Crítica | Helena de Troia (1956)

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Segundo alguns historiadores, a região entre a Europa e a Ásia, onde hoje se situa a Turquia, provavelmente seja o espaço territorial de desenvolvimento do que se imagina ter sido a Guerra de Troia, evento de grande importância para a compreensão de alguns valores ocidentais, momento de mudança na estruturação do entorno social, época de semeação das noções de democracia, valorização do individuo e outras questões que moldaram o homem ao passo que a humanidade evoluía. Conhecida como a Idade do Bronze, o contexto onde o roteiro escrito pela dupla formada por John Twist e Hugh Gray se situa delineia a relação entre a elite, tratada como divindade, e os pobres, pessoas que não tinham “direitos” e precisavam seguir cabalmente as regras estabelecidas por uma rígida cartilha, caso não fosse semideus ou parte integrante do hall dos “importantes”.

Helena de Troia, dirigido por Robert Wise, vai mergulhar profundamente no mito e na Ilíada, de Homero, para de lá, modificar algumas coisas e fornecer a sua visão para os acontecimentos que desaguaram num combate que durou uma década e ceifou a vida de muita gente, principalmente os “ícones” imortalizados pela rica e vasta mitologia grega. Neste épico hollywoodiano, Páris (Jacques Serna) recebe a missão de assumir um acordo diplomático entre Troia e Esparta. Tal como no mito e nos demais filmes, o episódio em que Afrodite é escolhida ganha destaque, para entendermos que os acontecimentos também perfazem os caminhos dos caprichos de algumas divindades. Interessado mais no amor, Páris é um jovem que prefere deixar a “razão” de lado, o que culminará em problemas graves para os envolvidos em todo o processo.

Durante o percurso para Esparta, sua embarcação é atingida por um raio. Páris sobrevive, mas aparece desacordado à beira da praia. Logo mais, ele será resgatado por Helena (Rossana Podesta), mulher que mente e diz ser uma escrava, não a rainha imaculada do local. Prisioneiro por um tempo, o jovem consegue escapar e leva Helena para Troia, ajudado por uma escrava chamada Andraste, personagem interpretada por Brigitte Bardot em sua estreia no cinema. Menelau (Niall MacGinnis), ao descobrir a situação vexatória, declara guerra, tendo como aliados Odisseu (Torin Thatcher) e Aquiles (Stanley Baker). Ademais, o filme alguns elementos de um lado e de outro, mas a “ideia” consiste no mesmo segmento do poema homérico e da mitologia grega. Cassandra (Janette Scott), tida como louca, já havia mencionado os problemas apresentados em suas premonições. Além de indicar que Páris não deveria viajar para Esparta, ela reforça que não aceitem o cavalo deixado nos portões de Troia, presente de grego que, como também conhecemos bem, está recheado de problemas para os troianos.

Primeira “grande” tradução intersemiótica do enredo para o cinema, Helena de Troia é diferente de todas as demais versões da guerra por vias cinematográficas, pois o filme constrói o olhar por vias troianas, algo pouco comum na historiografia tradicional, interessada constantemente no ponto de vista hegemônico dos ganhadores. Erguido na cartilha do melodrama, o filme atravessa os caminhos do bem e do mal, com cenas de amor e paixão, perdas e danos, superação e negação, com a câmera de Wise a passear por diversos espaços, representando os elementos do que conhecemos pela já citada Idade do Bronze: os suntuosos espaços da elitizados e a escassez e a pobreza de outro. Dicotomia pura.

No que concerne aos elementos estéticos, Helena de Troia cumpre bem o seu papel para uma produção cinematográfica dos anos 1950. Os enquadramentos e a profundidade de campo (graças também ao eficiente trabalho de Edward Carrere no designer de produção) dão conta da noção de épico, produções que geralmente investiam muito dinheiro em cenografia e figurino. A montagem de Thomas Reilly também está eficiente, supervisionada por Wise, experiente na edição do excepcional Cidadão Kane, assim como a condução musical regular de Max Steiner.

Com traços da peça Helena, de Eurípedes, o épico dirigido por Robert Wise lhe abriu as portas para os sucessos futuros, vide Amor, Sublime Amor e A Noviça Rebelde. Hollywood, muitas décadas depois, investiria em outra versão da Ilíada, mas desta vez, focada no heroísmo de Aquiles. Outras produções com menor orçamento também fizeram releituras interessantes do mito de Helena, dentre os destaques, o perturbador Encaixotando Helena, de J. C. Lynch; Cinzas do Paraíso, do argentino M. Piñeyro, trama sobre “uma” Helena metafórica que representa a condição feminina na sociedade, personagem que causa desconforto por onde passa; e Duas Vezes com Helena, de Mário Farias, filme brasileiro que também emula alguns elementos do mito.

Helena de Troia — (Helen of Troy) Estados Unidos/Itália, 1956.
Direção: Robert Wise
Roteiro: John TwistN. Richard Nash , Hugh Graybaseados no poema Ilíada, de Homero
Elenco: Rossana Podestà, Jacques Serna, Stanley Baker, Nora Swinburne, Robert Douglas, Cedric Hardwicke,  Brigitte Bardot, Harry Andrews, Robert Brown
Duração: 120 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.