Crítica | Heartstone / Hjartasteinn

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estrelas 5,0

Chega! Ele já está morto! Parem de implicar com os peixe-pedra!“, diz Thor para seus amigos, após uma pescaria, em uma das cenas iniciais de Heartstone / Hjartasteinn (2016), o primeiro longa-metragem do diretor islandês Guðmundur Arnar Guðmundsson.

O espectador ainda não sabe, mas esta sequência de abertura terá uma forte representatividade nas ações seguintes, servindo, inclusive, para uma das melhores metáforas da película, na última cena, destacando ainda mais o título, espelhando a fraqueza e a feiura de um peixe, junto ao seu simbólico coração de pedra, nos humanos que o maltratam, batem, cospem, mas não conseguem “se livrar dele”, pois o peixe-pedra — aquele mesmo que causa no homem uma das mais intensas dores que existe –, não só é um elemento natural que causa espanto (“como é que a natureza pode produzir uma aberração dessas?“, perguntam), mas também uma ideia de “como não ser um peixe”. Para alguns, ele é visto como qualquer outra espécie, a despeito de sua “estranheza”. Para outros, ele é apenas uma coisa horrível que precisa ser morta. “Maldito peixe-pedra!“.

Só pela belíssima metáfora que o roteiro de Guðmundsson cria para aprofundar o drama central entre os dois protagonistas (ambos em excelentes interpretações), Heartstone já seria um bom motivo para debates sobre a convivência com o diferente e sobre como o espaço de uma cultura pode ser utilizado para mostrar uma realidade que se conhece tão bem em outras partes do mundo. No filme, contudo, há muito mais poesia envolvida em toda a tragédia e beleza, em toda a felicidade e tristeza, em todo o amor e ódio que andam de mãos dadas do começo ao fim, tornando-se mais intensos e opressores à medida que o verão termina e o outono chega, trazendo a primeira neve, estabelecendo um maior isolamento dos personagens, mais frieza no trato e menos luz.

A direção aproveita com muita competência as locações na Islândia, mostrando o dia a dia de Thor e Christian, os dois amigos inseparáveis que percorrem diversos lugares da ilha, jogam bola, visitam um a casa do outro, quebram vidros de carros em um ferro-velho e ajudam um pouco nas tarefas do pastoreio de animais. A relação entre a dupla, seus outros amigos e o lugar onde moram é quase como a de uma convivência em uma prisão e não demora muito para percebermos que sempre que alguém tem um “problema”, há reações violentas por quebra de tradições locais e o caminho mais comum é a mudança dessa pessoa para outro lugar, no caso, Reykjavík, a capital do país.

Ao mesmo tempo que aborda e desenvolve todos os aspectos sociais relacionados ao comportamento de homens e mulheres, independente de sua idade ou sexualidade, o roteiro de Heartstone investe no desabrochar do desejo e das primeiras experiências para os adolescentes e jovens em destaque. A situação que sabemos desde o princípio (Thor tenta conquistar o coração de uma garota enquanto Christian descobre novos sentimentos pelo melhor amigo) não passa em nenhum momento pelo clichê da experiência vazia, pela mudança de comportamento ou exposição caricatural, imprecisa ou errada da sexualidade.

No filme, a iniciação sexual é bastante precoce e há uma graduação honesta da libido e pulsões do quarteto formado por Thor, Christian, Betta e Hanna. A visão binária de “se você não é isso, você é aquilo” é colocada como contraste para expor o preconceito e senso comum dos habitantes da vila para a descoberta ou suspeita da homossexualidade de duas pessoas diferentes, um adulto e um jovem. Nos dois tratamentos há sempre o movimento de rejeição da maioria e de compreensão da minoria, além dos comentários sobre o destino da pessoa. Percebam que por mais que o filme seja uma sequência de prosas poéticas das férias de Thor e Christian, a própria amizade deles é utilizada para analisar e enxergar melhor o entorno, com sua falsa aparência de liberdade, transmitida pela profusão de planos abertos.

Heartstone é um filme sobre experiências, sobre amizade verdadeira, sobre a arte de conviver, de ter empatia, de amar e ser correspondido, sem que isso tenha obrigatoriamente um lado sexual arraigado. A discussão é plural, visita sob os vários aspectos das relações humanas, da sexualidade, da fraternidade, e discute como o ambiente enxerga e rejeita qualquer coisa que lembre uma diferença em relação ao padrão, mostrando as consequências disso para quem precisa lidar com sentimentos que não consegue assumir.

Raras vezes no cinema próximo à safra deste filme (2016), a temática foi abordada com tanta delicadeza, dualismo de forças, metáforas e poesia. O fechamento do ciclo, na cena final, resume o destino de um dos personagens e de milhões de indivíduos na mesma situação em todo o mundo. Capturados, amaldiçoados e rejeitados, são jogados ao mar e percebem que continuam vivos e que ainda há muito espaço e possibilidades para explorar. Mesmo marcado, o peixe-pedra nada para o desconhecido, talvez para um lugar ou tempo em que sua “esquisitice” seja apenas mais uma dentre tantas existentes de sua superclasse, inclusive entre os belos peixes considerados “normais”. Só mesmo um coração de pedra para lidar com isso repetidamente, por tanto tempo.

Heartstone / Hjartasteinn (Islândia, Dinamarca, 2016)
Direção: Guðmundur Arnar Guðmundsson
Roteiro: Guðmundur Arnar Guðmundsson
Elenco: Baldur Einarsson, Blær Hinriksson, Diljá Valsdóttir, Katla Njálsdóttir, Jónína Þórdís Karlsdóttir, Rán Ragnarsdóttir, Nína Dögg Filippusdóttir, Sveinn Ólafur Gunnarsson, Nanna Kristín Magnúsdóttir, Søren Malling, Gunnar Jónsson, Daniel Hans Erlendsson
Duração: 129 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.