Crítica | Helix – 1ª Temporada

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estrelas 2

Assim como Z Nation, Defiance e 12 Monkeys, Helix faz parte do projeto do canal SyFy de sair do atoleiro criativo em que se meteu depois que passou a investir em telefilmes trash. No entanto, ao contrário de sua escrachada e divertidíssima série de zumbis, Helix se leva a sério demais sem oferecer ao espectador material bom o suficiente para que isso seja possível.

A premissa é lugar-comum – uma epidemia de um vírus misterioso – mas isso nunca foi problema para roteiros inteligentes e criativos. Aliás, muito sinceramente, a premissa em si é atraente, pelo menos para mim, pois a contenção de doenças costuma ser objeto de thrillers no mínimo bons, como Epidemia, de 1995 e Contágio, de 2011. Isso além de ser uma temática atual, em que pelo menos todo ano o mundo enfrenta desde surtos de dengue até a proliferação do mortífero e assustador ebola. Portanto, novamente, a premissa clichê não é nem de longe o problema de Helix.

E o melhor é que o primeiro episódio da temporada, apesar de, como costumeiro, derramar uma quantidade grande de informação no colo dos espectadores, é muito eficiente ao homenagear o espírito de clássicos do terror sci-fi como Alien e O Enigma de Outro Mundo. Sem tentar esconder as inspirações, Cameron Porsandeh, o criador da série e que também é produtor executivo com Ronald D. Moore (o grande nome por trás do reboot de Battlestar Galactica), e Steven Maeda, não tem qualquer escrúpulo – e nem precisaria ter – em usar sequências diretamente retiradas das duas obras cinematográficas citadas, com um cenário desolado e isolado no ártico que vem de O Enigma de Outro Mundo e o uso da tubulação de ventilação para a circulação e caça das pessoas contaminadas por um vírus misterioso.

Mas, logo depois do primeiro episódio, a estrutura narrativa começa a ferir mortalmente a lógica interna estabelecida na série. Afinal, toda a ação se passa em um centro de pesquisas da empresa farmacêutica Ilaria Corporation que atua acima do paralelo 83, território internacional e, portanto, não sujeito à regras de país algum. Mesmo aceitando esse aspecto, fica difícil entender porque o Dr. Hiroshi Hatake (Hiroyuki Sanada), então, envolveria o CDC (Centro de Controle de Doenças americano, com sede em Atlanta) com um pedido urgente de socorro, que é atendido pelo Dr. Alan Farragut (Billy Campbell, o candidato a prefeito de Seattle Darren Richmond de The Killing) e sua equipe, as Dras. Julia Walker (ex-esposa de Alan e vivida por Kyra Zagorsky), Doreen Boyle (Catherine Lemieux) e Sarah Jordan (Jordan Hayes, ex-aluna de Alan que, claro, tem paixonite por ele). Mesmo considerando explicações posteriores, tragar o CDC para dentro de uma base completamente independente por causa de uma epidemia ainda em seu começo parece forçar a barra ao ponto de quebrá-la.

No entanto, se fosse só esse o problema, não haveria razão para considerar Helix abaixo da média. A questão principal é mesmo o roteiro que, ao tratar seus personagens como verdadeiros idiotas, trata o espectador como idiotas também. Primeiro, há o mistério encarnado, que é o Dr. Hatake, líder da base. Ele não responde perguntas, não oferece ajuda, não esclarece nada e ninguém faz nada. Todo mundo aceita sua passividade como se fosse a coisa mais natural do mundo, apesar de alguns olhares reprovadores aqui e ali. Farragut, por sua vez, é “vendido” como um dos maiores especialistas do mundo em epidemias, com larga experiência em campo, mas sua liderança em situações de emergência, conforme vemos no desenrolar dos episódios é absolutamente ridícula, com decisões absurdas tomadas sem qualquer raciocínio, como por exemplo aceitar, sem qualquer sombra de dúvida, o “kit-diagnóstico” desenvolvido por Jordan ou simplesmente esquecer-se que Doreen Boyle veio com ele (ela fica isolada trabalhando no seu canto, sem nem ao menos se comunicar com Farragut de maneira eficiente).

E, como se isso não bastasse, a necessidade de se amontoar mistérios não resolvidos a cada episódio é quase patológica, como foi em Lost. Não bastasse a natureza curiosa do vírus, que mata alguns e transforma outros em vetores, há ainda questões de sequestro de crianças inuit, laços familiares estranhíssimos, traições sem sentido, cabeças na neve (sim, cabeças) e uma raça de pessoas que são… bem, não vou contar, caso alguém tenha interesse ainda em assistir esse pot-pourri de bizarrices encapsuladas em 13 episódios. Ainda que alguns mistérios sejam esclarecidos, eles são substituídos por outros dois ainda mais complexos e desconexos.

Em termos de atuação, a série também falha fragorosamente. Sanada e Campbell, vivendo dois brilhantes cientistas em polos opostos, tem atuações que se resumem a vozes como se estivessem o tempo todo cochichando (sim, os dois fazem isso!) e olhares maquiavélicos para o primeiro e úmidos e perdidos para o segundo. São clichês ambulantes acompanhados por mais clichês ambulantes, como Zagorsky vivendo a mulher durona e decidida e Jordan a jovem que vive nas nuvens escondendo um mistério terrível. Ah, e como poderia me esquecer de Neil Napier, que vive o Dr. Peter Farragut, o paciente zero da infecção e irmão de Alan e Mark Ghanimé, o Major Sergio Balleseros (em tese, brasileiro)? Napier passa 95% do tempo infectado e vivendo como um risível monstro vagando pela base e Ghanimé faz aquele tipo de vilão que é moldado para que nós amemos odiar, mas que o ator não tem a mínima capacidade de sair da superfície, sempre com caras e bocas.

Mas serei injusto se disser que a série é completamente imprestável. Não é. Em um nível bem rasteiro, ela chega até a divertir, mas só se especador não esperar nada da narrativa e conseguir rir das colossais besteiras que os roteiros trazem a cada episódio. Mesmo não sendo esse o objetivo da série que, como disse, se leva a sério, as risadas involuntárias serão a única forma de apreciar essa bobagem do SyFy. E tem mais um mérito, que não posso deixar de frisar: o último episódio deixa um bom cliffhanger que muda as regras do jogo e que, por incrível que pareça, acabou me deixando curioso para a 2ª temporada (já em produção).

Helix – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2014)
Showrunner: Steven Maeda
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Billy Campbell, Kyra Zagorsky, Mark Ghanimé, Hiroyuki Sanada, Jordan Hayes, Neil Napier, Meegwun Fairbrother, Matt Long, Luciana Carro, Amber Goldfarb, Catherine Lemieux, Jeri Ryan, Robert Naylor
Duração: 526 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.