Crítica | “Heitor Villa-Lobos: Sinfonia Nº12, Uirapuru, Mandu-Çarará” – Isaac Karabtchevsky

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estrelas 4,5

“Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade, sem esperar resposta”.

Heitor Villa-Lobos (1887-1959)

As palavras inscritas em sua lápide resumem bem o que foi a vida e a obra de Heitor Villa-Lobos. Nascido no Rio de Janeiro em 5 de março de 1887, nosso maior compositor erudito dedicou toda a vida a criar uma linguagem musical definitivamente brasileira. Nossas selvas, rios e pássaros ganharam texturas e timbres próprios. O cavaleiro europeu plasmado à forma de índio brasileiro deu lugar a um indígena com todos os traços amazônicos. O caboclo que sai de manhã para plantar tornou-se protagonista no pianístico Ciclo Brasileiro. A população sertaneja fez ouvir sua voz no sofrido e retumbante Coral das Bachianas Brasileiras Nº4. As cantigas de roda foram eternizadas na escrita dissonante das Cirandas. E a alma brasileira registrada com incrível poder de síntese no lindo Choros Nº5. Isso para citar apenas alguns exemplos de uma obra que tão sensivelmente soube explorar nossa identidade nacional.

Em 2011, a Osesp se uniu a Isaac Karabtchevsky para gravar pela Naxos a integral das sinfonias de Villa-Lobos, obras pouco executadas no repertório corrente de concerto e que ficaram praticamente esquecidas após a morte do compositor. Em 6 CDs, fizeram um trabalho de resgate impressionante. A Sinfonia Nº 12 encabeça o sexto disco dessa série, que ainda traz o conhecidíssimo poema sinfônico Uirapuru e a cantata profana Mandu-Çarará (que, assim como a sinfonia, é praticamente desconhecida do grande público). O disco vencedor do Prêmio da Música Brasileira de 2016 da revista Concerto reúne três obras de diferentes fases da carreira do compositor, construindo um retrato bastante rico de sua música. Ao menos, da música sinfônica. Um repertório interessante e entregue em boas mãos – nossa melhor orquestra há pelo menos uma década e um de nossos grandes regentes, com pleno domínio de Villa-Lobos.

A peça que abre o CD é Uirapuru. O poema sinfônico narra a história do pássaro amazônico que se transforma em um belo índio, despertando a disputa das índias e a inveja de outro índio, que o flecha mortalmente, transformando-o novamente em pássaro. A composição de Villa-Lobos, escrita em 1917, ainda no início de sua carreira, carrega diversos elementos da música europeia, fazendo notar influências de Stravinsky e de Debussy (especialmente de Prelúdio para a Tarde de um Fauno nos lânguidos e misteriosos solos das madeiras e cordas). A riqueza timbrística é enorme e os sons da floresta surgem com esplendor na conversa intensa entre flauta, corne inglês, marimba e outros instrumentos (como o brasileiríssimo reco-reco). Karabtchevsky não desperdiça os detalhes dessa partitura, cheia de efeitos sonoros surpreendentes e de atmosfera sedutora. Do início ao fim, trata com apuro as grandes variações de sonoridade e dinâmica, com pianíssimos de absoluta delicadeza.

Confesso que nunca havia ouvido a Sinfonia Nº12 de Villa-Lobos até este CD (o que demonstra o sucesso da proposta dessa gravação, que é a de divulgar as sinfonias). Composta no fim da vida do compositor, apenas dois anos antes de sua morte, esta sinfonia em quatro movimentos se distancia bastante do paisagismo nacionalista de Uirapuru e tem um caráter mais universal. A última de suas sinfonias é uma homenagem a Mindinha, sua última esposa, e mostra Villa-Lobos como um grande melodista, mas sem deixar de lado as dissonâncias e principalmente as polirritmias (o terceiro movimento é especialmente marcado por elas). Isaac Karabtchevsky faz ao lado da Osesp um registro com andamentos um pouco mais lentos e procura dar bastante limpeza ao contraponto e brilho ao colorido orquestral. O final, com ecos de Bruckner e Mahler, é grandioso e belo.

O auge do disco para mim é Mandu-Çarará, que conheci ao vivo na regência do próprio Isaac Karabtchevsky, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Um índio abandona seus filhos na floresta para que encontrem o deus Mandu-Çarará e com ele se case a sua filha. No entanto, as crianças erram o caminho e acabam encontrando o Curupira, que quer devorá-las. As crianças conseguem enganá-lo, entram em sua cabana, matam sua mulher e jogam-na em um tacho de guisado, o qual é comido pelo Curupira. As crianças conseguem fugir e encontram, por fim, Mandu-Çarará. Esta é a lenda indígena que inspira a cantata profana de Villa-Lobos. Além da orquestra, participam um coro adulto e outro infantil, cujo canto em nhengatu (uma língua derivada do tupi-guarani) contém também diversos sons onomatopeicos.

Sobre diversos planos sonoros construídos pela orquestra (em que não faltam figuras rítmicas brasileiras facilmente reconhecíveis), desenvolvem-se as peripécias das crianças na floresta (representadas pelo coro infantil), fugindo do Curupira (cuja voz funesta surge no coro adulto). A obra termina em um grito festivo de “Ei!” (a onomatopeia mais evidente da peça). O clima de aventura e mistério, com certo tom soturno, está bem sólido na interpretação da Osesp. Assim como ocorre em Uirapuru, aqui temos uma obra de características descritivas e que exige todo o cuidado com sua riqueza timbrística. Sob a batuta de Karabtchevsky, a orquestra paulista novamente não falha em entregar uma interpretação vigorosa e matizada.

Heitor Villa-Lobos: Sinfonia Nº12, Uirapuru, Mandu-Çarará faz uma elegante compilação da obra sinfônica do compositor brasileiro. É um privilégio poder ouvir sua música em um registro tão sério e ousado, que apresenta uma faceta de Villa-Lobos pouco conhecida até entre os músicos – a de sinfonista.  O Villa-Lobos nacionalista ainda me conquista mais, mas é inegável a qualidade de suas onze sinfonias (a partitura da quinta nunca foi encontrada) e a importância de se resgatar páginas tão fundamentais de sua produção musical. Mozart certa vez declarou: ”Ah, se o mundo inteiro pudesse sentir o poder da harmonia!”. Eu, com sinceridade, já me daria por satisfeito se mais brasileiros pudessem sentir o poder da música de Heitor Villa-Lobos. E este ótimo disco nos convida exatamente a isso.

Heitor Villa-Lobos: Sinfonia Nº12, Uirapuru, Mandu-Çarará
Artista: Osesp e Isaac Karabtchevsky
País: Brasil
Selo: Naxos
Lançamento: 2015
Estilo: Música erudita

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.