tal – deixando ótimas esperanças a respeito do que o artista pode trazer no futuro de sua carreira.

O violão é uma constante pela obra. Desde a digna abertura em Meet Me In The Hallway até o instimista encerramento de From The Dining Table é notória a predileção pelo acústico, ainda que o miolo do disco seja tomado por guitarras. Por mais padronizado que possa soar Harry Styles, não vemos aqui nenhuma tentativa apelativa a fim de conseguir público. Por mais que faixas como Sweet Creature tentem ser direcionadas a massas, não há nenhuma masturbação radiofônica, nenhuma tentativa de compactar a canção até o formato mais genérico e cantarolável possível, como acontece com certos artistas (coff coff Ed Sheeran coff coff). Isso em grande parte porque o catálogo de influências do artista é ótimo e salta aos ouvidos. Seu espetacular single de estreia é a maior prova disso. Sign Of The Times é David Bowie até o talo, exalando influências de baladas de álbuns como Hunky Dory e Heroes através de suas guitarras reverberantes e bela construção ao piano.

Além de influências setentistas encontramos uma considerável sonoridade noventista ao longo do disco. Ever Since The New York pega emprestado a linha romântica de Jeff Buckley e Pearl Jam, por exemplo (além de lembrar o acústico Mtv do Nirvana, como bem lembrou meu amigo Karam). Uma surpresa é ver Harry resolver apelar para um certo lado hardrock, afinal, tal sonoridade já deixou de ser popular com o grande público faz anos. Kiwi é uma grata surpresa, capturando toda a vibe garageira e rebelde típica de Jack White, provavelmente a maior influência rockeira dessa década. Only Angel parece seguir uma fórmula bem clichê de fazer rock n’ roll – refrão fácil, riffs marcantes e bateria bem colocada – mas sem deixar que isso vire um demérito, já que é bem executada. Além disso, a transição da introdução atmosférica para a eufórica entrada da canção – cortada pelo riff principal quase como uma lâmina – é digna de elogios.

E a produção também merece seus méritos. Enquanto uma imensa quantidade de lançamentos atuais soam artificiais mesmo quando tentam soar orgânico, vemos aqui uma riqueza natural admirável. Perceba como cada corda entoada no violão e na guitarra, cada nota atingida no piano consegue trazer um frescor orgânico estonteante. Nesse aspecto específico temos um dos maiores highlights do ótimo produtor Jeff Baskher, principalmente se visto que este trabalha com samples e sintetizadores mais que tudo (vide Kanye West, Bruno Mars, Rihanna, La Roux) e conseguiu representar um som efetivamente “de estúdio” com tanta autenticidade como aqui. O time de produtores ainda conta com a experiência de Tyler Johnson e Alex Salibian.

Woman é um dos maiores acertos do disco. Diferente das demais faixas, mas ainda funcionando dentro da proposta orgânica do álbum, temos aqui um arranjo que se afasta um pouco dos padrões normais e por isso mesmo soa tão fresco. A escolha do espaçamento “travado” de guitarras, da entrada randômica de versos e de percussões estranhas adiciona um rítmo bizarro e imprevisível à melancolia da base de piano. O resultado é um viciante e estranhamente melódico groove, difícil de deixar o corpo parado.

O trabalho de estreia de Harry Styles é satisfatório, podem confiar. Assim como Justin Timberlake e George Michael, talvez o futuro da carreira solo do cantor demonstre ser tão promissora que ninguém mais lembrará de seu passado teen. O primeiro passo foi dado, temos aqui uma ótima amostra do que pode ser oferecido, mas muita água ainda precisa rolar…

Harry Styles
Artista: Harry Styles
País: Inglaterra
Gravadora: Columbia Records
Lançamento: 12 de maio de 2017
Estilo: Rock, Pop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.