Crítica | Helena de Troia (2003)

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O amor é a solução e o problema em muitas narrativas literárias. Os homens que sofrem de amor na vanguarda romântica encontraram, algumas vezes, o caminho da morte por conta de tal sentimento. Os realistas, por sua vez, trataram o sentimento com uma pitada ironia, pois muitos acreditavam que “amar” podia levar à derrocada de uma postura relativamente centralizada. Na epopeia a coisa não é muito diferente. Em determinado momento de sua vida, Páris, um dos catalisadores da Guerra de Troia possui o direito de escolha, mas acaba por decidir pelo caminho do amor e do desejo, algo que sabemos, até beira à obsessão e ao sentimento de posse no que tange ao seu relacionamento com a bela e recatada Helena de Troia.

Vamos para as devidas explicações. De acordo com a mitologia grega e os relatos que compõem os cantos da poesia homérica, certa vez, Páris precisa decidir uma situação que gravita em torno dos “egos” de três deusas, representadas, nesta minissérie, pelas atrizes Emily Kosloski (Afrodite), Andreea Radutoiu (Hera) e Gina Nalamlieng (Atena). Conta-se que certa vez, enquanto realizava uma atividade no campo, Páris é surpreendido por Zeus e as três deusas. Ele precisa resolver um problema estabelecido no casamento entre Peleu e a deusa Tétis, evento badalado no Olimpo, tipo aquelas festas do Oscar onde só entram as celebridades e os seus egos, sabe? Então, neste local, Éris, a deusa da discórdia, deixou uma fruta de ouro com a seguinte descrição: “para a mais bela”. As três deusas entram em conflito, o que leva a necessidade da decisão na figura de um mortal, sendo Páris o escolhido para esta missão que traria graves consequências futuras.

Hera oferece domínio territorial. Atena oferta sabedoria. Afrodite informa que se for a escolhida, proporcionará o “amor”. Páris aceita o pacote ofertado por Afrodite, o que desperta a ira das outras duas. O amor, representado na figura de Helena numa situação futura, trará o prometido pela deusa, mas juntamente com isso, os dez anos de uma guerra que trouxe consequências para a vida de todos os envolvidos. Aquiles, quase imortal, morre. Odisseu, ao voltar da guerra, leva anos para conseguir reencontrar o seu reino, o que compreende a sua esposa Penélope e o seu filho Telêmaco. Enéas consegue fugir por um caminho indicado por Páris e futuramente forja a história de Roma. Heitor, um dos homens mais respeitados de Troia, morre num combate. E por fim, Helena, após a sua aventura, precisa aceitar ser novamente uma mercadoria para Menelau. A mitológica personagem, filha de Zeus com a mortal Leda, responsável por virar até mesmo a cabeça de Teseu, o famoso matador do Minotauro, não encontra a glória e a honra no final de sua jornada, num ciclo que se volta constantemente para o terreno de propriedade patriarcal.

Sendo assim, entre o ponto de partida literário, isto é, a mitologia e a obra homérica, os dois capítulos de Helena de Troia, escritos por Ronnie Kern e dirigidos por John Kent Harrison, se desenvolvem, com ênfase nas batalhas, nos hábitos dos gregos e na figura da mulher, submissa e oprimida pelo poder patriarcal num período de relevância feminina apenas na seara do Olimpo. Ser mulher e ser mortal, nesta época, segundo a série e conforme os relatos da história da humanidade dos tempos antigos ao contemporâneo, era, sem hipérboles, uma situação imensamente miserável.

O elenco formado por atores, em sua maioria, britânicos, desempenha as suas atuações nos cenários realizados entre Malta e a Grécia, dando corpo ao mito que já conhecemos bem, graças aos resgates que o cinema e a televisão fazem constantemente. Tudo começa quando a rainha de Troia dá a luz ao menino chamado Alexandre, bebê que será entregue para ser eliminado porque segundo Cassandra (Emilia Fox), tal criança representa a queda da cidade no futuro. Príamo (John Rhys-Davies) é o rei de Troia e com pensamento estrategista constante, prefere dar ouvidos para a moça, tendo em vista evitar a derrocada do poder no futuro.

Sabemos, entretanto, que não vai adiantar. O menino é entregue para ser morto, mas o encarregado da função prefere não mata-lo. Um pastor, por sua vez, o encontra, dá um nome (Páris) e decide cria-lo. O individuo abandonado de repente ganha nome e chance de sobrevivência, tornando-se um belo rapaz, representado na fase adulta por Mathew Marden. Deste momento em diante o que resta dos 175 minutos de produção será focado no encontro de Páris com Helena, a ida dos personagens para Troia, a declaração de guerra e o embate que se tornará um dos temas mais imortais da literatura, graças ao desempenho narrativo da Ilíada, atribuído ao poeta Homero. Na série, o universo mitológico ganhou enquadramentos sem grandes inovações, condução musical básica e montagem idem, um produto com elementos estéticos burocráticos.

Helena (Sienna Guillory) é uma jovem que desperta constantemente o interesse dos homens por conta da sua beleza. Agamenon (Rufus Sewell), mesmo casado com a irmã da moça, não consegue tirar os olhos da mulher-mito. Após conseguir possui-la, Helena é levada para o seu reino e vivem um relacionamento sob a sua supervisão, até que num certo dia, depois que Páris é reencontrado pela família que o renegou e enviado juntamente com Heitor (Daniel Lapaine) para uma missão diplomática com os espartanos, a moça não resiste aos seus encantos e foge com o jovem para Troia. Com a guerra estabelecida, Agamenon e seu irmão Menelau (James Callis) convocam o astuto e estrategista Odisseu (Nigel Whitmey), rei de Ítaca, responsável por convencer Aquiles (Joe Montana) para também seguir rumo ao combate.

O que vem adiante nós já sabemos. As promessas, os combates, as perdas e danos de ambos os lados. Troia cai graças ao cavalo que se acreditava ser um presente dos deuses. Os gregos vencem a guerra, os espólios de Troia serão convertidos em material para subsidiar a escravidão, numa história que ressoa da Antiguidade clássica até os dias atuais. Aquiles, Odisseu, Heitor, Eneias, Páris, dentre outros, são nomes que se referem aos tempos gloriosos onde os homens lutavam ferozmente pela “honra”. As mulheres, no entanto, são colocadas em seus “devidos lugares”, postos inoportunos, por sinal.

Helena de Troia — (Helen of Troy) Estados Unidos, 2003.
Direção: John Kent Harrison
Roteiro:  Ronni Kern , baseados no poema Ilíada, de Homero
Elenco:  Sienna Guillory, Matthew Marsden, John Rhys-Davies, Rufus Sewell, Maryam d’Abo, Emilia Fox, James Callis, Daniel Lapaine, Nigel Whitmey
Duração: 175 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.